As cheias que abalaram Portugal em 1967: Testemunho de Danilo Matos

08 de maio 2020 - 9:09

O esquerda.net reproduz o testemunho do então estudante do Técnico, em Lisboa, que participou no socorro às vítimas na Vala do Carregado. Divulgamos ainda o seu documentário, com cerca de 15 minutos, sobre a mobilização estudantil no auxílio às populações atingidas.

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Estamos a 25 de Novembro de 1967, anoitece, chuva intensa começa a cair sobre a cidade de Lisboa. Era sábado, eu era estudante de engenharia no Técnico, vivia num quarto alugado ali perto, na Alameda D. Afonso Henriques, numa casa com outros amigos da Madeira. Durante toda a noite a chuva não parou, tínhamos a percepção de estar a viver uma situação complicada. As notícias eram poucas, mas por volta da meia noite, à saída dos cinemas, as rádios diziam que a cidade estava paralisada, inundada, e que a chuva caía cada vez mais, especialmente na Grande Lisboa, no Ribatejo e de Algés até ao Estoril. Aconselhava as pessoas a não saírem das suas casas.

Fernando Sacramento, de barbas, presidente da AE do Tecnico 67/68, da qual Danilo Matos foi 1º secretário.

No dia seguinte, domingo, ainda chovia, mas a noite, viemos a saber mais tarde, tinha sido trágica, dramática. As notícias continuavam a ser poucas, a censura prévia em vigor não deixava e cortava tudo o que se relacionava com mortos e desaparecidos. As primeiras, escondiam a dimensão trágica e humana daquela noite, tudo foi reduzido oficialmente a uma situação normal para a época, aos caprichos e fatalidades da natureza. Esta visão custou caro, como veremos, porque o regime ficou paralisado e foi incapaz de accionar os apoios e mecanismos urgentes de socorro, deixando milhares de pessoas sozinhas, abandonadas à escuridão da noite, à sua sorte.

Ajuntamento do povo para reunião do dia 28.

É na cantina da Associação de Estudantes do Técnico, que eu frequentava diariamente e onde fazia as minhas refeições, que tenho a primeira aproximação à dimensão da catástrofe, através dos noticiários da cabine sonora. Eu era um colaborador activo da Associação, da qual tinha sido dirigente. Resolvi permanecer por ali, na certeza, como aconteceu, de que as notícias iam chegar. E foram chegando e eram terríveis. A censura pode cortar tudo, menos a oralidade, a transmissão da verdade.

Na segunda feira, num plenário de estudantes frente ao pavilhão central, discute-se o que fazer. As informações chegam e são relatadas por muitos colegas que tiveram de atravessar Lisboa para vir às aulas. As Associações de Estudantes (AAEE) reúnem as suas direcções (RIA- Reunião Inter-Associações), ao mesmo tempo a JUC- Juventude Universitária Católica tem um encontro com a Associação do Técnico para coordenar esforços de apoio às vítimas.

António Redol, membro da Comissão Coordenadora Geral, formada pelas Associações de Estudantes e a JUC. Ao lado, o Prates, tesoureiro da Assocação de Estudantes do Técnico.

Uma proposta de unidade e acção estava sobre a mesa numa iniciativa muito importante porque a JUC desenvolvia já muito trabalho de proximidade nos bairros sociais e veio emprestar ao movimento de solidariedade então desencadeado uma dimensão unitária de relevo perante a situação política do país – já não eram só os ‘comunistas’, como tentaram denegrir a Solidariedade Estudantil que foi enviada para junto das populações.

Desse encontro nasce uma Comissão Coordenadora Central, com o Quartel General instalado na Associação do Técnico. Dela faziam parte, lembro-me, o António Redol e o Armindo, meus colegas, em representação das AAEE, e pela JUC o António Cavaco, que eu não conhecia. Uma noite a organizar o trabalho.

Uma mulher com a revolta estampada no rosto.

No dia seguinte, terça feira 28, saem as primeiras “brigadas de campo” para as zonas mais atingidas ainda com o objectivo de avaliar a situação e as necessidades, escolher os locais e as prioridades. Os elementos e dados recolhidos ao fim do dia eram assustadores. São criadas comissões locais em diversas escolas e liceus e lançado um apelo para a recolha de donativos, medicamentos, cobertores e roupas quentes. As faculdades do Porto e Coimbra também se associaram ao movimento. Solidariedade era a nossa bandeira.

E na quarta-feira, logo pela manhã, um ‘comboio’ de camionetas, cedidas por empresas e autarquias, e de autocarros, alguns da Carris, aguardava estacionado no alto da Alameda D. Afonso Henriques, com material de campanha, botas de água, pás, picaretas, luvas. Começaram a sair as brigadas de campo de apoio aos trabalhos de limpezas e de desobstrução. Cada brigada tinha o seu responsável; eu, por exemplo, fiquei responsável pela brigada destacada para a Vala do Carregado, concelho de Vila Franca. A cantina da Associação preparava refeições ligeiras frias para o dia e que, às vezes, eram repartidas com outras pessoas. Partiram para o campo 15 a 20 brigadas, cerca de 500 estudantes segundo os registos divulgados.

Um lençol de água, três dias após a inundação. A brigada a caminho do trabalho.

Ao mesmo tempo, os estudantes de medicina organizam eles próprios, na sua Faculdade, as ‘brigadas médicas’. Tudo isto foi muito rápido. A esta distância eu próprio, que tenho vindo a fazer um exercício de memória para escrever este testemunho, fico espantado com a capacidade de organização e sobretudo com a mobilização espontânea surgida - estávamos em ditadura, não esquecer.

Nos dias seguintes acorreram à Associação do Técnico centenas de pessoas a oferecer-se para colaborar e saber das notícias que o regime censurava. À medida que o número de mortos aumentava a censura era mais drástica, chegando ao ponto de proibir as redacções dos periódicos de revelar números, “não há mais mortos”, diz-se que foi a ordem dada por Salazar.

Em termos organizativos foram criadas as ‘brigadas de campo’, que saíam da Associação do Técnico e as ‘brigadas médicas’, que saíam de Medicina. As primeiras, que são as que conheço melhor, tinham, como já disse, um responsável que, no regresso, entregava um Relatório à Comissão Coordenadora Central, e eram compostas, consoante os meios de transporte disponibilizados e os locais, por cerca de 40/50 estudantes cada.

Criança com brinquedo na mão.

As segundas, que reuniram cerca de 300 estudantes e jovens médicos, tiveram um papel muito importante sobretudo na vacinação e no aconselhamento sanitário das populações. Todos os membros das brigadas de campo, por exemplo, eram previamente vacinados contra a febre tifoide. Lembro-me que foram criados em algumas localidades serviços de vela e pequenos recintos para cuidar das crianças enquanto decorriam os trabalhos de limpezas.

A um outro nível, a organização da informação aos estudantes e às populações era uma exigência e um dever. As notícias que chegavam através das brigadas e de relatos de muitos jornalistas conhecidos a quem o lápis azul da censura riscava as suas reportagens, eram passadas, através das cabines sonoras das Associações e dos jornais de parede espalhados pelas faculdades.

O SCIP – Secretariado de Informação e Propaganda, órgão das AAEE, dirigido pelo João Bernardo, pela Diana Andringa, pelo Alexandre Oliveira e o João Crisóstomo, estes dois já falecidos, centralizava a maior parte das informações e editou um boletim próprio – o Solidariedade Estudantil (SE), do qual saíram 4 números, um deles, segundo os arquivos, teve uma tiragem de 10 000 exemplares.

O trabalho de campo prolongou-se por duas semanas e envolveu cerca de 6 000/7 000 estudantes. Só no 1º de Dezembro, cerca de 1 300 jovens estudantes estiveram destacados em diversas actividades de apoio directo - dados do boletim SE.

Mas o importante desta campanha de campo, que todos nós, os que lá estiveram, podemos e devemos frisar, não foram os dias ou as horas, foi o que sentimos, o que vivemos, o calor humano ou até o abraço que levámos às pessoas, às crianças e aos velhos. E o que cada um de nós trouxe agarrado à lama que se colou à nossa roupa e cujo cheiro marcou a vida de muitos de nós. Afinal havia outro país, que não aquele que as abandonou.

Para além das causas da tragédia, que irei referir mais à frente, as pessoas foram mesmo abandonadas, o regime revelou a sua natureza, a sua incapacidade, negligência, desorganização e impreparação para lidar e dar resposta a situações deste tipo; muita gente poderia ter sido salva e não foi.

O governo limitou o apoio ao envio da GNR, uma guarda criada para reprimir o povo e não para o salvar em situações de emergência, e nos dias seguintes mandou o Movimento Nacional Feminino e a Legião, o que só causou ainda mais revolta. As autarquias mobilizaram os seus trabalhadores. Mais uma vez os bombeiros municipais e voluntários fizeram o que podiam e que foi muito para os efectivos e meios que tinham.

As cheias de Novembro de 1967, que abalaram o país, marcaram e despertaram muitas consciências politicas e ajudaram a abrir caminhos para a Liberdade

Mas foi a coragem de milhares de pessoas que arriscaram tudo para salvar familiares, amigos e vizinhos, que impediram uma tragédia ainda maior. E essa lição, de determinação, vontade e entre ajuda, para quem esteve no campo, é inesquecível.

Para nós, jovens estudantes a frequentar uma Universidade marcadamente classista, as cheias de Lisboa vieram pôr a nu as condições económicas e sociais do país e a natureza verdadeira de um regime, de que muitos ainda duvidavam. A pergunta que mais se ouvia por tudo o lado era: porquê e como foi possível, assim numa noite?

“Nós não diríamos: foram as cheias, foi a chuva”, escreve o «Comércio do Funchal» no seu editorial de 10 de Dezembro – “Talvez seja mais justo afirmar: foi a miséria que a nossa sociedade não neutralizou, quem provocou a maioria das mortes. Até na morte é triste ser-se miserável. Sobretudo quando se morre por o ser”. O jornal cor de rosa, como ficou conhecido, ainda no seu primeiro ano de edição, conseguia contornar muitos aspectos da censura em vigor.

Ver informações sobre este documetário de Danilo Matos no final teste texto.

Um editorial citado por todo o lado e que levantava o véu com que queriam tapar a realidade. A reforçar esta conclusão do nosso semanário, os dados da precipitação divulgados diziam que tinha chovido mais no Estoril do que na zona da grande Lisboa. No Estoril não morreu ninguém, em Lisboa e no Ribatejo morreram, nunca se soube ao certo nem nunca se saberá, cerca de 700 pessoas.

Para além da cintura e bairros de Lisboa para onde desde o início da década de 60 milhares de pessoas se deslocaram à procura de trabalho, improvisando dormitórios em barracas de madeira e zinco, as zonas mais duramente atingidas foram sobretudo pequenas aldeias e aglomerados do Ribatejo edificadas por trabalhadores rurais e camponeses pobres, empurrados para zonas de risco, nas encostas e fundos das colinas, valas e leitos de cheia. Mais de metade dos mortos registou-se precisamente nos concelhos de Vila Franca, Alenquer e Castanheira, aqui com a aldeia mártir de Quintas, que perdeu metade dos seus, a causar uma grande consternação nacional.

Na cintura de Lisboa as construções eram ainda mais toscas e precárias, e nasceram igualmente em zonas de drenagem natural das águas pluviais, nas margens dos ribeiros e em leitos de cheia, a formar, muitas vezes, uma espécie de diques de obstrução das águas, como lhes chamou Ribeiro Teles, que não resistiram, rebentaram e levavam tudo à sua frente. Na bacia do Trancão, na campina de Loures, nas ribeiras de Algés e Alcântara, em Odivelas, Lugar de Basto, a água e a lama foram implacáveis.

O país faz luto e chora e a revolta é grande, discute e toma mais consciência das condições sociais em que viviam e vivem milhares de portugueses. O comportamento fascista do regime durante a crise despertou largos sectores da sociedade para a luta pela democracia. O movimento de solidariedade colocou milhares de estudantes em contacto com uma realidade dura e miserável.

A natureza do próprio ensino é posta em causa e a guerra colonial que espera os jovens e os estudantes quando terminarem os seus cursos deixa de ser um daqueles assuntos que Salazar não queria que se discutissem, como aquela célebre frase: “Não discutimos Deus e a Virtude. Não discutimos a Pátria e a sua Historia. Não discutimos a Autoridade e o seu Prestígio”, do histórico discurso fascista proferido no 28 de Maio de 1936, que marcou durante 40 anos a ideologia em que se ergueu a ditadura.

A 21 de Fevereiro do ano seguinte-1968, 3 meses depois, realiza-se em Lisboa a primeira manifestação contra a guerra colonial, organizada pelos chamados Comités Vietnam, a que tive a honra de pertencer. No Porto em Janeiro um grupo de jovens manifestou-se também contra a guerra. Como curiosidade, a 20 de Março, Mário Soares era deportado para São Tomé e tem lugar no aeroporto uma concentração de protesto que foi brutalmente atacada pela polícia de choque.

As cheias de Novembro de 1967, que abalaram o país, marcaram e despertaram muitas consciências politicas e ajudaram a abrir caminhos para a Liberdade.

HONRA ÀS SUAS VITIMAS!


Este testemunho surgiu na sequência de um convite da jornalista Dina Soares da Rádio Renascença para fazer um depoimento para o programa que ela realizou sobre as “Cheias de Lisboa”.
Funchal, 26 de Novembro de 2017

Em novembro de 2019, Danilo Matos escreve o seguinte sobre o documentário reproduzido neste texto:

O filme que vão ver, que já aqui coloquei em Maio e Novembro de 2018 e que já foi visto por muita gente, tem, como referi, uma história muito interessante, que não vou repetir. Apenas recordar que as duas bobines de 8mm que filmei, mas nunca tinha visionado, descobria-as quando em Fevereiro do ano passado estava a tentar pôr alguma ordem no meu escritório.

Dei um salto, quando vejo um autocolante com as palavras – “Campanha de solidariedade”. Cheias, Vala do Carregado, só podia ser. O meu primeiro filme, dos poucos que o tempo me deixou fazer. Mandei digitalizar a Lisboa, e quando as vejo no computador a emoção não tem palavras.

Imagens inéditas e ainda bem conservadas, com algumas limitações: eu sabia pouco de cinema, embora fosse uma espécie de militante do Cine Club Universitário. Tinha de as divulgar. Convidei o meu velho amigo arqº José Paradela que, além de ser um melómano, domina estas técnicas de montagem nos computadores.

Optámos pela versão integral, preenchendo os brancos com pequenas frases explicativas. A versão tem cerca de 15,34 minutos. Dividimos o filme em duas partes.

A primeira parte, com cerca de 10,58 minutos, foi filmada no dia 28 de Novembro, e nela vemos aspectos da reunião que os membros da comissão coordenadora estudantil de solidariedade realizaram no local com a população. É muito interessante, porque mostra que quando chegámos ao largo da aldeia não estava ninguém, as pessoas não sabiam ao que vínhamos, a mensagem foi correndo e aos poucos vão chegando, com alguma desconfiança, como é natural, no fundo estavam ali já quase há 2 dias e o apoio tinha sido quase nulo. Em pouco tempo o largo ficou cheio.

As mulheres, como sempre, as mais combativas. O objectivo destas reuniões, que se realizaram neste dia por vários bairros e aldeias do Vale do Tejo e da Grande Lisboa, era conhecer a dimensão dos problemas e colocar no terreno a nossa ajuda. Vão ver que vale a pena o tempo desta primeira parte.

A segunda parte passa-se já no dia seguinte, 29. Uma brigada que saiu de madrugada do Técnico, com cerca de 40 estudantes, com pás, botas de água e outros utensílios para as limpezas das lamas e das habitações, muito precárias como podemos ver. Tem apenas 4,78 minutos, mas as imagens são fortes e a música do Zeca faz chorar, sobretudo a quem lá esteve. Precisava de mais uma bobine, mas eram muito caras e tinham de ser reveladas em Espanha.

Eu era 1º secretário da direcção da Associação de Estudantes do Técnico e fui o escolhido para dirigir os trabalhos desta brigada. Estivemos na Vala creio que 4 dias.

O balanço final não foi a limpeza nem quantidade de lama e outras coisas bem mais chocantes que tirámos, que foram importantes, mas o apoio humano e a solidariedade que transportámos e a lição que, muitos de nós, ‘carregou’ para a vida.

Música de Zeca Afonso (Elegia) e de dois grandes pianistas Dirk Maassen e Michael Nyman.

Nota Final - O filme também está no YOUTUBE e não precisa de link, basta digitar a frase “Cheias da Vala do Carregado”. Podem sempre visionar a qualquer momento. A qualidade das fotos que acompanha este post é fraca porque foram tiradas da passagem do filme no ecrã do computador.

Danilo Matos

Funchal, 25 Novembro 2019