Numa primeira volta das legislativas com forte subida de participação em relação às de 2022, a extrema-direita da União Nacional confirmou o seu crescimento em percentagem e votos nestes dois anos. As projeções dão ao partido de Le Pen e Jordan Bardella 33,5% dos votos, com a esquerda unida na Nova Frente Popular a conseguir 28,1% e o partido presidencial 20,7%.
Em declarações no início da noite eleitoral, Jordan Bardella afirmou que para o próximo domingo “a escolha é agora clara" entre "a aliança do pior, a da Nova Frente Popular, unida em torno de Jean-Luc Mélenchon, que conduzirá o país à desordem, à insurreição e à ruína da nossa economia. Do outro, a união nacional que tenho a honra de liderar ao lado de Marine Le Pen, Éric Ciotti e dos nossos aliados".
Apresentando-se como "o único baluarte republicano e patriótico", Bardella lançou a semana decisiva de campanha com a estratégia de moderação e a promessa de que será "o primeiro-ministro de todos os franceses, ouvindo toda a gente" e “respeitador da Constituição e do cargo de Presidente da República, mas intransigente na política [que será] implementada ao serviço da França e do povo francês".
Esquerda apela à união em torno dos candidatos melhor colocados para bater a extrema-direita
Jean-Luc Mélenchon dirigiu-se aos apoiantes com uma "orientação simples, direta e clara”: "Nem um voto, nem mais um lugar para a União Nacional”. O líder da França Insubmissa reiterou que "de acordo com os nossos princípios, não permitiremos que o RN ganhe em lado nenhum”, ou seja, os candidatos da esquerda que fiquem em terceiro lugar deverão apoiar a candidatura melhor colocada para derrotar a extrema-direita no próximo domingo.
Quanto aos duelos entre candidatos da extrema-direita e Nova Frente Popular, Mélenchon quis deixar claro aos eleitores que a escolha é entre um ou outro, pelo que “não podemos ter outra proposta nem outro pedido razoável ao povo: temos de dar uma maioria absoluta à NFP porque é a única alternativa. Não se trata apenas de votar contra, ou de querer bloquear o caminho, trata-se de votar num outro futuro”, um cenário que que diz ser “possível”.
À esquerda, um dos derrotados da noite foi o líder dos comunistas franceses. No seu círculo eleitoral, Fabian Roussel viu o adversário da União Nacional - Guillaume Florquin, que tinha perdido em 2022 na segunda volta por cerca de dois mil votos - vencer à primeira volta com 50,3% dos votos. Melhor resultado obtiveram os dois líderes partidários que representaram a NFP nos debates televisivos: Olivier Faure, o líder do PS, foi eleito à primeira volta com 53,4% no seu círculo eleitoral e Manuel Bompard, o coordenador da França Insumbissa, venceu com mais de 73% no seu círculo. Já o líder do NPA, Phillipe Poutou, também candidato pela Nova Frente Popular, conseguiu passar à segunda volta apesar dos socialistas lhe terem feito concorrência no seu círculo. Com 18,7% à primeira vota, Poutou bater-se-á com o candidato do RN que falhou por pouco a eleição à primeira, com 49,3% dos votos.
Na sua declaração ao país, o primeiro-ministro Gabriel Attal afirmou que a “lição da noite eleitoral é que a extrema-direita está às portas do poder” e disse ter como objetivo evitar que a União Nacional consiga uma maioria absoluta no próximo parlamento. Attal apelou à desistência dos seus candidatos pior colocados para uma segunda volta em nome do apoio a “um outro candidato que defenda como nós os valores da República”. Não afirmou claramente se o mesmo apelo vale para os casos onde esse candidato seja da Nova Frente Popular, dizendo apenas não acreditar que a esquerda consiga obter a maioria absoluta. Fonte da equipa de campanha clarificou depois ao Le Monde que a orientação também se aplica aos candidatos da França Insubmissa que considerem ser “compatíveis com os valores republicanos”. Attal anunciou também a retirada da reforma do subsídio de desemprego contestada pelos sindicatos.
À direita, os Republicanos sofreram também nas urnas com o avanço da União Nacional, apoiado inclusive pelo presidente do seu próprio partido que se juntou a Bardella. Com cerca de 10%, fizeram saber logo após o fecho das urnas que não darão nenhuma orientação de voto nas eleições em que não tenham candidatos, não se pronunciando também sobre o que farão no caso dos seus candidatos participarem em triangulares.
Por seu lado, o ex-primeiro-ministro Édouard Phillipe, do partido Horizons, veio defender que nenhum voto seja dado a candidatos da União Nacional e da França Insumbissa, apelando à desistência dos seus candidatos em terceiro lugar que estejam em posição de facilitar a vitória “de um candidato dos extremos”.
Próximos dias serão decisivos para evitar “triangulares” no domingo
Com este resultado final e a forte participação, ficaram favorecidas as passagens à segunda volta de muitas candidaturas, que precisavam de obter mais de 12,5% dos votos em relação ao total de inscritos - e não de votantes. Assim, poderão ser mais de 300 dos 577 círculos onde a disputa se fará entre três candidatos. Com metade dos círculos contados, há também três quadrangulares.
Todos os candidatos que passaram à segunda volta têm até terça-feira para confirmar o seu nome do boletim e por isso as próximas horas serão decisivas para perceber quantos dos terceiros classificados desistirão para evitar a vitória da extrema-direita.