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Brasil: primeira baixa do governo Bolsonaro, ao fim de 48 dias

Gustavo Bebianno, ex-braço direito do presidente é exonerado cinco dias depois de ter sido chamado de mentiroso pelo filho do presidente, com a cobertura do pai. Bebianno terá afirmado que devia desculpas ao povo brasileiro por ter ajudado a viabilizar a candidatura Bolsonaro. Por Luis Leiria.
Gustavo Bebianno aguentou-se apenas 48 dias no governo. Foto de Valter Campanato, Agência Brasil
Gustavo Bebianno aguentou-se apenas 48 dias no governo. Foto de Valter Campanato, Agência Brasil

E foi no fim da tarde desta segunda-feira, cinco dias depois de ter sido chamado de mentiroso pelo próprio presidente Jair Bolsonaro, que foi oficializada a demissão de Gustavo Bebianno, ministro da Secretaria-Geral da Presidência, ex-presidente do partido do presidente, o Partido Social Liberal (PSL), e diretor da campanha vitoriosa que levou o capitão reformado ao mais alto cargo da nação.

Bebianno, que desde que a crise começou, com uma denúncia da Folha de S.Paulo sobre desvio de verbas na campanha eleitoral do PSL, se recusou a deixar o cargo pelo seu próprio pé, foi exonerado.

Esta foi a segunda mais rápida demissão de um ministro desde que a democracia foi restaurada no Brasil: os 48 dias que Bebianno durou no cargo, só são superados pela semana e meia que Romero Jucá ficou no Ministério do Planejamento de Michel Temer.

Mas se a estadia de Bebianno foi curta, a decisão de o exonerar, desde que estourou a crise dos “laranjas” do PSL arrastou-se durante dias. Mesmo quando já toda a imprensa dava como certa a saída de Bebianno do governo e a expectativa era de que o anúncio da exoneração ocorresse na manhã desta segunda-feira, a espera foi-se prolongando. No final da manhã, questionado pelos jornalistas, o vice-presidente Hamilton Mourão prometeu: “De hoje não passa”.

O homem que sabe tudo

A demora terá sido provocada pelas últimas tentativas de aliciar Gustavo Bebianno a aceitar qualquer dos cargos que lhe foram oferecidos como compensação. Segundo a Folha de S.Paulo, as ofertas foram um cargo na diretoria da gigantesca hidroelétrica de Itaipu e as embaixadas de Roma ou de Lisboa. Todas recusadas.

As ofertas tinham o óbvio objetivo de amansar Bebianno que, por ter sido o braço direito de Bolsonaro desde 2017, tem conhecimentos mais que suficientes para detonar muitos escândalos.

Numa das muitas conversas de bastidores que ocorreram durante todo o fim de semana, Bebianno terá mesmo dito: “Preciso pedir desculpas ao Brasil por ter viabilizado a candidatura de Bolsonaro. Nunca imaginei que ele seria um presidente tão fraco”, referindo-se à relação de Bolsonaro com os filhos. Espera-se que Bebianno ponha agora na sua mira Carlos Bolsonaro, o primeiro a detonar a crise ao chamá-lo de mentiroso.

O “laranjal” do PSL

A crise do governo foi detonada no dia 10 de fevereiro por notícia da Folha de S.Paulo informando que Gustavo Bebianno, como presidente do PSL, tinha autorizado a transferência de grandes quantias do fundo partidário (dinheiro público) para uma candidatura “laranja”, isto é, de fachada, do estado de Pernambuco. A verba de 400 mil reais, a terceira maior entregue a uma candidatura a deputada do PSL, teria sido desviada, já que a candidata teve pouco mais de 200 votos. No dia 12, pressionado pela imprensa, Bebianno disse não ter qualquer responsabilidade sobre o assunto, dado que estava totalmente dedicado à campanha presidencial, e garantiu que o seu ministério mantinha a normalidade e que ele mesmo tinha, naquele dia, falado três vezes com o presidente.

A denúncia de “laranjas” no PSL não era, aliás, novidade, já havia outra acusação semelhante envolvendo o PSL, o estado de Minas Gerais e o atual ministro do Turismo (que continua no cargo). Apesar da gravidade do desvio de dinheiro público por parte do partido que marcou a sua campanha pela defesa de novos princípios éticos, tudo parecia estar a encaminhar-se para investigações prolongadas que caíssem, ao final de algum tempo, no esquecimento, para um dia ser anunciado o seu arquivamento.

Mentira absoluta

Só que… o intempestivo Carlos Bolsonaro, o pitbull, que nunca gostou de Bebianno, resolveu desmentir a ocorrência das tais conversas e, usando as redes sociais, chamou de mentiroso o ministro, afirmando que era uma “mentira absoluta” que ele tivesse falado três vezes com o pai, que convalescia no Hospital de cirurgia.

Mesmo esse episódio ainda poderia ser relevado, evitando uma crise maior. Afinal, Carlos não tem qualquer cargo no governo e é-lhe conhecido o caráter intempestivo. A crise só explodiu realmente quando o próprio Bolsonaro-pai, no dia 13, reproduziu as postagens do filho, dando-lhes, assim, o seu acordo.

A partir daí, o Brasil viveu uma espécie de pré-Carnaval, onde o que se discutia já não era o desvio de dinheiros públicos sabe-se lá para que bolsos, mas se Bebianno era ou não mentiroso, ou se o mentiroso era Carlos, se Jair ia demitir o seu ministro, se este ia sair atirando, se Jair não ia demitir o ministro por medo do seu potencial destrutivo, se o ministro ficava no cargo mas seria isolado até pedir a demissão… Ao mesmo tempo, num duelo particular, Carlos divulgava um recado de áudio de Bolsonaro a Bebianno dizendo que não podia falar com ele devido à convalescença, ao mesmo tempo que Bebianno contra-atacava, tornado públicas instruções que Bolsonaro lhe dera naquele dia, para provar que tinha mesmo falado com ele, via WhatsApp.

“Não dá mais para prosseguir isso”, desabafou um dos militares do governo, citado pelo O Estado de S. Paulo. “É muita confusão. Nunca imaginei que seria assim".

Diferentes pontos de vista”

Na noite desta segunda-feira, junto à comunicação oficial da exoneração, foi divulgada uma declaração em vídeo de Bolsonaro a justificar a decisão. O tom foi defensivo e elogioso para Bebianno. Mostrando mais uma vez a sua incapacidade de usar o teleponto, Bolsonaro leu que “diferentes pontos de vista sobre questões relevantes” tinham motivado “uma reavaliação”, reconhecendo porém que “pode ter havido incompreensões e questões mal-entendidas de parte a parte”. O presidente passou depois a elogiar o seu ex-braço direito, afirmando “reconhecer a dedicação e comprometimento do senhor Gustavo Bebianno à frente da coordenação da campanha eleitoral em 2018. Seu trabalho foi importante para o nosso êxito. Agradeço ao senhor Gustavo pelo esforço e empenho quando exerceu a direção nacional do PSL e continuo acreditando na sua seriedade e qualidade do seu trabalho. Reconheço também sua dedicação e esforço durante o período que esteve no governo.”

Depois de tanto elogio, não se conseguem descortinar no comunicado os motivos da exoneração, já que não há qualquer menção às candidaturas de “laranjas”.

Aos jornalistas, o porta-voz do governo também não soube explicar-se, atribuindo a decisão a “ao foro íntimo do nosso presidente”.

Mais um militar no governo

Com a saída de Bebianno, o general da reserva Floriano Peixoto, que já era secretário-executivo do ministério, assumiu o cargo e passou a ser o oitavo ministro militar do governo.

Com a escolha do general Peixoto, três dos quatro ministérios que funcionam no Palácio do Planalto têm ministros militares. Só o chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, será o único civil. Os outros ministros militares que despacham do Palácio são Santos Cruz, na Secretaria de Governo, e Augusto Heleno no Gabinete de Segurança Institucional (GSI) são generais da reserva do Exército.

Além disso, o general Eduardo Villas Bôas, ex-chefe do Exército, foi nomeado a 12 de janeiro assessor especial do GSI.

A crise acabou?

Terão o vídeo de Bolsonaro e os elogios ao seu ex-diretor de campanha sido suficientes para calar a boca de Gustavo Bebianno? É difícil. O próprio postou nas redes sociais a seguinte mensagem: “O desleal, coitado, viverá sempre esperando o mundo desabar na sua cabeça.” Não identificou o alvo, mas, para bom entendedor meia palavra basta. Bebianno já se tinha queixado de tratamento diferenciado dado ao ministro do Turismo, Álvaro António, também envolvido num escândalo de candidaturas “laranja”, que continua no cargo. Por outro lado, dificilmente Bebianno deixará sem resposta a afronta de Carlos Bolsonaro.

Acontece que esta crise demonstrou que o clã Bolsonaro funciona com lealdade absoluta ente os seus membros, o que torna insólito o funcionamento do governo. Todas as tentativas de afastar os filhos do pai foram inúteis, já que Jair Bolsonaro sempre lhes deu cobertura. Cria-se assim um centro paralelo de poder, constituído pelos filhos do presidente – Flávio, Carlos e Eduardo –, que têm um enorme poder sem participarem formalmente do governo. Esta configuração particular deixa em água a cabeça dos militares do governo, habituados a hierarquias, e promete uma instabilidade permanente.

O novo – e decisivo – teste começa esta semana quando o governo apresenta o novo projeto de reforma da Previdência Social.

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