Comissário-Geral da UNRWA

“Agora corremos o risco de banalizar o horror de Gaza”

23 de agosto 2024 - 12:30

Em entrevista ao El País, Philippe Lazzarini, o líder da agência da ONU para os refugiados palestinianos, diz que Israel não lhe renovou o visto e por isso não pode ir à sua sede em Jerusalém, após ter sido impedido de entrar em Gaza desde janeiro.

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Philippe Lazzarini
Philippe Lazzarini. Foto UNIS Vienna/Flickr

A UNRWA, agência da ONU para os refugiados palestinianos, tem sido um dos principais alvos políticos a abater por parte do governo israelita. Ela dá emprego a treze mil pessoas na Faixa de Gaza, 200 das quais vítimas dos bombardeamentos israelitas ao longo dos últimos 10 meses de genocídio. Calcula-se que dois terços das escolas construídas pela UNRWA tenham sido destruídas e as restantes continuam a servir de abrigo à população deslocada.

O seu líder Phillipe Lazzarini esteve esta semana em Espanha e foi entrevistado pelo El País. Impedido de entrar em Gaza desde janeiro, o comissário da UNRWA diz que também não vai à sede da agência em Jerusalém desde junho, pois o seu visto de entrada no país ainda não lhe foi renovado. Esta é apenas mais uma das pressões israelitas sobre a agência, numa altura em que o Parlamento se prepara para discutir a declaração da UNRWA como organização terrorista.

“Imaginemos a situação: um país membro da ONU que classifica uma agência da ONU de terrorista. É algo sem precedentes, mas é possível que aconteça. Não seria apenas um ataque contra a UNRWA, mas contra o multilateralismo”, diz Lazzarini, acrescentando ser “ingénuo” achar que com o fim da sua agência “se irá evaporar a questão dos refugiados palestinianos”, cujo estatuto está protegido numa resolução da ONU distinta da que criou a agência.

Depois da campanha lançada por Israel contra a UNRWA por alguns dos seus trabalhadores terem participado nos ataques de 7 de outubro, muitos países suspenderam o financiamento à organização. Mas nos últimos meses, após o inquérito interno à situação, todos os países doadores voltaram a financiar a agência à exceção do mais importante: os EUA. Mesmo as receitas por parte dos novos doadores, como a África do Sul ou o Brasil, não compensam a ausência do financiamento dos EUA, confessa o líder da agência.

O objetivo imediato da agência em Gaza, onde afirma existirem 600 mil crianças “profundamente traumatizadas a viver entre as ruínas”, é conseguir até ao fim de setembro fazer regressar 200 mil dessas crianças “a uma espécie de ambiente de aprendizagem nos refúgios onde estão graças ao nosso pessoa, que também está deslocado”.

“Não estou a falar de escolas nem de lugares seguros, porque isso agora não existe em Gaza, a ideia é começar a tratar os seus traumas. Quem pode fazer isto se não for a UNRWA? Um governo? Não há governo em Gaza. O governo israelita, uma ONG? Não. Não há ninguém que possa prestar serviços a esta escala”, prosseguiu Lazzarini.

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Dez meses e 40.000 mortes depois, sublinha o líder da UNRWA, “o risco que corremos neste momento é o de banalizar o horror em Gaza”, com o sofrimento daquela população a converter-se “em algo abstrato”. E isso “faz-nos perder parte da nossa humanidade, e pior, os nossos valores universais nascidos após a II Guerra Mundial parecem irrelevantes. Se perdemos isso, o que é que nos sobra? Vai valer tudo”, reflete o responsável pela agência, prevendo que mesmo que hoje se declarasse o cessar-fogo, isso “seria o início de um caminho muito longo e doloroso para o povo de Gaza uma terra transformada num campo de ruínas”. Uma coisa é certa, conclui: é necessária uma solução política porque “voltar a cair num novo status quo [como o dos últimos 20 anos] será insustentável”.

Questionado sobre a proibição por parte de Israel da entrada de jornalistas em Gaza e se seria possível matar 40 mil pessoas na presença de imprensa estrangeira. Lazzarini lembrou que “nem no Afeganistão nem na Síria isto aconteceu” e que com a presença da imprensa internacional teria sido possível “documentar de outra forma a magnitude do desastre e haveria na Europa e nos EUA mais imagens do que se passa na Faixa de Gaza”, podendo isso atenuar não só a guerra, mas também a guerra de propaganda. Mas o que se passa é o contrário: “não há jornalistas estrangeiros em Gaza e às pessoas que trabalham em comunicação ou sensibilização em ONG e organizações humanitárias não lhes renovam os vistos de entrada em Israel. É significativo, não?”, responde.