França

Bayrou fala em “submersão migratória” e põe em risco a aprovação do Orçamento

29 de janeiro 2025 - 18:18

Os dados estatísticos desmentem o primeiro-ministro francês. Ainda assim este escolheu utilizar um vocabulário habitual da extrema-direita para falar na migração. A extrema-direita respondeu-lhe que é preciso passar das “constatações” aos atos e a esquerda indignou-se. A questão é agora o que fará o PS sobre isso.

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François Bayrou na LCI
François Bayrou na LCI. Foto do LCP.

Numa longa entrevista à LCI na segunda-feira à noite, o primeiro-ministro francês, François Bayrou, decidiu cavalgar a onda anti-migratória e falar na existência de um “sentimento de submersão” causado pela imigração.

Para o governante, “as contribuições estrangeiras são positivas para um povo, desde que não excedam uma certa proporção”. “Mas no momento em que se sente sobrecarregado, que já não reconhece o seu país, os seus modos de vida ou a sua cultura, a partir desse momento há rejeição” e, segundo ele, a França estaria próxima desse limite e “algumas cidades ou regiões já têm este sentimento”.

Torna-se assim mais um alto responsável político europeu a preferir falar em “sentimentos” ou “perceções” sobre imigração e não apresentar os factos. Desmistificando este discurso estão os dados do Instituto Nacional de Estatística e de Estudos Económicos francês que mostram que, em 2023, havia 68,1 milhões de habitantes no país e apenas 7,3 milhões provenientes da imigração, ou seja 10,7%. Mas, mais, como cerca de 2,5 milhões de imigrantes foram adquirindo a nacionalidade francesa, o número real de imigrantes no país naquele ano foi de cerca 5,6 milhões, ou seja 8,2% da população. Longe de uma “submersão”, os números indicam assim que a percentagem da população imigrante no país pouco aumentou em décadas, pois há 50 anos era de 7,4%. Comparativamente à escala da União Europeia, a França é o 21º classificado na lista dos países de acolhimento.

Para além disso, segundo os críticos, as palavras do primeiro-ministro francês parecem ecoar as teses mais extremistas apresentadas pela extrema-direita conspiracionista, nomeadamente a teoria da “grande substituição”, segundo a qual estaria em marcha um plano de invasão da Europa. E certamente, lembram outros, é o retomar de uma expressão utilizada por Eric Zemmour, o ex-comentador televisivo e dirigente de um partido de extrema-direita, o Reconquista, que faz gala de criticar a União Nacional de Marine Le Pen por não ser suficientemente radical na sua abordagem de extrema-direita.

Tal como aconteceu na Alemanha, com o principal favorito às próximas eleições legislativas, o líder dos conservadores da CDU, a propor endurecer medidas anti-imigração e a extrema-direita a capitalizar e a limitar-se a vincar as diferenças sem medo de perder eleitorado por esta via, também em França a extrema-direita não embandeirou em arco nem se mostrou incomodada por estarem a resgatar uma linguagem que costuma ser a sua. Marine Le Pen preferiu pedir consequências das palavras: “o que se espera dele são atos que sigam estas constatações. Por enquanto, temos muitas constatações e muitos poucos atos”.

A União Nacional aproveitou ainda para atacar a esquerda de “recusar ver o sentimento de um muito grande número dos nossos compatriotas”.

À esquerda as críticas dispararam

E precisamente a esquerda não tardou em reagir com indignação às palavras de Bayrou. Mathilde Panot, presidente do grupo parlamentar da França Insubmissa, declarou: “quero insistir a que ponto me parece vergonhoso que os atos mas também as palavras da extrema-direita se encontrem neste governo”. Para ela, “um primeiro-ministro nunca deveria dizer isto” e “é falso afirmar que a França conhece uma submersão migratória”.

Também Cyrielle Chatelain, líder parlamentar do grupo dos ecologistas no parlamento francês, utilizou o termo “vergonhoso” para designar o que foi dito. A dirigente contrapõe que não estamos perante nada de semelhante e que “é papel do primeiro-ministro lembrar as pessoas disso, em vez de continuar a alimentar falsas perceções”.

Que vai fazer o PS?

Vozes do PS francês também reagiram fortemente. O deputado socialista Arthur Delaporte viu “um pano de fundo xenófobo” no que foi dito e o seu chefe de bancada, Boris Vallaud, avançou que “não se pedem emprestadas as palavras ou as fantasias da extrema-direita”, questionando “para onde foi a frente republicana” que o primeiro-ministro prometia e dizendo que é “vergonhoso”.

A questão estará agora em que é que isso se traduz na prática por parte do grupo político que destoou à esquerda do voto de censura a este governo.

Com um novo voto de censura às portas, que se espera seja apresentado para a semana a propósito do processo do Orçamento, o PS sobe a parada em termos de discurso mas parece ao mesmo tempo estar disposto a negociar.

A presença numa reunião negocial com o Governo esta terça-feira foi anulada, colocando em suspenso uma negociação que acontece há semanas com vista a uma abstenção do PS para viabilizar o Orçamento. No interior do grupo parlamentar deste partido havia quem já dissesse que se estaria disponível a votar, dadas as “concessões importantes” obtidas, mas agora isto “coloca um problema ético importante”, sendo “difícil para nós deixar perdurar um governo cuja cabeça utiliza uma palavra que Marine Le Pen não teria renegado”, diz um deputado ao Libération.

Os socialistas gabam-se de ter desaparecido a ideia de 4.000 supressões de postos de trabalho no setor da educação e de terem conseguido menos cortes no ensino superior, investigação e transição ecológica. Em cima da mesa agora estava a negociação de uma “grande medida ecológica” e de outra medida significativa que impactasse no poder de compra como a subida do salário mínimo, o aumento do prémio de atividade que complementa os baixos salários ou o cancelamento da redução prevista no orçamento de 100% para 90% da taxa de reposição da remuneração dos funcionários públicos que se encontrem de baixa médica. Neste momento, nas últimas declarações do PS sobre as negociações passou a exigir-se uma retratação sobre o termo “submersão” migratória e garantias de que o governo não vai alterar as ajudas médicas aos migrantes em situação irregular.

Divisão ao centro

Mesmo no campo que apoia a presidência, do macronismo aos partidos da direita tradicional, houve algumas vozes que se indignaram com as declarações. A presidente da Assembleia Nacional, Yaël Braun-Pivet, diz que estes comentários a incomodam, que “nunca” os teria feito e que a palavra “não faz parte do meu vocabulário e muito menos para falar de homens e mulheres”. Ainda assim ressalva que é favorável a uma “regulamentação da imigração”.

Também houve quem aplaudisse. O ministro do Interior Bruno Retailleau, que quer fazer carreira até ao topo através do securitarismo, apressou-se a secundar as palavras do líder do seu governo. O seu rival nesse caminho, o ministro da Justiça Gérald Darmanin, considerou o primeiro-ministro “corajoso” e as suas declarações um “avanço”,  em declarações à cadeia de televisão de extrema-direita Cnews.