Colapso contagioso

05 de junho 2022 - 19:52

O sistema alimentar global está com mais problemas do que pensamos. Precisamos urgentemente de diversificar a produção, quebrar o domínio das grandes empresas e especuladores financeiros, criar sistemas de segurança alternativos e introduzir capacidade de reserva. Por George Monbiot.

porGeorge Monbiot

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Colheita de trigo. Foto de Jim Choate/Flickr.
Colheita de trigo. Foto de Jim Choate/Flickr.

Nos últimos anos, os cientistas têm estado a lançar freneticamente um alarme que os governos se recusam a ouvir: o sistema alimentar global começa a parecer-se com o sistema financeiro global no período que antecedeu 2008.

Se o colapso financeiro teria sido devastador para o bem-estar humano, o colapso do sistema alimentar constitui algo impensável. No entanto, as provas de que algo está a correr muito mal têm vindo a aumentar rapidamente. O atual aumento dos preços dos alimentos parece ser o mais recente sinal de instabilidade sistémica.

Muitas pessoas presumem que a crise alimentar foi causada por uma combinação da pandemia e da invasão da Ucrânia. Embora estes sejam fatores importantes, o que eles fazem é agravar um problema subjacente. Durante anos pareceu que a fome estava a caminho da extinção. O número de pessoas subnutridas caiu de 811 milhões em 2005 para 607 milhões em 2014. Mas, em 2015, a tendência começou a inverter-se e da fome tem vindo a aumentar desde então: para 650 milhões em 2019 e de regresso aos 811 milhões em 2020. Este ano é provável que seja muito pior.

Agora prepare-se para as notícias realmente más: tudo isto aconteceu numa altura de grande abundância. A produção global de alimentos tem vindo a aumentar constantemente há mais de meio século, vencendo confortavelmente o crescimento da população. No ano passado, a colheita global de trigo foi a maior de sempre. Surpreendentemente, o número de pessoas subnutridas começou a aumentar exatamente à medida que os preços mundiais dos alimentos começaram a descer. Em 2014, quando havia menos pessoas com fome do que em qualquer outro momento, o índice global de preços dos alimentos situava-se nos 115 pontos. Em 2015, caiu para 93 e permaneceu abaixo dos 100 até 2021.

Só nos últimos dois anos é que subiu. O aumento dos preços dos alimentos é agora um dos principais motores da inflação, que atingiu 9% no Reino Unido, no mês passado. Os alimentos estão a tornar-se inacessíveis até mesmo para muitas pessoas nas nações ricas. O impacto nos países mais pobres é muito pior.

Fragilidade no sistema alimentar global faz lembrar a que levou à crise financeira

Mas então, o que tem vindo a acontecer que possa explicar isto? Bem, a alimentação global, tal como a finança global, é um sistema complexo, que se desenvolve espontaneamente a partir de milhares de milhões de interações. Os sistemas complexos têm propriedades contra-intuitivas. São resilientes sob certas condições, uma vez que as suas propriedades auto-organizadoras os estabilizam. Mas à medida que a pressão aumenta, estas mesmas propriedades começam a transmitir choques através da rede. Ultrapassado um determinado ponto, uma pequena perturbação pode fazer transbordar todo o sistema para além do seu limiar crítico, o que provoca o seu colapso, de forma repentina e imparável.

Sabemos atualmente o suficiente sobre sistemas para prever se podem ser resilientes ou frágeis. Os cientistas representam sistemas complexos como uma rede de nós e ligações. Os nós são como os nós de uma rede clássica, antiga; as ligações são as cordas que os ligam. No sistema alimentar, os nós incluem as empresas que comercializam cereais, sementes e produtos químicos agrícolas, os principais exportadores e importadores e os portos por onde passam os alimentos. As ligações são as suas relações comerciais e institucionais.

Se os nós se comportarem de várias maneiras e as ligações entre eles forem fracas, é provável que o sistema seja resiliente. Se determinados nós se tornarem dominantes, começarem a comportar-se de formas semelhantes e estiverem fortemente interligados, é provável que o sistema seja frágil. Na abordagem à crise de 2008, os grandes bancos desenvolveram estratégias semelhantes e formas semelhantes de gerir o risco, uma vez que tinham as mesmas fontes de lucro. Tornaram-se fortemente ligados uns aos outros de formas que os reguladores mal compreendiam. Assim, quando o Lehman Brothers caiu, ameaçou levar todos os outros consigo.

É algo semelhante que está a provocar uma forte preocupação entre aqueles que estudam o sistema alimentar global. Nos últimos anos, tal como na banca durante os anos 2000, os nós-chave do sistema alimentar cresceram, as suas ligações tornaram-se mais fortes, as estratégias empresariais convergiram e sincronizaram-se e os elementos que poderiam impedir o colapso sistémico ("redundância", "modularidade", "circuit breakers" e "sistemas de reserva") foram removidos, expondo o sistema a choques "contagiosos a nível global".

Segundo uma estimativa, apenas quatro empresas controlam 90% do comércio global de cereais. As mesmas empresas têm negociado sementes, produtos químicos, processamento, embalagem, distribuição e venda a retalho. Ao longo de 18 anos, o número de ligações comerciais entre os exportadores e importadores de trigo e arroz duplicou. As nações estão atualmente a polarizar-se em super-importadores e super-exportadores. Grande parte deste comércio passa por pontos de estrangulamento vulneráveis, tais como o Estreito Turco (agora obstruído pela invasão russa da Ucrânia), os canais de Suez e Panamá e os Estreitos de Hormuz, Bab-el-Mandeb e Malaca.

Alimentação menos diversa e concentração na indústria aumenta risco de choques

Uma das mudanças culturais mais rápidas na história da humanidade é a convergência para uma "Dieta Padrão Global". Enquanto a nossa alimentação se tornou mais diversificada localmente, a nível global tornou-se menos diversificada. Apenas quatro culturas – trigo, arroz, milho e soja – são responsáveis por quase 60% das calorias cultivadas pelos agricultores. A sua produção está agora altamente concentrada num pequeno grupo de países, que inclui a Rússia e a Ucrânia. A Dieta Padrão Global é cultivada pela Quinta Padrão Global, fornecida pelas mesmas empresas com os mesmos conjuntos de sementes, produtos químicos e maquinaria, e vulnerável aos mesmos choques ambientais.

A indústria alimentar está a tornar-se fortemente ligada ao sector financeiro, aumentando aquilo a que os cientistas chamam a "densidade de rede" do sistema, tornando-o mais suscetível a falhas em cascata. Por todo o mundo, as barreiras comerciais foram derrubadas e as estradas e portos melhorados, racionalizando a rede global. Poder-se-ia pensar que este sistema suave aumentaria a segurança alimentar. Mas ele tem permitido que as empresas se livrem dos custos de armazenagem e inventários, passando dos stocks para os fluxos. Na maior parte das situações, esta estratégia just-in-time funciona. Mas se as entregas forem interrompidas ou se houver um rápido aumento da procura, as prateleiras podem de repente ficar vazias.

Um artigo publicado na revista Nature Sustainability relata que no sistema alimentar, "a frequência de choque aumentou ao longo do tempo em terra e no mar à escala global". Ao fazer a investigação para o meu livro Regenesis, cheguei à conclusão de que é esta série crescente de choques contagiosos, agravados pela especulação financeira, que tem conduzido à fome global. Choques causados por surtos especulativos, ruturas na cadeia de abastecimento, proibições de exportação, estrangulamentos e outras questões sistémicas que dificilmente afetavam os países ricos antes de 2020, e por isso ignorámo-los. Mas causaram estragos em países pobres com moedas fracas, que se encontram no fim da fila. Os preços locais podem aumentar mesmo quando os preços globais permanecem baixos.

Atualmente o sistema alimentar global tem de ultrapassar não apenas as suas fragilidades internas, mas também as perturbações ambientais e políticas que possam interagir umas com as outras. Para dar um exemplo atual, em meados de abril o governo indiano sugeriu que poderia colmatar o défice nas exportações globais de alimentos causado pela invasão russa da Ucrânia. Apenas um mês mais tarde, proibiu as exportações de trigo, depois de as culturas terem sido queimadas por uma onda de calor devastadora.

Precisamos urgentemente de diversificar a produção alimentar mundial, tanto geograficamente como em termos de culturas e técnicas agrícolas. Precisamos de quebrar o domínio das grandes empresas e dos especuladores financeiros. Precisamos de criar sistemas de segurança alternativos, produzindo alimentos por meios totalmente diferentes. Precisamos de introduzir capacidade de reserva num sistema ameaçado pela sua própria eficiência.

Se tantas pessoas passam fome numa época de abundância sem precedentes, as consequências do fracasso das principais colheitas causado pela degradação ambiental constituem um desafio à nossa imaginação. O sistema tem de mudar.


Publicado em 20 de maio de 2022 no blogue do autor.

Traduzido para o Esquerda.net por Paulo Antunes Ferreira. Os subtítulos são da responsabilidade do Esquerda.net.

George Monbiot
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