Mal foi divulgado publicamente, o selo emitido pelo Vaticano para assinalar a realização das Jornadas Mundiais da Juventude em Portugal provocou uma sensação de "déjà vu" em muitos portugueses. É que as figuras representadas no desenho de Stefano Morri remetem para a estética colonialista dos materiais produzidos pelo Secretariado de Propaganda Nacional da ditadura e dos manuais escolares da escola primária desses tempos.
Por acaso foi uma ideia genial ir buscar a imagem para o selo da JMJ aos arquivos do Secretariado de Propaganda Nacional e meter o logo ali no cantinho. pic.twitter.com/mmBoVDwDre
— Mafalda Anjos (@manjos) May 15, 2023
A utilização da imagem do Padrão dos Descobrimentos, monumento construído em meados do século passado para enaltecer as glórias do império português, substituindo os navegadores e colonizadores por jovens e o Infante D. Henrique pelo papa Francisco a guiá-los, também não agradou à organização das Jornadas, que prontamente se demarcou de qualquer responsabilidade sobre a iniciativa.
O desagrado foi manifestado também na terça-feira pelo bispo português Carlos Moreira Azevedo, delegado do Comité Pontifício para as Ciências Históricas. Em declarações à TSF, considerou a execução do desenho "de muito mau gosto", "não só gráfico", mas também no "motivo de inspiração". O bispo acrescenta que o papa Francisco "não gostará de se ver envolvido em algo que não tem nada a ver com a sua atitude", referindo-se a este selo "polémico e acentuadamente nacionalista para um evento que tem um caráter extremamente universal".
Além da "base de inspiração muito má" da propaganda fascista que parece ter sido usada, na opinião do bispo "a execução gráfica também não parece ser de grande nível". A começar pela forma como o papa é colocado "ali à frente do grupo", o que "não parece nada ser o espírito do papa". Para Carlos Moreira Azevedo, Francisco preferiria "estar à volta das pessoas, envolvido por pessoas, e não assim naquele modelo".