Bloco promete "lutar por uma maioria para reconstruir aquilo que tem sido destruído no SNS

19 de dezembro 2023 - 18:30

Num encontro no Hospital Amadora-Sintra, Mariana Mortágua ouviu as queixas de profissionais dos cuidados materno-infantis que lançaram um alerta ao Governo e insistiu que "o país não consegue viver com urgências que abrem à vez nem com um SNS assente em horas extraordinárias ilegais".

PARTILHAR
Mariana Mortágua no Hospital Amadora-Sintra
Mariana Mortágua no Hospital Amadora-Sintra. Foto Filipe Amorim/Lusa

Mariana Mortágua esteve esta terça-feira junto ao hospital Amadora Sintra para um encontro com os subscritores da carta aberta dos profissionais de saúde da área materno-infantil de Lisboa e Vale do Tejo sobre a degradação dos cuidados de saúde da região. "Falámos com auxiliares, médicas, com enfermeiros, que nos contaram sobretudo as preocupações que têm com os utentes, pelo facto das urgências estarem fechadas, no caso de pediatria, todas as noites, no caso da obstetrícia, metade da semana", afirmou a coordenadora bloquista aos jornalistas. Em seguida, transmitiu-lhes as preocupações de utentes por "nunca saberem com o que contam, de serem transportados para outros hospitais para depois, na verdade, voltarem a este hospital durante a noite, aumentando o número de viagens, das longas filas de espera, da instabilidade que é para uma grávida não saber onde vai ter o seu bebé".

"Contaram-nos também de como é que este serviço sobrevive com qualidade: há uma médica interna que nos disse que em agosto já tinha feito 600 horas extraordinárias. É pelo trabalho extraordinário, incansável destes profissionais que se mantêm no SNS, que o serviço vai dando resposta. Mas ao mesmo tempo faltam profissionais", prosseguiu, dando o exemplo recente de haver apenas um técnico de raio X para todo o hospital.

"O suposto acordo que o Governo fez não resolve esta situação e todos os profissionais são muito claros a dizer isso", referiu Mariana Mortágua, considerando que este é o momento de os partidos apresentarem as suas propostas para o SNS, após uma maioria absoluta que resolveu trilhar o caminho da sua degradação. Da parte do Bloco, lembrou que o partido percebeu há muito tempo o que se estava a passar e por isso exigiu medidas em 2020, que o PS recusou e levou ao chumbo do Orçamento e à convocação de eleições. "E hoje aqui estamos com os mesmos problemas e com a necessidade de apresentar novas soluções porque, entretanto, os problemas se agravaram", acrescentou.

Para a coordenadora do Bloco, as soluções passam por garantir "condições aos profissionais, carreiras aos profissionais, salário, condições de trabalho que permitam reter os profissionais de saúde no SNS" e assim não pôr em causa a qualidade do serviço prestado aos utentes. "O país não consegue viver com urgências que abrem à vez e não consegue viver com um SNS que está assente em horas extraordinárias ilegais", afirmou Mariana Mortágua.

Questionada pelos jornalistas sobre o novo líder do PS e a possibilidade de entendimentos à esquerda, Mariana Mortágua desafiou o PS a reconhecer o que correu mal com a maioria absoluta. "Não me venham dizer que agora o Ministro da Saúde irá fazer como o Ministro da Educação e dizer em campanha que, afinal, era possível resolver os problemas que foram agravados durante a maioria absoluta", ironizou, prometendo "lutar para que no dia 11 de março exista no Parlamento uma maioria capaz de ter soluções para abrir as urgências dos hospitais, para ter profissionais e para reconstruir aquilo que tem sido destruído ao longo dos últimos anos no Serviço Nacional de Saúde".

A quem diz que as propostas de garantir carreiras, salários e condições implicam grandes despesas no Orçamento do Estado, Mariana Mortágua responde que "cada vez que não se investe no SNS, daqui a cinco anos gasta-se o dobro em tarefeiros, gasta-se o dobro a contratar serviços e meios de diagnóstico ao privado, gasta-se o dobro com transportes de utentes que vão para Lisboa porque esta urgência está fechada e depois a meio da noite voltam para este serviço porque é o serviço da localidade desse utente". Tudo isso são "despesas mais penalizadoras para as contas públicas do que fazer um investimento no SNS", contrapôs.

"Plano de reorganização das urgências tem muito pouco de 'planeado' e de 'reorganização'"

A médica Tânia Russo, uma das profissionais de saúde da área dos cuidados materno-infantis da região de Lisboa e Vale do Tejo que subscreveram o apelo "Pela defesa do acesso aos cuidados de saúde", esteve presente neste encontro no Amadora-Sintra e deixou o seu testemunho sobre este "encerramento programado ou menos programado das urgências de obstetrícia ou de pediatria". Uma das preocupações destes profissionais de saúde é "a grande dificuldade do acesso aos cuidados de saúde ao nível dos centros de saúde, com a enorme falta de médicos de família", o que constitui "uma degradação sem precedentes dos cuidados de saúde nesta área".

"Muitas grávidas só iniciam a vigilância da sua gravidez tardiamente, a partir das 25 semanas ou até mais tarde. Temos muitas crianças que não estão a fazer vigilância d sua saúde infantil", denunciou a médica que impulsionou aquele "grito de alerta para que a tutela tenha uma intervenção que é urgente".

"O plano de reorganização das urgências que tem sido anunciado tem muito pouco de planeado e tem muito pouco de reorganização. O que vemos são urgências a encerrar de forma avulsa, com pessoas que ficam sem acesso a cuidados de saúde", resumiu Tânia Russo, acrescentando que em Lisboa e Vale do Tejo há duas urgências de pediatria a funcionar sem constrangimentos - Santa Maria e Dona Estefânia - e apenas quatro urgências de obstetrícia a funcionar sem constrangimentos, sendo que a do maior hospital do país não está em funcionamento. "Isto traduz-se em mais horas de espera", com grávidas e crianças "que passam a noite inteira a viajar pela região de Lisboa, sendo transferidas para hospitais onde exista equipa médica e de enfermagem e vaga para os receber".

"Não são estes os cuidados de saúde do século XXI que precisamos de prestar às crianças e às mulheres e isto terá certamente consequências em termos de indicadores da saúde", concluiu Tânia Russo, alertando que tal como os constrangimentos da pandemia provocaram o aumento da taxa de mortalidade infantil, "haverá com certeza e infelizmente a tradução nesses indicadores que decorre desta falta de oferta de cuidados".