Como a austeridade ajudou a atear os históricos incêndios na Grécia

27 de agosto 2021 - 22:38

Anos consecutivos de cortes no combate a incêndios florestais alimentaram um dos piores desastres naturais da Europa. Sem investimento em serviços públicos para combater as alterações climáticas, a história vai repetir-se. Artigo de Stelios Foteinopoulos.

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Bombeiro na ilha de Eubeia, Grécia.
Bombeiro na ilha de Eubeia, Grécia. Foto de Sotiris Dimitropoulos/Flickr

Se Ferdinand Lassalle fosse vivo, conseguiria ver como as suas ideias envelhecem mal. Em 1862, Lassalle, discursando para uma reunião socialista em Berlim, delineou a sua teoria do estado guarda-noturno - um conceito neoliberal segundo o qual o estado transfere o seu modus operandi para o setor privado e mantém apenas algumas funções vitais mas limitadas, como garantir a segurança e a estabilidade social.

Nas últimas semanas na Grécia, a maioria ficaria surpreendida ao ver uma amostra disso. O Estado grego falhou, mesmo comparado com um guarda-noturno cujo único dever é evitar o pior.

Enquanto escrevo, mais de 100.000 hectares da Grécia foram queimados por fogos florestais devastadores, 60.000 apenas na ilha de Eubeia. Mais de 100.000 pessoas foram afetadas.

A série de incêndios nas últimas duas semanas queimou grandes áreas em Atenas, no Peloponeso e noutros locais. Quarenta comunidades e cidades foram varridas, e os incêndios continuam fora de controlo, forçando milhares de pessoas a fugir das suas casas, muitas vezes de forma repentina. Na maioria das frentes de incêndio, os recursos de camiões de bombeiros, forças terrestres e combate aéreo aos incêndios foram limitados ou mesmo inexistentes. Os estados da UE que no passado obrigaram a Grécia a aceitar cortes orçamentais, agora apressam-se a fornecer ajuda e aviões lança-água.

O pior desastre ecológico de todos os tempos na Grécia, e um dos piores da Europa, ocorreu no pico de uma extrema onda de calor que durou cerca de três semanas. O calor secou a humidade e deixou os pinhais prontos a arder - demonstrando que o colapso do clima já está entre nós.

A questão deixada no ar é simples. Poderia ter sido evitado algum destes desfechos? Será que estes incêndios resultaram diretamente dos efeitos da crise climática, ou é algo mais complicado?

Em Novembro do ano passado, mesmo antes de o governo grego elaborar o orçamento anual de 2021, as Autoridades Florestais solicitaram formalmente 17,7 milhões de euros. O governo deu-lhes apenas 1,7 milhões.

Isso não foi uma surpresa: os últimos anos têm sido de austeridade e cortes. De 2016 a 2020, a despesa média do governo dirigida às Autoridades Florestais foi de apenas 1,72 milhões de euros, deixando as suas operações estruturalmente subfinanciadas e, portanto, com falta de pessoal - apesar do facto de um terço do país estar coberto de floresta. Cerca de cinco mil bombeiros também viram os seus contratos terminar, enquanto o governo aumentou o número de polícias em várias centenas.

A austeridade está muito presente na Grécia, apesar do que os ideólogos neoliberais apregoam sobre um regresso à "normalidade económica". Os incêndios florestais em Eubeia, a segunda maior ilha grega depois de Creta, apontam para os resultados desastrosos de um Estado que não concilia as suas prioridades com as do seu povo. Nos últimos meses, 1,9 mil milhões de euros foram dedicados à compra de aviões de caça para justificar o antagonismo militar entre a Grécia e a Turquia (ambos membros da NATO), e 6,6 mil milhões de euros foram atribuídos à NATO. Foram disponibilizados 30 milhões de euros para a criação de uma força policial especial a ser colocada nas universidades públicas da Grécia. Aí reside a contradição de um Estado que gasta tanto em mecanismos de repressão mas que não consegue providenciar segurança.

A estratégia do Governo para lidar com os incêndios baseava-se em grande medida em mensagens de evacuação enviadas para os telemóveis dos residentes. Mas os esforços do primeiro-ministro para evitar baixas fizeram ricochete: sem linhas de defesa em torno das aldeias e das pequenas cidades, os habitantes locais decidiram assumir o comando e travar eles próprios a batalha. Usando tudo, desde mangueiras a veículos agrícolas, camiões-cisterna a pás e enxadas, os habitantes locais, juntamente com pessoas que por acaso passavam as suas férias na zona, lançaram-se aos incêndios, muitas vezes com resultados notáveis. Como resultado da emergência e da incapacidade do Estado em fornecer o apoio necessário, as redes de solidariedade foram autorizadas a tomar a iniciativa.

Estas redes e organizações estão agora encarregues da situação. Começaram a construir contra-estruturas para fornecer bens de primeira necessidade às pessoas afetadas, criaram cozinhas sociais, trouxeram geradores onde a electricidade está cortada, e prestaram apoio psicológico às pessoas que dele necessitavam. Um novo mundo que se ergue literalmente das cinzas permitiu que as pessoas refletissem sobre o que aconteceu e o que ainda está por vir.

O fogo está agora quase sob controlo, mas a extensão total da sua devastação ainda tem de ser determinada. Milhares de pessoas enfrentam evacuações a longo prazo e a perda das suas casas, quintas e empresas, para não falar das infra-estruturas.

Esta é uma questão de sobrevivência para as comunidades locais e não de gestão de crise para os marginalizados. Num mundo em mudança climática, todos nós somos potencialmente marginalizados. Ver pessoas a fugir das suas casas para os pequenos barcos na costa poupa-nos a ter de imaginar a que é que serão parecidos os refugiados climáticos.

Ampliar o foco do local para o global obriga-nos a ver que não há nada de 'ordeiro' na ordem neoliberal no mundo de hoje. Antes que acabemos a lutar pela sobrevivência das nossas comunidades, deveríamos ponderar se a luta pela redistribuição da riqueza e uma grande mudança nas prioridades dos nossos Estados é uma condição sine qua non para termos alguma hipótese. Devemos também ponderar o que se segue: o agravamento das desigualdades, a luta pelos recursos que restam, a instabilidade social e geopolítica.

O que está a acontecer na Grécia poderá ser apenas o prelúdio de todos estes futuros. Se aqueles que alimentam a crise climática global não pretenderem tomar medidas, teremos de ser nós.


Stelios Foteinopoulos é um antigo responsável pela Política de Relações Internacionais no Instituto Nicos Poulantzas em Atenas, Grécia. É agora analista de assuntos da União Europeia e membro do Momentum.

Artigo publicado em Tribune a 13 de agosto de 2021. Traduzido por Luís Branco para o esquerda.net