França

Candidatos retiram-se para reforçar oposição à extrema-direita nos duelos de domingo

02 de julho 2024 - 15:04

Graças ao sistema eleitoral francês, estavam previstas para domingo mais de 300 disputas a três candidatos. Contra o perigo da eleição de deputados de extrema-direita, dezenas de candidatos pior colocados estão a sair do escrutínio para concentrar votos contra a União Nacional. A esquerda fá-lo em nome do antifascismo, mas no campo macronista abrem-se exceções.

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Cartaz numa manifestação contra a extrema-direita em França
Cartaz numa manifestação contra a extrema-direita em França. Foto de Jeanne Menjoulet/Flickr.

Esta terça-feira, às 18 horas, hora francesa, termina o prazo para os candidatos apurados para a segunda volta das eleições legislativas francesas desistirem. Com o aumento da votação na primeira volta no passado domingo e com a possibilidade de, no próximo, a extrema-direita vencer as eleições, chegando pela primeira vez ao poder na França contemporânea sem ser através do colaboracionismo com os nazis, ficaram marcados muitos embates a dois ou a três candidatos e houve desde logo apelos diferenciados a “desistências” para barrar o avanço da União Nacional de Le Pen e Bardella.

Isto só se compreende olhando melhor para o sistema eleitoral francês.

O sistema eleitoral francês nas legislativas

Nas legislativas francesas, o sistema eleitoral é maioritário a duas voltas. O que significa que, em cada uma das 577 circunscrições territoriais é eleito apenas um deputado. Para ser eleito na primeira volta, será preciso o candidato ter maioria absoluta dos votos expressos e os seus votos representarem pelo menos 25% da totalidade dos eleitores inscritos.

Caso nenhum candidato obtenha estes dois patamares simultaneamente organiza-se uma segunda volta na qual poderão ir a votos todos os candidatos que tenham obtido mais de 12,5% dos votos do total de inscritos. Na eventualidade de só haver um candidato ou até nenhum nestas circunstâncias, a segunda volta será entre os dois candidatos mais votados.

Nesta segunda volta, ganha o lugar de deputado o candidato que tiver maioria relativa, ou seja mais um voto do que o segundo mais votado.

De acordo com estas regras, e como a participação eleitoral aumentou fortemente para 67%, o número de segundas voltas a três ou mesmo a quatro disparou face a eleições anteriores. Em 2022, os resultados tinham ditado a possibilidade de apenas oito eleições triangulares na segunda volta. Este ano foram mais de 300.

A esquerda não hesita: antifascismo acima dos interesses particulares

Desde que foram conhecidas as primeiras projeções no passado domingo, a palavra de ordem para a esquerda, reunida na Nova Frente Popular, foi absolutamente clara: todos os candidatos que tiverem ficado em terceiro (ou quarto), independentemente no resultado, devem desistir para que a divisão do eleitorado não acabe por eleger deputados de extrema-direita. Há apenas uma exceção óbvia: Magali Crozier que, tendo ficado em terceiro, enfrenta dois candidatos de extrema-direita.

Isto implica “desistências” difíceis, em casos em que as diferenças entre segundo e terceiro candidatos eram residuais, ou em que figuras importantes dos partidos abdicaram da possibilidade de eleição ou em que a saída dos boletins de voto abre caminho à eleição de figuras que foram objeto da mais acérrima das oposições ao longo dos últimos anos como a ex-primeira-ministra Élisabeth Borne ou o odiado ministro da Administração Interna Gérald Darmanin.

Os cálculos feitos pelo Le Monde na manhã desta terça-feira apontavam para que a esquerda já tivesse renunciado a 127 candidaturas.

Para a segunda volta estavam apurados 135 candidatos dos “insubmissos”, 95 dos socialistas, 51 dos ecologistas, 18 dos comunistas e dez de outras formações ou sem partido mas pertencentes à coligação. Também oito candidatos de esquerda fora da NFP foram apurados.

Macronismo enrodilhado no discurso dos “extremos”

As coisas são mais complicadas no campo presidencial. Durante a noite eleitoral começou por haver alguma ambiguidade dos liberais que foi sendo reduzida pelas intervenções do primeiro-ministro Attal e depois pela consigna de voto do próprio presidente Macron, segundo o qual todos os candidatos da sua coligação que tenham ficado em terceiro ou quarto deveriam desistir para derrotar a extrema-direita onde haja um “candidato republicano”, uma definição que, foi-se apurando, exclui alguns, mas não todos, os candidatos da França Insubmissa, dando assim lugar a desistências caso a caso que aumentam o dramatismo destas eleições.

Por exemplo, Macron pediu diretamente a Dominique Faure, ministra das Coletividades Territoriais e dos Assuntos Rurais para se retirar da corrida no seu círculo onde a NFP tinha ficado em primeiro lugar.

A estratégia falhada de Macron para a primeira volta destas eleições tinha sido equiparar os “extremos”, atacar numa primeira fase a Nova Frente Popular e sobretudo diabolizar a França Insubmissa, em particular Mélenchon, aproveitando a falta de clarificação no campo da Nova Frente Popular sobre quem seria designado primeiro-ministro em caso de vitória eleitoral. Feito isto, o apelo ao voto nos candidatos de esquerda é agora sentido como problemático para alguns dos protagonistas desta segunda volta.

Para além disso, a desistência tem de ser apresentada pelo próprio candidato. O que faz com que possa haver mudanças de alianças ou insistências nas candidaturas para além do que é decidido nos diretórios partidários.

Ainda assim, em 75 circunscrições os macronistas já teriam recuado, o que somado com as “desistências” da esquerda terá reduzido para cerca de um terço (104) as 306 eleições triangulares previstas e para três as quadrangulares. Em sete circunscrições, os candidatos da coligação centrista que ficaram em terceiro recusam sair dos boletins de voto na segunda volta.

Direita estilhaçada

Do lado da direita tradicional, se para tal houvesse vontade, a dificuldade em travar a extrema-direita seria semelhante porque a desistência implicaria, em muitos casos, apelar ao voto na esquerda.

Aliás, o que resta do gaullismo nas vésperas das eleições sofreu uma rutura marcante. Com o líder do partido Os Republicanos, Éric Ciotti, a coligar-se com a União Nacional de Le Pen e a maioria da direção do partido a decidir a sua destituição e expulsão, revertida temporariamente nos tribunais num caso que se arrastará nos próximos tempos.

A parte do partido que não foi a votos com a extrema-direita optou por manter a estratégia do “nem, nem”, colocando ao mesmo nível a rejeição da União Nacional e da Nova Frente Popular. A linguagem escolhida para o fazer denota que este nível está inclinado para um lado. O chefe interino da parte do partido que foi a votos em nome próprio, François-Xavier Bellamy, fala dos “excessos de uma extrema-esquerda dominada pela França Insubmissa que quer demolir as nossas instituições”. À extrema-direita apenas critica o “programa demagógico”. Assim, estima-se na direita que se quer apresentar como respeitável, “o perigo que ameaça o nosso país hoje em dia é a extrema-esquerda”. Ao Libération, porém, um quadro importante do partido concede que as palavras valem pouco nestes casos porque “há a linha nacional e o salve-se quem puder local”. Por isso, a extrema-direita tenta ainda seduzir alguns destes candidatos.

Desta forma, o balanço é que no caso dos Republicanos houve apenas, até ao momento, duas desistências de travar a segunda volta e quatro que insistem em manter-se apesar do seu terceiro lugar. Outros três candidatos de direita e um do centro que não pertencem aos maiores partidos também recusam desistir.

Mas há ainda o inverso, explica o Libération: os candidatos de direita que passaram a campanha a diabolizar a esquerda e que agora olham para a desistência dos candidatos da NFP como a sua tábua de salvação.

Tudo isto não impede de haver figuras à direita que também apelem à “frente republicana global, mesmo com a LFI”, como foi o caso de Jacques Toubon, ex-ministro de Jacques Chirac.

Outros, como Stéphane Le Rudulier, no meio do caos do seu campo avançam com a proposta legislativa de impossibilitar as desistências.

Extrema-direita, entre o sonho do poder e o discurso da maioria absoluta

A extrema-direita terminou como a força mais votada em 158 das circunscrições onde poderia haver triangulares, sem contar com aquelas em que ficou em segundo e o resultado da primeira volta poderia ser revertido na segunda.

A maioria absoluta é possível neste quadro. O que imporia um sistema de coabitação com um presidente “centrista” liberal e um primeiro-ministro de extrema-direita. Mas Marine Le Pen foi a primeira a sugerir que, caso não seja alcançada a maioria absoluta, Bardella, o novo presidente do seu partido, não deve ser primeiro-ministro porque “não poderá agir”. Contudo, admite também conseguir mais alguns votos de deputados de direita e governar com estes apoios.

Agora, face a uma onda de nomeações de Macron para fazer face a esta possibilidade, fala em “golpe de Estado administrativo” com o objetivo de “impedir Jordan Bardella de governar o país como deseja”.