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Assessor de Relvas acha "normal" informar Stratfor enquanto está no Governo

Em declarações ao Diário de Notícias, Diogo Noivo confirmou a notícia do esquerda.net e acrescentou que nos últimos meses tem mantido contactos com a empresa conhecida por "CIA privada". "Troquei notas como troquei com tantas outras", disse o assessor, acrescentando que isso "é normal" no Governo de Passos e Relvas.
Diogo Noivo diz que é académico e por isso acha "normal" trocar emails com a CIA privada e estar no Governo ao mesmo tempo.

Tal como o esquerda.net noticiou esta segunda-feira, em parceria com a Wikileaks, o investigador português que surge na lista de informadores da Stratfor divulgada nos Global Intelligence Files da Wikileaks foi parar ao governo pela mão de Miguel Relvas e prosseguiu os contactos com a empresa de espionagem global após ter sido nomeado para o Governo. Em declarações ao Diário de Notícias, Diogo Noivo confirma a notícia e admitiu que tem mantido o seu contacto com a Stratfor nos últimos meses, justificando-o com o seu trabalho académico.

No gabinete de Relvas: um pé no Governo, outro a "trocar notas"

"A minha formação de base e atividade de base é académica. Como académico, contacto com outros institutos. Faz parte do meu trabalho trocar notas e pedir críticas e comentários", diz Diogo Noivo ao DN, negando haver incompatibilidade entre assessorar o Governo da República e permanecer na lista de informadores duma empresa norte-americana de inteligência global.

Apesar de considerar a sua atividade académica como sendo "a base" do seu trabalho, Diogo Noivo é remunerado pelos contribuintes para trabalhar no gabinete de Miguel Relvas: nada menos de 3.069,33 euros de vencimento bruto mensal, acrescido de despesas de representação, como consta no despacho de nomeação publicado em Diário da República e da página de nomeações do Ministério dos Assuntos Parlamentares. 

Mas o salário acima da média não significa que Noivo assuma as suas funções no Governo em regime de exclusividade, ao contrário do que garantira em agosto passado a Mark Schroeder, o diretor da Stratfor para a pesquisa da África Subsariana. "Mantenho atividade como académico e estou a fazer um doutoramento", afirmou esta segunda-feira ao Diário de Notícias.

De onde vem o assessor de Relvas?

Diogo Noivo foi recrutado para o gabinete de Miguel Relvas aos 28 anos, interrompendo a função de investigador do Instituto Português de Relações Internacionais e Segurança (IPRIS). Este "think-tank" da política externa é liderado por Paulo Gorjão, apoiante de Passos Coelho desde as eleições internas de 2008 no PSD, quando o atual primeiro-ministro foi derrotado por Manuela Ferreira Leite.

Diogo Noivo e Paulo Gorjão permanecem juntos nos corpos sociais da Plataforma Construir Ideias, um grupo de reflexão liberal criado pelos apoiantes de Passos Coelho, com o assessor de Relvas a fazer parte do Conselho Fiscal e o diretor do IPRIS a integrar a Direção presidida por Vasco Rato, um homem do círculo próximo de Passos Coelho que foi membro da Comissão Política do PSD e hoje faz parte dos quadros da Ongoing no Brasil.   

Tal como Vasco Rato, o diretor do IPRIS era um dos membros da "loja Mozart", um círculo maçónico onde se misturam pessoas oriundas da política, espionagem e negócios. Segundo o semanário Expresso, Gorjão fazia parte do grupo em tempos comandado por Nuno Vasconcellos – dono da empresa Ongoing – e por Jorge Silva Carvalho, o ex-diretor do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED) que viria a ser acusado pelo Ministério Público de acesso indevido a dados pessoais, abuso de poder e violação de segredo de Estado, após se transferir também para os quadros da Ongoing.

As ligações entre Silva Carvalho e Miguel Relvas obrigaram o ministro a ir duas vezes ao Parlamento, com explicações que a oposição considerou contraditórias. E já provocaram também a demissão do seu adjunto Adelino Cunha em maio passado. O ex-jornalista encontrou-se com Silva Carvalho e disponibilizou-se a passar à imprensa uma versão que desacreditava o conteúdo de emails enviados pelo ex-espião e que estavam sob a mira duma comissão parlamentar.

A deputada do Bloco Cecília Honório, que inquiriu Relvas no Parlamento, disse na altura que o Ministro “deu uma resposta falsa” aos deputados da 1ª comissão, tendo respondido “categoricamente que não” quando foi questionado por esta deputada sobre “se ele próprio, ou alguém próximo de si ou alguém do seu gabinete tinha mantido algum contacto com o Dr. Jorge Silva Carvalho, ex diretor do SIED, ou tinha alguma relação com o processo de reforma das secretas”.

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