Attal, o novo nome do mesmo macronismo

11 de janeiro 2024 - 19:32

A esquerda quer que o novo Governo vá a votos no Parlamento e anuncia uma moção de desconfiança. A narrativa do jovem prodígio gay fez caminho na comunicação social, que repetiu os mesmos termos. Mas há outro lado do novo primeiro-ministro francês.

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Gabriel Attal. Foto do Governo francês.
Gabriel Attal. Foto do Governo francês.

Em França, sai Elisabeth Borne, entra Gabriel Attal. Logo após a notícia da demissão da primeira-ministra francesa, enfraquecida politicamente depois de ter aprovado a nova lei da imigração com o apoio da extrema-direita, soube-se esta quarta-feira que seria substituída pelo seu ministro da Educação.

Este ascende ao cargo aos 34 anos, tornando-se o mais novo a ocupar o cargo na Vª República, mas tem já uma história longa na política francesa. Nasceu na elite parisiense e estudou nas suas escolas como a Escola Alsaciana e o Institut d’Études Politiques de Paris, a famosa Sciences Po. Aderiu ao Partido Socialista, apoiando aí Dominique Strauss-Kahn, ex-dirigente do FMI, e, à saída da faculdade, entre 2012 e 2017, foi conselheiro político da ministra dos Assuntos Sociais e da Saúde, Marisol Touraine. Passou-se depois para partido de Macron, inicialmente denominado La République en Marche!, hoje Renaissance, onde começou logo como deputado ainda em 2017. No ano a seguir já era seu porta-voz e, em 2021, passou a integrar a comissão executiva. Ao mesmo tempo continuava o seu percurso nos gabinetes do poder: em outubro de 2018 passou a ser secretário de Estado do Ministério da Educação liderado por Jean-Michel Blanquer e foi, entre 2020 e 2022, porta-voz do governo de Jean Castex. No governo seguinte, o de Borne, assumiu primeiro o cargo de ministro delegado das Contas Públicas e era atualmente, desde junho de 2023, ministro da Educação Nacional e Juventude. Pouco antes da nomeação, em maio, tinha participado na reunião do grupo de Bilderberg em Portugal.

Politicamente, começou a carreira desde logo com posições social-liberais. Enquanto ministro da Educação, depois dos resultados baixos dos alunos franceses no relatório PISA, anunciou uma reforma educativa bastante conservadora com a introdução de uniformes escolares, de grupos de nível nas turmas e a reintrodução de um exame no final do ensino básico, medidas acompanhadas de toda a retórica tradicional da direita sobre a escola.

Para além disso, passou-lhe muitas vezes pela boca a palavra “grevicultura”, termo habitual da extrema-direita para a estigmatização do direito à greve, e destacou-se por ter proibido, no novo período escolar, o uso da abaya nas escolas, um vestido largo, tradicionalmente negro, usado pelas mulheres em alguns países de maioria muçulmana. Uma medida levou seis membros do Alto Comissariado dos Direitos Humanos das Nações Unidas a criticá-lo, dizendo que “abre a porta ao arbitrário, ao assédio e à discriminação” de alunas muçulmanas. Depois da sua aplicação, o Mediapart deu já conta de vários abusos, com a estigmatização e humilhação de várias raparigas que foram sujeitas a interrogatórios com “preconceitos sexistas e racistas”. Pelo menos 298 alunas apresentaram-se nas escolas com o abaya e 67 delas foram mandadas para casa por se recusarem a tirá-lo, confirma o ministério da Educação chefiado até agora por Attal.

Jovem, gay e prodígio? Um perfil mediático repetido à exaustão

Desde já, a narrativa macronista sobre o novo primeiro-ministro tem feito caminho em muitos dos meios de comunicação social dominantes. O retrato da sua carreira política e da sua figura têm sido carregados com as mesmas fórmulas, traçando o perfil do “mais novo primeiro-ministro” e do “primeiro homossexual assumido no cargo”.

O Le Monde fez um resumo de alguns dos termos utilizados para o descrever na imprensa anglófona de referência, mas o mesmo podia valer para a de outras paragens. Nele se pode ler que é “belo, jovem e encantador” para além de “convincente” na BBC, “telegénico” no The Guardian que matiza em editorial que “o otimismo da juventude pode não ser suficiente”. New York Times, Washington Post, CNN, Politico e as agências Associated Press e Reuters destacam que é assumidamente homossexual. E o primeiro chama-lhe a “criança prodígio escolhida pelo presidente” que pode ser “mais atraente que a senhora Borne para o centro direita”.

A comparação entre Attal e Macron também é sublinhada com alguns críticos a chamar ao novo primeiro-ministro um “clone” do presidente. Aliás, as narrativas sobre os dois na imprensa são muito semelhantes, como mostrou Amélie Ismaïli.

A jornalista, na sua página da rede social X, colocou lado a lado títulos sobre cada um deles que revelam como exatamente os mesmos termos foram repetidos nas notícias a seu propósito: “ascensão fulgurante”, “o homem apressado”, “o aluno modelo” ou o “bom aluno”, que “sonhava ser ator”, “jovem e ambicioso”, “criança prodígio”, “audacioso”.

O outro lado da narrativa do “primeiro-primeiro ministro gay”

Sobre a parte da narrativa que o louva como o primeiro primeiro-ministro francês gay, o Libération por exemplo vê aí o “sinal de uma França que progride”, o Mediapart faz um balanço bem mais equilibrado. Várias organizações de defesa dos direitos LGBTQI+ e personalidades concedem que poderá ser um avanço mas não uma grande vitória. Outras sublinham a instrumentalização que acarreta para implementação de políticas nocivas. Léane Alestra e Apolline Bazin escrevem no Manifesto XXI que “a nomeação de Attal é um penso gay (e sem brilho) sobre um autoritarismo escancarado”, utilizando-se minorias na política “só” quando são “bem-vindas para servir os interesses da maioria”. O coletivo Inverti·e·s chama-lhe o “arquiteto do pânico islamofóbico de setembro” e lembra que abandonou o inquérito administrativo lançado depois de um jovem de 13 anos, vítima de assédio homofóbico, se ter suicidado.

Trung Nguyên Quang, doutorando em sociologia, acrescenta que ele “é o modelo de gay que a heterossexualidade está disposta a aceitar” e que felicitar-se com a sua nomeação porque é homossexual é “tornar-se cúmplice de todos os horrores racistas, classistas, cisheterosexistas que a sua homossexualidade tornará possíveis”, lembrando também, para além daquele suicídio e da “criminalização” das roupas das alunas muçulmanas nas escolas, que foi o apoio da lei de imigração que foi “uma das mais racistas da Vª República”.

O Mediapart lembra ainda que Attal, apesar de não esconder a sua homossexualidade na esfera privada nem a sua relação com Stéphane Séjourné, então conselheiro de Macron, recusou a proposta de fazer o seu “coming out” num artigo ou entrevista, respondendo ao jornal: “não quero estar na reivindicação ou dar o sentimento de que me torno deputado para defender a causa gay”. E que a sua orientação sexual só se tornou pública na sequência da publicação de um livro por um seu ex-colega, o advogado Juan Branco.

Mathieu Magnaudeix, o autor deste artigo, conclui que “enquanto a homossexualidade não é “militante”, é aceitável”. Ou seja, “a condição sempre é que não reivindique grande coisa sobre os temas LGBTQI+. E que não se saiba muito sobre a sua vida privada”. As “portas do poder” estão-lhe “abertas de par em par” sob a condição de “não pode ser suspeito de ameaçar a autoridade do Estado com reivindicações minoritárias”.

Esquerda exige um voto de confiança para o “Macron júnior”

A esquerda francesa não se deixa seduzir por estes perfis que se foram sucedendo em muitos dos meios de comunicação social. A França Insubmissa quer que Emmanuel Macron sujeite a nomeação do novo primeiro-ministro a um voto de confiança na Assembleia Nacional. Se não o fizer, apresentará uma moção de desconfiança num parlamento em que o campo de Macron não conta com a maioria mas onde deverá contar com centristas, a direita ou a extrema-direita para não inviabilizar o novo Governo.

E Jean-Luc Mélenchon na sua conta do X ironiza que Attal foi um “efémero ministro da Educação” que “regressa agora ao seu posto de porta-voz”, sendo que assim “a função de primeiro-ministro desaparece”. E acrescentou: “o monarca presidencial governa sozinho com a sua corte. Infelicidade dos povos cujos príncipes são crianças”.

Raquel Garrido, deputada dos insubmissos, também recorre à ironia, escrevendo que se “se podia nomear para Ministro da Educação alguém que não tinha qualquer ligação pessoal com as escolas públicas. Não é de estranhar que se nomeie para primeiro-ministro alguém (a mesma pessoa) que não tem qualquer ligação com o quotidiano dos franceses…” A sua camarada Mathilde Panot, líder parlamentar do partido em conferência de imprensa, é menos irónica mas igualmente dura: trata-se de um “Macron júnior que se especializou em arrogância e desprezo”.

Através das suas palavras, a França Insubmissa justifica a ideia de uma moção de confiança: “em todas as democracias do mundo, o primeiro-ministro ou primeira-ministra devem submeter-se ao voto de confiança face à representação nacional. Num país, o que organiza a política é saber quem é a maioria que apoia o Governo e quem é a oposição. Queremos que a situação seja clara”.

Olivier Faure, primeiro secretário do PS, escreve algo parecido sobre a caracterização do novo primeiro-ministro: “Macron sucede-se a si próprio”. E considera grosseira a narrativa de que a nomeação serviria para “combater a extrema-direita”: “como é que um Governo que deu uma vitória ideológica histórica à extrema-direita se poderia apresentar de novo como uma barreira contra as suas ideias?”

O porta-voz do grupo socialista na Assembleia Nacional, Arthur Delaporte, concorda com o voto de confiança, avançando que este “deveria impor-se em termos de prática republicana e de respeito pelo Parlamento”. Para além disso, um tal voto “forçaria os diferentes grupos a posicionar-se”, o que confirmaria o alinhamento do partido de direita Os Republicanos com o Governo. Contudo, é mais cuidadoso quanto à apresentação de uma moção de censura comum da esquerda, afirmando que “faz parte das eventualidades” a discutir no seu grupo parlamentar ao mesmo tempo que se diz pessoalmente a favor da possibilidade.

Também a ecologista Eva Sas, apoia a ideia de que se torna agora necessária a apresentação de uma moção de confiança “em virtude do respeito pelo Parlamento”. Tal como o comunista Pierre Dharréville que pensa que isso poria termo à “confusão política” em que se vive, acrescentando que Attal é “ponta de lança das políticas liberais e autoritárias implementadas por Emmanuel Macron”.

No lado inverso do espetro político, a extrema-direita “não fecha a porta” ao novo executivo. Thomas Ménagé, porta-voz do grupo parlamentar da União Nacional diz que se houver voto de confiança, os deputados deste partido reunir-se-ão para decidir se votam contra ou se abstêm. Em caso de moção de censura da França Insubmissa, a extrema-direita diz, desde logo que não vota a favor. O dirigente político esclarece: “não penso que os franceses queiram que se feche a porta a priori, que se censure a priori um Governo que ainda não fez nada”. “Recusamos a política do pior, do bloqueio e da censura por princípio”, justifica.

Um novo Governo à direita

Os ministros do novo Governo foram nomeados na tarde desta quinta-feira e confirmam um “governo à direita”, expressão utilizada pela France 24, e a continuidade de muitos dos ministros do executivo anterior. Figuras como Bruno Le Maire, Gérald Darmanin e Sébastien Lecornu que saíram do partido Os Republicanos para o de Macron continuarão como ministros. E também entrará no Governo a antiga ministra de Jacques Chirac, Catherine Vautrin, para a super-pasta do Trabalho, Saúde e Solidariedades. E Rachida Dati que ainda era deputada da direita e foi expulsa logo após o anúncio do governo.

Também “reciclada” do governo anterior foi Amélie Oudéa-Castéra. A ex-desportista que enquanto ministra dos Desportos e Jogos Olímpicos e Paralímpicos está encarregue da organização do evento “ganha” a complexa pasta da educação que junta aos anteriores afazeres. Sophie Vénétitay, secretária-geral do sindicato de professores Snes-FSU, reagiu imediatamente, dizendo que “vamos ter uma ministra a meio tempo” o que “bastante inconsequente e bastante desrespeitoso com a Educação nacional”.