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Afonso Reis Cabral. Enfrentar o coração da vida.

Aos 28 anos, Afonso Reis Cabral terminou o seu segundo romance. Chama-se Pão de Açúcar, foi publicado pela D. Quixote e ficcionaliza a história do assassinato de Gisberta. Por Ana Bárbara Pedrosa.​​​​​​​
Fotografia de Elisa Trusso
Fotografia de Elisa Trusso

Há quatro anos, na altura em venceu o Prémio LeYa, os holofotes estiveram sobre Afonso Reis Cabral, e para muito contribuiu o rosto imberbe. Aliás, no dia 17 de Outubro de 2014, era da sua data de nascimento que se falava e o próprio júri, que decidiu cegamente, ficou admirado. No próprio dia, sem que ninguém soubesse ainda nada sobre O Meu Irmão, foi perguntado ao autor: “Então e o segundo?” Aqui está ele: Pão de Açúcar.

De 2014, lembro-me das palavras em entrevistas: “Um escritor tem de escrever sobre aquilo que conhece.” É por isso surpreendente a escolha deste tema: o assassinato de Gisberta, transexual, ocorrido em 2006, pelas mãos de 14 miúdos, após dias de agressões. O livro usa a base real dessa história e a partir daí urge a ficção.

Portanto, lendo-se a contracapa, poderia perguntar-se ao autor se mudou de ideias. Contudo, ao ler-se o livro, a questão não surge. O que ali está não florescerá da vida de Afonso Reis Cabral, mas o trabalho de investigação levado a cabo faz com que, pela segunda vez, tenha escrito sobre aquilo que domina: acções, espaços, histórias, modos de fala. As semelhanças biográficas entre o autor e o seu primeiro narrador serão conhecidas, o resto é o estertor da ficção. Neste caso, torna-se óbvio o exercício de outrar-se, imagino que para explorar as potencialidades da literatura e a versatilidade da mão, e é tal a diferença entre os contextos (família, classe social, habilitações literárias, amigos) que, em primeiro lugar, não podemos deixar de gabar-lhe a exímia construção de personagens. O que saltará à vista é que, com dois romances, já se percebe a solidez de um estilo e até a predilecção de ideias.

Exemplo 1:

- “E de facto não sofria, porque para isso precisava de ter consciência das próprias circunstâncias.” (Pão de Açúcar, p. 22)

- “Nada o afecta porque não tem capacidade para ser afectado.” (O Meu Irmão, pp. 18/19)

Exemplo 2:

- “Era como os doentes que gostam do privilégio da doença.” (Pão de Açúcar, p. 137)

- “Ele bem vê a alegria e o entusiasmo da mãe quando a doença o leva à cama, ele bem sabe que ser doente é torná-la útil” (O Meu Irmão, p. 195)

 

Percebe-se, no primeiro romance, que a prosa é trabalhada, adivinha-se que o autor queira mostrar talento. Manuel Alegre referiu-se à “prosa enxuta” de O Meu Irmão, mas eu não concordei a cem por cento. Era uma prosa escorreita e não deixava nada por dizer, o autor era atento aos detalhes e por isso os parágrafos alongavam-se e as descrições também. Em algumas partes, após um início muito bem construído, até fresco e surpreendente, a prosa parecia tactear, descobrir-se à medida que era escrita, a mão do autor - incisiva nos parágrafos - parecia perder-se nos capítulos, sendo por vezes demasiado explicativos e tendo algumas comparações escusadas. Daí um romance que, por ter texto inoperante, se tivesse lentificado mais do que, por vezes, seria expectável ou do que a sua arquitectura pediria. Aliás, o próprio autor afirma que a prosa, ao contrário da poesia, permite disfarçar alguma falhas. Nota-se o trabalho de disfarce, a longitude das explicações para que nada fique ao acaso.


Fotografia de Elisa Trusso

No caso de Pão de Açúcar, as descrições são muito mais operantes. Não há ervas daninhas, não se notam, como em O Meu Irmão, excepto em exemplos pontuais, as tentativas de sublimar a prosa, e a partir de uma certa altura a acção precipita-se já com vertigem, e isto apesar de o leitor conhecer o fim já desde a primeira página (é a busca do meio que torna o livro vivo). Não há aquela tendência para se contemplar o olhar demorado, antes para se saber onde é que cada olhar encaixa. Desse ponto de vista, a prosa deste livro é muito mais enxuta. No mesmo sentido, poderá sentir-se que o autor perdeu alguma delicadeza, e ainda bem que assim foi, já que não torna tão evidente a tentativa de disfarce de trabalho. Ou seja, quatro anos depois, temos um autor muito mais seguro, que nos ilude como é já costume nesta arte, fingindo perante nós que não há qualquer esforço na sintaxe.

 

Não há aquela tendência para se contemplar o olhar demorado, antes para se saber onde é que cada olhar encaixa.

É que o exercício da ficção está em tornar escorreita uma coisa que é esculpida. O mistério da ficção é descobrir - ou é até a própria impossibilidade de fazê-lo - qual é o botão de rosa do que é surpreendente. Convencionalmente, chamamos-lhe talento, mas também ninguém sabe bem o que isso é. Assim como assim, dominar esse mistério consiste em conseguir que o leitor julgue que tudo é uma assentada, não lhe descubra os trabalhos. “Que prosa escorreita”, dizemos nós, enganados. “Os parágrafos fluem sem qualquer dificuldade”, seguimos num enlevo. E os escritores continuam quase a ocultar o trabalho a bisturi e ninguém parece perceber os passos de formiga. Tudo é esmagado na ideia abstracta do talento.

Posto isto, nunca leitor nenhum adivinhará quanto tempo foi posto em cada frase, mas na prosa de Reis Cabral o que surpreende é o que parece natural:

- “Haveria qualquer coisa bela e aliciante nas lajes de cimento, nas ruas abandonadas, nos restos que a construção largou à sorte de gajos como nós.” (p. 16)

- “Ele bem tentou passar ao papel coisas volúveis e maleáveis como nós, mas o Nélson dizia-lhe que não, mas que merda era aquela, eu num desenho com o Rafa; o Samuel buscava o meu apoio, só que eu respondia que merda era aquela, eu num desenho com o Nélson. Ele que usasse a paisagem, o Porto, o caralho mais velho.” (p.18)

- “paisagem parada como outra qualquer” (p. 19)

- “grávidas de dez meses” (p. 36)

“E eu ia percebendo como temos de negar a nossa faceta boa repetidas vezes para levarmos o rancor avante. Seria mais fácil ceder às saudades: deixar-me do ir-não-ir e regressar em definitivo.” (p. 154)

- “Contornei-a na esperança de que ela mudasse de ideias ao olhar para mim. Mas os olhos fecharam-se-lhe de tanto cansaço e desarranjo mental.” (p. 221)

 

Difícil entender que isto não foi vivido, que é tudo malabarismo de autor. E ainda sobre esses malabarismos caberá uma nota sobre a linguagem. Há sempre um problema para quem faz um romance e tem-me parecido que se acentua em língua portuguesa: a vertigem entre a linguagem literária - trabalhada, fora de série, surpreendente - e a linguagem oral - aquela que, se surpreender, está mal realizada. Ora, o romance está escrito na primeira pessoa: um homem iletrado, que pouco estudou, bruto, que usa calão. Este perfil contrasta com o do próprio Reis Cabral: licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos, mestre em Estudos Portugueses, pós-graduado em Escrita de Ficção, um leitor constante, com bagagem cultural e literária, com um romance escrito e algumas tentativas. É óbvio que o background linguístico e cultural do autor e o do narrador em muito diferirão. Ainda assim, é de louvar o esforço pela aprendizagem do calão, a naturalidade com que aparece nas bocas das personagens. Contudo, parecer-nos-á que o problema se mantém, já que, fora dos diálogos, algum calão existe, mas não muito. O narrador escreve como um Reis Cabral, mas fala como um Rafa. O que espanta é que isto se leia sem soar a falha técnica, a descarada ficção. Aqui no meio, haverá um ou outro exemplo de misoginia gratuita (muito poucos, entre muitos de operante), atirados para dar coesão e veracidade à personagem, mas onde dispara a implausibilidade do resultado dessa busca:

 

- “Pena e também vergonha de ter por padrasto um homem que não se conseguia impor à mulher, ou sequer corrigi-la, e às vezes ela bem merecia que lhe arriassem com força.” (p. 78)

- “O próprio acto de contar, esse sim, revelava uma vulnerabilidade que muitos poderiam entender como feminina - quer dizer, como fraqueza.” (p. 107)

- “pareceu-me justo ela ter levado com uma pedra, já que é típico as mulheres levarem com pedras.” (p. 204)


Fotografia de Elisa Trusso

Os exemplos de violência operante não são poucos, de forma que os inoperantes, no conjunto global, se tornam de somenos. De resto, não há meias palavras nem romantizações escusadas, o que nos leva a um romance bem sucedido nas suas intenções. As indecisões, as incongruências, o abismo que há dentro de cada um de nós, a vergonha, a inveja, o ciúme, a dor, a carapaça dura que a falta de amor cria, a masculinidade que chega a roubar infâncias, e um fundo de beleza, como canto de sereia, suave, lento, a palpitar ao fundo, relembrando ao leitor, se é que pôde esquecer-se, que isto é literatura, que o que interessa é o coração da vida, que para fazer grandes obras há que sujar as mãos. E, portanto, de mãos sujas, Afonso Reis Cabral conseguiu roubar a beleza ao horror, pegar no coração da vida e pô-lo nas mãos do leitor, como o seu próprio, enquanto folheia o livro.

Não sendo este um romance explicativo, não querendo dar lições a ninguém, através do operante, o autor conseguiu humanizar os agressores sem desculpá-los. Conseguiu humanizá-los mas não deixar dúvidas ao leitor sobre estar perante o monstruoso. No meio desta humanização, o que emociona no romance é precisamente não ser sentimental.

Pão de Açúcar não é um panfleto ideológico, não é uma tese académica, é literatura com aquilo a que se propõe: ir à verdade. E isto misturando ficção com realidade. Verdade no sentido de descobrir a humanidade, de escarafunchar os factos e até de inventar alguns. A verdade inventiva de Afonso Reis Cabral foi o que mais me comoveu sobre este caso. Até agora, tudo o que li foi revoltante, mas foi só lógica. Assim, não sendo este um romance explicativo, não querendo dar lições a ninguém, através do operante, o autor conseguiu humanizar os agressores sem desculpá-los. Conseguiu humanizá-los mas não deixar dúvidas ao leitor sobre estar perante o monstruoso. No meio desta humanização, o que emociona no romance é precisamente não ser sentimental.

Reis Cabral escreveu sem temer sujar as mãos, encontrou a engrenagem da ficção. Quis discutir o mais confuso, por vezes vil, que há em cada um de nós e fê-lo sem ceder à caricatura. Não há um intento inócuo, há uma vontade de mergulhar no escondido. Não é coisa pouca. Aliás, é quase tudo.

 

Sobre o/a autor(a)

Doutorada em Literatura, investigadora, editora e linguista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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