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25 de Abril: três meses antes

O esquerda.net republica as "Recordações da Casa Vermelha" de João Martins Pereira – um conjunto de recortes e memórias dos meses que precederam a Revolução, publicado na revista Combate nos 20 anos do 25 de Abril.
As "Recordações da Casa Vermelha" recolhidas por João Martins Pereira em 1994.

Recordações da Casa Vermelha

Mês -3 Janeiro 1974

GRANDES TEMAS DO MÊS

Tropa

Spínola toma posse de “vice-CEMGFA”, cargo criado para ele dias antes. Mas o discurso para a sessão, distribuído previamente à imprensa, é retirado e censurado.

O governo continua a publicar diplomas para acalmar os militares, mas já ninguém liga.

Brancos da Beira (Moçambique) acusam os militares de “não quererem combater”. Movimento dos Capitães difunde pelos quartéis circular com telegramas de colegas da Beira, receosos de que a tropa venha a ser o “bode expiatório dos políticos”. A circular chega à imprensa e é afixada nas Universidades, com a aprovação de Spínola. Costa Gomes parte para a Beira para arrefecer os ânimos.

Greves

Continua a vaga de greves dos últimos meses, por todo o país. Agora: Cometna, Robbialac, Melka, J. Pimenta, Roldão (Marinha Grande), Arsenal do Alfeite (estaleiro da Marinha).

ANTECIPAÇÕES

Na quilométrica (e sempre divertida) mensagem de Ano Novo, diz o almirante Tomás: “É de esperar que a fisionomia da terra portuguesa vá adquirindo até lá [1979, fim do período do IV Plano de Fomento] cambiantes novos e mais risonhos, tando do ponto de vista material como social”. Nem ele sabia!

ONTEM COMO HOJE

Ministro da Educação (Veiga Simão): “Vou dedicar nos próximos meses grande parte das minhas energias aos professores e à resolução dos problemas fundamentais que os afectam”.

Segundo a “Vida Mundial”, “entre 1960 e 1971 o número de pescadores em Portugal baixou de 19,1%”. Hoje talvez só restem 19,1%, com a ajuda da CEE…

Diz o chefe de gabinete de Ortoli (o Delors da altura): “Lavará ainda muito tempo a definição de um balanced leadership [lideranda equilibrada] entre os E. Unidos e a Comunidade Europeia”, e queixa-se dos obstáculos postos pelo excessivo “nacionalismo dos Estados-Membros [da CE] ”.

DIVERGÊNCIAS

Em entrevista, afirma Maria Teresa Horta (uma das “Três Marias”, com julgamento em curso pela publicação das “Novas Cartas Portuguesas”): “Eu e a Isabel Barreno somos duas feministas mesmo a sério (…) mas a Maria Velho da Costa, bem, a MVC não é uma feminista nem nunca será”.

INTERNACIONAL

A imprensa portuguesa multiplica-se em artigos, análises e conjecturas sobre a “crise do petróleo”. É assunto quase diário.

Em Inglaterra, começa uma greve de mineiros, a que se associarão os ferroviários. O primeiro-ministro Heath, que na sequência disso virá a cair no mês seguinte, declara que “estes são os piores dias desde a 2ª Guerra Mundial”. O que dirá dos de hoje?

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