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Brasil tem “Tsunami da Educação”

Centenas de milhares foram às ruas nesta terça-feira em defesa da Educação e contra o governo de Jair Bolsonaro e a sua política de cortes orçamentais e de privatização das universidades públicas. Por Luis Leiria.
Um dos alvos das manifestações foi o projeto do governo para as universidades, que tem o nome Future-se, mas devia ser Fature-se. Foto de Patrícia Santos
Um dos alvos das manifestações foi o projeto do governo para as universidades, que tem o nome Future-se, mas devia ser Fature-se. Foto de Patrícia Santos

Milhares de estudantes, professores e trabalhadores da educação, sindicalistas e ativistas foram às ruas, na última terça-feira, em defesa da Educação e contra o governo de Jair Bolsonaro e a sua política de cortes orçamentais e de privatização das universidades públicas. A jornada, convocada pela União Nacional dos Estudantes (UNE), foi chamada de “Tsunami da Educação” e teve manifestações em 26 estados brasileiros, além do Distrito Federal.

Segundo levantamento da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), pelo menos 211 municípios brasileiros registaram protestos. Foi a terceira grande jornada pela educação, na sequência das que aconteceram nos dia 15 e 30 de maio.

Future-se” ou “Fature-se?”

Desta vez, além da crítica ao estrangulamento das universidades através dos cortes orçamentais, foi também incluída a denúncia do projeto “Future-se”, anunciado pelo ministro da Educação, que visa criar um fundo para atrair investimentos internacionais no ensino superior – na prática a privatização das universidades públicas. Reitores, ex-ministros da Educação e outros especialistas da área afirmam que o projeto ameaça a autonomia orçamental das universidades e representa um ataque à gratuitidade do ensino superior, subordinando o ensino e a pesquisa às regras do mercado.

Protesto no Rio de Janeiro. Foto de Clarisse Lissovsky.
Manifestação no Rio de Janeiro. Foto de Clarisse Lissovsky

“O projeto ‘Future-se’ surgiu das trevas. Em pouquíssimos meses que o novo ministro se instalou no governo ele já lança uma proposta dessa, completamente imatura e sem discussão com a comunidade científica, que mata a ciência brasileira, a educação superior e a esperança de muitos jovens de conseguirem concluir um ensino público no Brasil”, disse uma professora carioca, Cátia Barbosa, ouvida pelo site Brasil de Fato durante a manifestação no Rio de Janeiro.

Segundo o ex-reitor da Universidade de Brasília José Geraldo de Sousa Junior, entrevistado pela IHU On-Line, embora o Ministério da Educação afirme que o “Future-se” visa reestruturar o financiamento do ensino superior público, a proposta “quer levar o governo a escapar da vinculação constitucional que obriga o Estado a financiar a manutenção e o funcionamento das universidades públicas, e, enquanto aparentemente amplia a participação de verbas privadas no orçamento universitário, retira a instituição de sua função estratégica pública e social e entrega-a, com o seu património, seu capital de conhecimento e seu acervo cultural à ganância de acumulação e de capitalização”, adverte. E acrescenta: “Por isso o jogo de palavras: Fature-se ao invés de Future-se”.

Ode à ignorância é marca de Bolsonaro

Início da concentração em São Paulo.
Início da concentração em São Paulo.

Em São Paulo, antes de se pôr em movimento, a manifestação ocupou quatro quarteirões da avenida Paulista, calculando-se a presença de cem mil pessoas. Todas as capitais de estados tiveram manifestações e inúmeras cidades do interior participaram da jornada.

Não é por acaso que a defesa da educação é o que mais tem mobilizado os protestos contra o governo de Jair Bolsonaro. As universidades públicas e os institutos federais vem sofrendo de muitas formas: sucessivos cortes já ameaçam o funcionamento mínimo; houve redução nas bolsas de mestrado e doutorado; há um ataque à política de cotas e uma interferência autoritária na autonomia universitária.

Homenagem a Fernando Santa Cruz, assassinado pela ditadura militart, que teve a sua memória atacada por Bolsonaro. Foto de Igor Cravalho/Brasil de Fato
Homenagem a Fernando Santa Cruz, assassinado pela ditadura militart, que teve a sua memória atacada por Bolsonaro. Foto de Igor Cravalho/Brasil de Fato

É que, como já ficou claro por afirmações e atitudes, Bolsonaro, inspirado por seu guru Olavo de Carvalho (um senhor que se diz filósofo e já foi astrólogo), odeia a educação, que considera um antro do que chama de “marxismo cultural”. A ode à ignorância, contra a Ciência, a educação e até mesmo contra a realidade (recordemos a persistente negação do aumento do desmatamento da Amazónia, apesar das abundantes evidências), é a marca do mandato de Jair Bolsonaro.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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