A Polícia Federal brasileira prendeu esta terça-feira colaboradores próximos do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro no âmbito de uma investigação à falsificação dos dados do seu cartão de vacinação, alegadamente para conseguir entrar nos EUA.
Em causa estão, segundo a Globo, para além dos dados de Bolsonaro, os da sua filha de 12 anos, do seu ajudante Mauro Cid e da família deste. Também as situações de outros membros da comitiva, como os da mulher do ex-presidente, Michelle Bolsonaro, estarão a ser investigados.
De acordo com a acusação, terá sido Cid a introduzir os dados falsos nos sistemas do Ministério da Saúde, o do Programa Nacional de Imunizações e da Rede Nacional de Dados em Saúde, entre novembro de 2021 e novembro de 2022, resultando em “facto juridicamente relevante” porque se alterou “a condição de imunizado contra a Covid-19 dos beneficiários”. Como resultado, “tais pessoas puderam emitir os respetivos certificados de vacinação e utilizá-los para burlarem as restrições sanitárias vigentes imposta pelos poderes públicos (Brasil e Estados Unidos) destinadas a impedir a propagação de doença contagiosa, no caso, a pandemia de covid-19”. Terão sido assim cometidos crimes de “infração de medida sanitária preventiva”, “associação criminosa”, “inserção de dados falsos em sistemas de informação” e “corrupção de menores”.
Bolsonaro jurou publicamente, pelo menos por três vezes, que não se vacinaria contra a Covid-19. A adulteração dos dados pretenderia assim, de acordo com a Polícia Federal, “manter coeso o elemento identitário em relação a suas pautas ideológicas, no caso, sustentar o discurso voltado aos ataques à vacinação contra a Covid-19”.
Batizada como Venire, precisamente por causa da expressão latina, “venire contra factum proprium”, ou seja vir contra os seus próprios atos, esta operação policial deteve, para além do coronel Mauro Cid Barbosa, o ex-ajudante de Jair Bolsonaro, Max Guilherme, polícia militar que pertencia à segurança policial, Sérgio Cordeiro, militar que também tinha este tipo de funções e João Carlos de Sousa Brecha, secretário municipal de Governo de Duque de Caxias, entre outros.
Outro dos visados nas buscas foi o ex-vereador Marcelo Siciliano que terá intermediado contactos com a Secretaria de Saúde de Duque da Caxias, no Rio de Janeiro, para a inserção de dados falsos sobre vacinas no sistema informático dos serviços de Saúde. Este foi denunciado por um policial militar, Rodrigo Jorge Ferreira, que tinha sido motorista de um chefe de milícia da zona oeste do Rio de Janeiro e que acusou o seu patrão e o ex-vereador como mandantes do assassinato de Marielle Franco. A pista foi mais tarde preterida pela Polícia Federal, apontando-se em seguida para Ronnie Lessa e Élcio Queiroz como executantes do crime. Agora, a investigação refere um acordo entre Mauro Cid e Marcello Siciliano “tendo em vista que o ex-ajudante de ordens de Bolsonaro ajudasse Siciliano a resolver um problema com o visto de entrada nos Estados Unidos, ocorrido em decorrência do envolvimento do seu nome no caso da morte de Marielle”.
No total foram cumpridos 16 mandados de busca e apreensão e seis de prisão preventiva, uma das buscas em casa de Bolsonaro, onde foi apreendido um dos seus telemóveis.