“É possível que centenas de milhões de dólares dos contribuintes tenham ido para empresas que usaram esse dinheiro, em parte, para cometer atos criminosos”, reconheceu a ministra do Interior, Clare O'Neil, que ordenou a investigação.
A partir de 2001, a Austrália transferiu milhares de pessoas que tentavam chegar ao país de barco para centros de “processamento” nas ilhas de Manus e Nauru, no Pacífico.
Vários grupos de direitos humanos denunciaram as condições “infernais” a que foram sujeitos muitos migrantes, que definharam durante anos nestes campos.
Na sequência de relatos dos media de que algumas empresas contratadas eram suspeitas de inúmeros crimes, Dennis Richardson, antigo chefe do serviço de informação nacional, foi encarregado de investigar. No relatório por si elaborado, e citado pela Agence France-Press, aponta que “faltavam verificações adequadas em relação aos contratos com empresas relativamente pequenas” e praticamente desconhecidas. Os proprietários de uma destas empresas contratadas "eram suspeitos de tentar contornar as sanções dos EUA contra o Irão, e de terem feito grandes transferências de dinheiro suspeitas, sugerindo lavagem de dinheiro, suborno e outras atividades ilegais".
Outras pessoas ou empresas às quais foram adjudicados contratos públicos eram alvo de investigações policiais em curso, incluindo sobre tráfico de drogas e armas para a Austrália, ou eram suspeitas de corrupção.
O programa de detenção offshore de migrantes da Austrália foi fortemente criticado pelos defensores dos direitos humanos, mas continuou durante décadas.
Desde setembro de 2001, o país adotou uma política de externalização para o controlo da imigração, denominada “Solução do Pacífico”, que autorizou a marinha australiana a efetuar detenções de imigrantes em alto mar. A
Solução do Pacífico foi suspensa em 2007, sendo retomada em 2012, quando a Austrália recebeu um aumento considerável de requerentes de asilo por barco.
Além de reiniciar o processamento offshore, o governo anunciou o seu “programa de segurança fronteiriça liderado pelos militares”, a “Operação Soberano Fronteiras”. Este programa prevê a interdição de pessoas que tentam entrar na Austrália sem visto, incluindo refugiados e requerentes de asilo, estipulando a sua devolução aos países de origem ou locais de partida.
A política foi criticada por instituições de direitos humanos e pela agência das Nações Unidas para os refugiados (ACNUR), por colocar aqueles que precisam de proteção internacional em risco de repulsão em violação da Convenção de 1951 e do direito internacional consuetudinário.
Em 2017, o relator especial para direitos humanos dos migrantes, François Crépeau, acusou a Austrália de violar as suas obrigações internacionais. Este responsável considerou o país responsável pelas duras condições na Ilha Manus e Nauru, uma vez que o seu governo financiou os centros de processamento e escolheu os empreiteiros privados que os administravam. A ONU relatou alta incidência de stress mental e sofrimento físico nestes campos, bem como casos de violação e abuso sexual de mulheres refugiadas e requerentes de asilo, que ocorreram com impunidade.
Em 2016, o Supremo Tribunal da Papua Guiné considerou que a detenção de requerentes de asilo violava os direitos humanos e era inconstitucional, pelo que o centro de detenção da Ilha Manus foi encerrado e os detidos foram transferidos para Port Moresby, capital da Papua Nova Guiné.
Em junho de 2023, o Asylum Seeker Resource Center (ASRC) anunciou que deixaram de existir refugiados em campos de Nauru.
A sua diretora, Jana Favero, foi contundente ao afirmar que, durante a última década, o governo australiano nada fez perante “abusos, agressões, negligência, danos e sofrimento em detenções offshore”. Apesar de assinalar que “um capítulo de miséria acabou”, o ASRC não se esqueceu dos migrantes que ainda estão na Papua Nova Guiné, pedindo a sua transferência para a Austrália.