Esta terça-feira, o governo sul-africano anunciou que apresentou uma “petição urgente” no Tribunal Internacional de Justiça (TIJ), requerendo que o órgão “utilize os seus poderes para impedir novas e iminentes violações dos direitos dos palestinianos” face ao anúncio de uma ofensiva militar terrestre do exército israelita contra Rafah.
A África do Sul insiste que o regulamento do TIJ prevê que este possa “em qualquer momento” avaliar se uma situação requer “a indicação de medidas provisórias que devem ser adotadas ou cumpridas por algumas ou por todas as partes”.
No texto, escreve-se ainda que a cidade é “o último refúgio dos sobreviventes de Gaza” e que o governo sul-africano está “profundamente preocupado porque a ofensiva sem precedentes contra Rafah (…) já causou e terá como resultado mais ataques em grande escala, matanças, estragos e destruição”. Tudo isto é considerado uma “violação grave e irreparável tanto da Convenção contra o Genocídio como da ordem do TIJ de 26 de janeiro de 2024” que exigiu que o Estado sionista aplicasse “todas as medidas ao seu alcance para prevenir um genocídio” e que adotasse “medidas imediatas e efetivas” para que a ajuda humanitária entre em Gaza. Esta decisão preliminar veio depois de uma outra queixa ao órgão datada de 29 de dezembro sobre crimes de genocídio cometidos por Israel.
“Massacre” a caminho, diz também a ONU
Entretanto, a ONU, através de Martin Griffiths, coordenador da ajuda humanitária, avisa que um ataque a Rafah levará a um “massacre” e que será “catastrófico”, destacando que os habitantes de Gaza já estão a sofrer com “um assalto que não tem paralelo na sua intensidade, brutalidade e dimensão”.
O jurista britânico foi claro ao dizer que os mais de um milhão e meio de pessoas que estarão “amontoadas em Rafah” estão a “encarar a morte: têm pouco para comer, quase nenhum acesso a cuidados médicos, nenhum lugar para dormir, nenhum lugar seguro para onde ir” e que os trabalhadores que prestam ajuda humanitária em Gaza, estão a ser “alvejados, detidos, atacados e mortos”.
Por seu lado, Philippe Lazzarini, chefe da Agência da ONU para os refugiados palestinianos, considera que “o preço que a população civil pagou é indescritível: em apenas quatro meses, 5% da população de Gaza foi morta, ferida ou está desaparecida. 17.000 crianças foram separadas dos pais”. A situação é de fome e “não há simplesmente nenhum lugar seguro em Gaza".
A UNRWA, da sua sigla em inglês, escreve na sua página do X que “as pessoas em Gaza foram ainda mais empurradas para o abismo”. Estão a ser “forçados a deslocarem-se novamente” e que “o êxodo continua à medida que as pessoas se deslocam de Rafah para as zonas centrais da Faixa de Gaza, em busca de segurança onde não há nenhuma”.
Explica que “enquanto a guerra brutal e as deslocações continuam, mais de dois milhões de pessoas em Gaza dependem da UNRWA para sobreviver” e que só nos seus abrigos há mais de um milhão de pessoas.”
Organização Mundial da Saúde também fala em “catástrofe”
“Catástrofe” é também a expressão utilizada pelos responsáveis da Organização Mundial da Saúde para a situação palestiniana. Richard Peeperkorn declarou que as “atividades militares” em Rafah “seriam, claro, uma catástrofe insondável… e iriam aumentar ainda mais o desastre humanitário para além do que possa ser imaginado”.
O sistema de saúde do território está “à beira do colapso” e o ataque pioraria muito mais a situação. Por seu lado, a capacidade de intervenção com ajuda médica da OMS está limitada com muitos dos seus pedidos para distribui-la a serem negados. No total, apenas 40% dos pedidos de missão feitos no norte de Gaza e 45% no sul desde novembro foram autorizados e a percentagem caiu muito mais a partir de janeiro, factos que considerou “absurdos”.
Intensificam-se bombardeamentos em Rafah
Os bombardeamentos sobre Rafah intensificarem-se nos últimos dias, depois do primeiro-ministro israelita ter anunciado a intenção de invadir por terra a cidade.
No dia de ontem, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, foram confirmadas as mortes de 103 pessoas em toda a faixa, vítimas das forças sionistas, e 145 ficaram feridas. Isto eleva o número de palestinianos mortos deste o início da atual fase da invasão para, pelo menos, 28.576, salvaguardando-se sempre que permanece um número não contabilizado de corpos sobre os destroços dos bombardeamentos. A mesma fonte dizia que, na segunda-feira, pelos menos 67 tinham sido vítimas dos bombardeamentos em Rafah.
A campanha de detenções na Cisjordânia também continua, com 18 pessoas presas na madrugada desta quarta-feira em várias cidades, elevando o número para 7.020 desde o início de outubro.
Ataque ao Líbano
A manhã de quarta-feira fica também marcada por um ataque em grande escala da força área israelita a território do Líbano como forma de punição pelo ataque com rockets que terá vindo do sul daquele país e vitimou um soldado israelita, ferindo outros oito de acordo com a Al Jazeera.