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Afonso Reis Cabral vence prémio José Saramago

Prémio foi atribuído pelo livro Pão de Açúcar, segundo romance do autor de 29 anos, que conta a história do assassinato de Gisberta Salce Júnior e dos jovens que a mataram.
Afonso Reis Cabral vence prémio José Saramago
Afonso Reis Cabral tinha já vencido o prémio LeYa com "O Meu Irmão". Foto de Elisa Trusso.

O escritor Afonso Reis Cabral é o vencedor do Prémio José Saramago, no valor de 25 000 euros, com Pão de Açúcar, o seu segundo romance. O prémio é promovido pela Fundação Círculo de Leitores e é atribuído bienalmente, desde 1999, distinguindo uma obra literária no domínio da ficção em língua portuguesa por um escritor com idade não superior a 35 anos.

Pão de Açúcar foi editado em 2018 e baseia-se na história de Gisberta Salce Júnior, mulher trans assassinada no Porto, em 2006, e na história dos jovens que a mataram.

No júri de atribuição do prémio estiveram a poetisa angolana Ana Paula Tavares, o autor português António Mega Ferreira, a escritora brasileira Nélida Piñon e a presidente da Fundação Saramago, Pilar del Rio, tendo o mesmo sido presidido pela editora Guilhermina Gomes

“O autor mergulha na opacidade dos diferentes mundos da cidade velados pelo silêncio e pelo estranhamento, e trabalha novos conceitos de vida, da morte e do amor, tal como as leis da violência os alargam e tornam percetíveis”, comentou Ana Paula Tavares. Pão de Açúcar “retira do esquecimento acontecimentos que os jornais e os relatórios da Polícia tinham tratado de forma redutora e parcial, com silêncios e omissões que o autor se propõe aqui revelar”.

"Romance compassivo, mas nunca sentimental, ‘Pão de Açúcar’ é de uma parcimónia exemplar no que respeita à linguagem pela imagística, sobretudo face à dramaticidade comovente dos envolvimentos humanos da sua estória", salientou Manuel Frias Martins, afirmando ainda que este é "um grande romance de um jovem autor de quem a literatura portuguesa se deve desde já orgulhar-se".

Em entrevista ao esquerda.net, Afonso Reis Cabral falou sobre o que o motivo a escolher a história de Gisberta. “Há uma certa impossibilidade num grupo de rapazes de sensivelmente 12 anos que descobre a Gisberta numa cave e começa por ajudá-la. E depois acaba em violência. Isto para mim era uma impossibilidade. Aqui é que estava a literatura”, disse.

Sobre o processo de escrita e a descrição que faz da violência praticada pelos rapazes, o autor salienta “morrer às mãos de amigos é muito pior do que morrer às mãos de desconhecidos. E o grupo inicial de facto ajudou-a durante semanas. Isto para mim era inconcebível. Foi sobre isto que tentei construir a ficção”, lembrando que “a violência existia e estava lá”, na história de vida dos jovens e na instituição de acolhimento em que se encontravam.

Afonso Reis Cabral tinha já vencido o Prémio LeYa em 2014 com O Meu Irmão, seu primeiro livro. Em 2017, foi-lhe atribuído o Prémio Europa David Mourão-Ferreira, na categoria de Promessa, e, em 2018, o Prémio Novos, na categoria de Literatura.

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