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To Brexit, or not to Brexit. Reino Unido em vésperas da saída (?) da União Europeia

Prevista para 29 de março parece que a saída do Reino Unido da União Europeia irá agora acontecer a 22 de maio … isto se … Reportagem de Nuno Pinheiro no Reino Unido
O luxo na New Bond Street - Foto de Nuno Pinheiro
O luxo na New Bond Street - Foto de Nuno Pinheiro

Últimos dias de março de 2019, últimos dias da permanência do Reino Unido na União Europeia (UE). Acendo a televisão e apanho um daqueles programas magníficos da manhã na BBC. Fala-se de política, da vida, muito simples, muito despretensioso e interessante. O assunto do dia é o Brexit, May tinha tido mais uma derrota, as suas propostas foram recusadas pela Câmara dos Comuns.

A conversa é sobre isso e mostra a incredulidade que passa na sociedade britânica. Bem, pode-se sair a 29 de março, ou a 30 de junho, mas também pode ser antes, ou depois, ou nem sair. E a fleuma dos apresentadores transforma-se numa quase gargalhada. Já ninguém leva a sério o assunto.

May tem somado derrotas no parlamento, entre os mais adeptos. Dias depois outra derrota, quando o “Speaker” recusou que a mesma proposta fosse de novo a votos. O problema é que parece que há problemas sem solução, em especial o que fazer com a fronteira entre as duas Irlandas, já que as outras fronteiras são marítimas e é um problema resolvido. A fronteira entre as duas Irlandas é um tema caro aos únicos aliados de May, os Unionistas irlandeses, e sem uma solução deste aspeto, não parece haver saída.

Contra o racismo e a xenofobia no centro de Leicester – Foto de Nuno Pinheiro
Contra o racismo e a xenofobia no centro de Leicester – Foto de Nuno Pinheiro

Sábado de manhã, praça principal da cidade em que estou, Leicester. É um local muito vivo, uns fazem propaganda a um evento religioso, outros manifestam-se contra o racismo, outros ainda contra os cortes nos programas de combate à violência doméstica. Há recolha fundos para as crianças com cancro, ou para crianças surdas. Brexit, nem ver, parece já nem preocupar esta cidade que votou “stay”. Outras preocupações são comuns, com os despejos, com o atentado na Nova Zelândia. O Brexit tão perto parece não existir, como se já não se acreditasse que vai acontecer.

Mas há quem acredite, e tenha medo. Uma reportagem da BBC leva-nos a casa de uma família que está a acumular alimentos e outros produtos, para o caso de um Hard-Brexit levar a falta de produtos. Muito novos para terem vivido a guerra, mas a memória mantém-se. Há empresas a fazer o mesmo, o caso mais caricato será a do principal fornecedor de papel higiénico, ao menos não é um produto perecível. Pior estão os que trabalham com produtos alimentares ou com flores. Aqui a preocupação não é só com a possibilidade de falta, ou os preços crescentes, mas também com o aumento das demoras e processos alfandegários que afetariam a vida útil dos produtos. E a dependência alimentar é importante e vem de longe, a Dinamarca chegou a especializar-se em produtos para o pequeno almoço dos ingleses, bacon, salsichas e ovos. Portugal no vinho e nas laranjas, falam-me em pêssegos e nectarinas de Itália, saladas de Espanha.

Modernidade em Leicester - Foto de Nuno Pinheiro
Modernidade em Leicester - Foto de Nuno Pinheiro

Os comerciantes de York mostram-se inquietos, tiveram 500 milhões de receitas vindas de turistas no ano passado, não sabem se o Brexit vai afastar turistas. Alguns dizem que têm trabalhadores de países comunitários que estão inquietos porque não sabem o que vai acontecer. Temem-se subidas de preços e estas aconteceriam se, com uma saída desordenada, houvesse uma queda importante da Libra. E já houve alguma quebra. No segundo semestre de 2018 fecharam mais empresas que em todo o ano de 2017, mas será a aproximação do Brexit, o abrandamento da economia internacional, ou ambos?

Há quem esteja mais otimista, quem acredite na adaptação. Há quem seja mesmo otimista, como um deputado que, para incredulidade do repórter, falava nas enormes vantagens económicas da saída que iria gerar imenso negócio quer em novas oportunidades no exterior, quer na substituição de produtos importados da UE. Quero ver onde vão produzir o vinho e as laranjas.

Vendo as coisas de fora parece que não sabiam no que votavam. Mais velhos e mais pobres, em especial de zonas que sofreram a desindustrialização dos anos Thatcher, votaram para sair. Queriam a “Austin” a produzir de novo, a Rolls Royce, a Bentley e a Jaguar de novo com capitais britânicos. Outros queriam ver-se livre de imigrantes, são tantos. Ninguém tinha feito as contas antes, ninguém tinha percebido que algumas empresas assim perdiam a vantagem em estar no Reino Unido. Era o orgulho nacional e imperial, daquele que até há 100 anos foi o mais poderoso império do mundo.

O problema é que de falhanço em falhanço, de falta de acordo em falta de acordo e tendo em conta a vontade das autoridades da UE em penalizar os “rebeldes” até pode acabar por acontecer um “Hard-Brexit”

Tentei abrir conta no Lloyd’s, senti-me um pouco como as crianças na Mary Poppins rodeadas pelos banqueiros. Senhoras com um aspeto muito britânico e muito igual levantavam-me problema atrás de problema. O edifício era lindo, era um banco da idade dourada do capitalismo, mas acabei por atravessar a rua e sem problemas (e pessoas com aspeto menos british) abri a conta no HSBC. Juro que ainda me lembro, na minha infância, de ver senhores de chapéu de côco e bengala a entrar nos Rolls. Agora os ricos andam de Mercedes, lá se vai a glória do Império.

Em Buckingham a multidão reúne-se para ver o render da guarda, é uma monarquia lucrativa, é boa para o turismo. Esta multidão e os produtos à venda nas lojas de souvenirs mostram-no. Especula-se sobre a posição da rainha em relação ao Brexit. Pesa mais o orgulho do império, ou o que recebe da Política Agrícola Comum?

Pode-se dizer que o Reino Unido nunca esteve verdadeiramente na Europa. Não está no Euro, e não há tanto tempo, a Libra nem sequer funcionava num sistema decimal, conduzem do lado contrário, até as fichas são diferentes, o que me obriga a ter cabos e adaptadores. Números de sapatos de roupa também são diferentes. Vá lá que recentemente adotaram o sistema métrico e usam graus Celsius e não Fahrenheit. O próprio Reino Unido parece pouco unido, e pode ficar mais desunido. A Irlanda partida em duas partes, após a independência de há 100 anos, é um equilíbrio difícil que até há pouco tempo se resolvia à bomba e tropas especiais; Na Escócia o referendo pela independência (total, porque de facto é independente, com moeda própria e tudo) foi derrotado, mas o partido nacionalista arrasou nas eleições.

New Bond Street, Londres, uma pessoa normal nem se atreve a entrar nas lojas e galerias (aqui com alguma pena), seguranças à entrada fazem um rápido orçamento da roupa que se traz vestida. Se tens que perguntar os preços, é porque não podes pagar. Armani, Louis Vuitton, Hugo Boss, Cartier, Bulgari, Chanel, Miu Miu e por aí fora, está tudo aqui, numa lista que vai de Agent Provocateur a Zegna (uma rápida visita aos sites destas marcas é elucidativa sobre o capitalismo). Também há galerias e numa montra reconheço um Hockney. Como se irá comportar este comércio de luxo? Continuará a vender-se por aqui, ou haverá mais saltinhos a Paris para umas compritas? Os ricos safam-se sempre.

Velhas paisagens industriais vão cedendo lugar ao imobiliário
Velhas paisagens industriais vão cedendo lugar ao imobiliário - Foto de Nuno Pinheiro

O outro extremo desta que é uma das sociedades mais desiguais da Europa é a grande quantidade de sem abrigo, os quilómetros de locais abandonados pela indústria. Muitos deles são alvo de projetos imobiliários. Manchester parece um estaleiro, algumas áreas de Londres também. Mas o alojamento continua a ser um problema, problema caro aliás, especialmente em Londres.

A enorme confusão que rodeia o Brexit, sem uma saída plausível à vista, lança o descrédito na classe política, não são precisos os escândalos que uma imprensa tabloide e superagressiva mantém constantemente, não é preciso haver problemas com gastos de gabinetes, com amantes, é mesmo a atuação que provoca esse descrédito.

Não parece possível uma saída neste quadro político, ou haverá eleições, ou um novo referendo, mas nenhuma das hipóteses é completamente satisfatória. Um novo refendo sobre um assunto referendado há dois anos é, de certa forma, um desrespeito pela vontade popular. É verdade que na altura da votação não se percebiam inteiramente as condições do Brexit, é isso que uma petição que passou em poucos dias de um milhão de assinaturas para seis milhões diz, mas foram mais de trinta milhões a votar no referendo. Dia 24 de março, quase um milhão de pessoas manifestaram-se contra o Brexit, mas não parece que isso tenha resolvido o impasse. Alguns acreditam que a solução são novas eleições. Estas alterariam ou não a composição do parlamento, mas, uma vitória dos trabalhistas também não resolvia a situação, a posição do Labour também não é muito clara a este respeito.

Theresa May parece ter uma posição cada vez mais frágil. Tende a aplicar a estratégia de levar o assunto à votação, até ter um voto favorável, mas alguns deputados conservadores estarão dispostos a dar-lhe o voto só e quando tiver uma data para se demitir. Os Unionistas da Irlanda do Norte também declararam não apoiar o acordo conseguido por May. De qualquer forma a Primeira-ministra já foi uma das primeiras vítimas, com ou sem eleições, o seu lugar tem um prazo de validade muito curto, até já se comprometeu a sair. Já Cameron o tinha sido.

Parece um beco sem saída, uma ilha rodeada de dificuldades por todos os lados. Tem sido descrito como uma crise constitucional num país que nem tem uma constituição escrita, uma crise que pode colocar em causa aquilo que é hoje o Reino Unido. A Escócia pode querer sair do Reino Unido para se juntar à União Europeia, na Irlanda do Norte, as pressões para a unificação da Ilha seguramente que vão crescer.

Um novo problema se levanta, sem Brexit anterior às eleições europeias, estas terão que ter lugar no Reino Unido. É mais uma forma de pressão, com o Presidente da Comissão Europeia a abrir a porta para que afinal o Reino Unido possa ficar. A ideia dos adiamentos sucessivos, que acabava por ser um Não-Brexit também parece excluída.

O “Hard-Brexit” pode levar a uma situação muito difícil, aí os que têm andado a açambarcar produtos poderiam ter alguma razão, mas esta hipótese só é colocada por alguns dos conservadores mais radicais e muitas vezes como uma ameaça. O problema é que de falhanço em falhanço, de falta de acordo em falta de acordo e tendo em conta a vontade das autoridades da UE em penalizar os “rebeldes” até pode acabar por acontecer. As consequências do Hard-Brexit podem ser devastadoras, pelo menos no curto prazo. A dificuldade de circulação de pessoas, bloqueios em importações e exportações, podem confirmar os cenários mais pessimistas.

Na União Europeia há quem festeje. É uma vacina para outros países que possam ter a veleidade de abandonar a UE. É um adversário forte que pode enfraquecer naquilo que começou por ser uma luta interna dentro do Partido Conservador. A política é a continuação da guerra, por outros meios.

Reportagem de Nuno Pinheiro

Sobre o/a autor(a)

Investigador de CIES/IUL
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