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21 de abril de 1961: Os primeiros soldados partem para a guerra a bordo do Niassa

Há exatamente 60 anos, mais de 2.000 soldados rumavam a Luanda. Foram combater um inimigo que não era o seu, por uma pátria que os transformou em carne para canhão. Texto de Mariana Carneiro e fotos de Fernando Mariano Cardeira.
Fotos tiradas por Fernando Mariano Cardeira aquando do embarque do seu irmão para Moçambique, a bordo do paquete Império, a 12 de Abril de 1969.

Para Angola, rapidamente e em força, clamava Salazar a 13 de abril de 1961, uma semana antes de partirem os primeiros contingentes de tropas portuguesas: a 19 de abril, por via aérea e, a 21 de abril, por via marítima.

Há exatamente 60 anos, mais de 2.000 soldados embarcaram no Niassa, o primeiro paquete fretado para transporte de militares e de material de guerra, por portaria de 4 de março de 1961. O Niassa zarpou do cais de Santa Apolónia a 21 de janeiro, chegando a Luanda 10 dias mais tarde, a 1 de maio, uma segunda-feira.

1961 e a anunciada queda do colonialismo português

Entre finais de 1960 e inícios de 1961, o mito da pax imperial portuguesa é fortemente abalado. O impacto do processo de independência do antigo Congo belga terá tido repercussões consideráveis, sobretudo entre os bacongos do Norte de Angola, trazendo expectativas de libertação e independência.

A revolta da Baixa de Cassange, uma região que, em duas extensas zonas, se encosta ao Congo, tornar-se-ia, por sua vez, uma espécie de ensaio geral para a guerra. Na Baixa de Cassange vigorava o regime da cultura obrigatória do algodão. Os agricultores e as suas famílias tinham de cultivar o algodão, em detrimento de culturas que assegurariam a sua subsistência alimentar, e vender a sua produção à Cotonang. Esta companhia estipulava preços miseráveis e ainda tinha poder para classificar como de 2ª o algodão de 1ª. Na região grassava uma pobreza extrema e os camponeses eram sujeitos a todo o tipo de violência e arbitrariedades. No final de 1960, os camponeses começaram a parar a produção, a recusar pagar impostos e a insurgirem-se contra a Cotonang e os colonos portugueses. A 4 de janeiro de 1961, negaram-se a voltar ao trabalho e queimaram as sementes distribuídas pela companhia. A partir daí, deu-se o esmagamento militar da revolta. Entraram em campo a 3ª e a 4ª Companhias de Caçadores e a Força Aérea. Várias sanzalas foram totalmente dizimadas e muitos dos seus habitantes mortos.

Entretanto, na madrugada de 4 de fevereiro, quando a revolta do Cassange ainda não tinha sido contida, guerrilheiros africanos atacaram, em Luanda, a casa de reclusão militar, a cadeia administrativa de São Paulo e o Quartel da Companhia Móvel da Polícia de Segurança Pública. O objetivo era libertar os presos políticos e arrecadar armamento. No dia seguinte, no enterro de alguns soldados mortos, eclodem conflitos. A repressão colonial é feroz. Perante as represálias, os guerrilheiros voltam a atacar a cadeia de São Paulo e a Companhia Indígena a 11 de fevereiro.

Pouco mais de um mês depois, dá-se a sublevação do 15 de março, protagonizada pela UPA (União das Populações de Angola). Os ataques foram fulminantes e a violência e ferocidade dos métodos utilizados atrozes. Brancos, mestiços e alguns negros foram alvo da barbárie. Ao contrário do que foi propalado, estes ataques não constituíram uma surpresa para as forças portuguesas. Já tinham existido vários alertas da própria PIDE e das autoridades administrativas no que respeita à iminência de um ataque. No entanto, o Governo de Salazar nada fez. Ao terror negro, os colonos responderam com terror branco, agravando o fosso racial de forma que se provou ser irreversível. A vaga repressiva do regime salazarista vai atingir vários religiosos e determinar a sua prisão, sob a acusação de incitar a revolta. Entre eles, o cónego Manuel das Neves.

A nível interno, o ano de 1961 também trouxe alguns revezes a António de Oliveira Salazar. O assalto ao paquete Santa Maria, a 22 de janeiro, conduzido por um alto dignitário do Estado Novo, Henrique Galvão, expõe a vulnerabilidade do regime. A 13 de abril, o ditador português é confrontado com uma tentativa de golpe de Estado por parte de homens como o ministro da Defesa Nacional, general Júlio Botelho Moniz, o ministro do Exército, coronel Almeida Fernandes, o subsecretário de Estado do Exército, tenente-coronel Costa Gomes, e o Chefe do Estado-Maior-General (CEMGFA), general Beleza Ferraz. Na noite desse mesmo dia, Salazar surge perante as câmaras da televisão portuguesa para anunciar a remodelação governamental e explicar porque assumia a pasta da Defesa: “se é precisa uma explicação para o facto de assumir a pasta da Defesa Nacional [...] a explicação concretiza-se numa palavra e essa é Angola [...] Andar rapidamente e em força é o objetivo que vai pôr à prova a nossa capacidade de decisão [...] a fim de defender Angola e com ela a integridade da Nação”. Uma semana depois, partem então os primeiros contingentes de tropas portuguesas para Angola.

O ano de 1961 vai ficar ainda marcado por acontecimentos como a publicação, em janeiro, do programa para a democratização da República, pelo Oposição Democrática, em que se repudia qualquer manifestação de imperialismo colonialista; o “salto” dos estudantes da Casa de Estudantes do Império, que irão engrossar as fileiras dos Movimentos de Libertação Nacional; e o desvio, a 10 de novembro, por parte de Palma Inácio e Camilo Mortágua, do Super Constellation da TAP, do voo Casablanca-Lisboa. Este foi o primeiro desvio de um avião comercial de que há registo internacionalmente. A ação, que ficou conhecida como a “Operação Vagô”, incluiu o lançamento de 100 mil panfletos sobre Lisboa, Barreiro, Setúbal, Beja e Faro.

A nível internacional, a 15 de março, é aprovada uma moção do Conselho de Segurança da ONU a condenar a situação em Angola, votada pelos Estados Unidos e pela União Soviética, pela primeira vez; e a 4 de abril é aprovada uma moção a favor da autodeterminação de Angola pela Assembleia Geral da ONU. Neste mês é ainda instituído pela ONU um Subcomité dos Cinco, a fim de investigar a situação relacionada com os acontecimentos em Angola. A 1 de setembro tem início a I Conferência Plenária dos Países Não Alinhados em Belgrado, que apela à ajuda internacional do povo angolano, e a 27 de novembro é criado, no seio da ONU, o Comité da Descolonização. O final do ano também não trouxe boas novidades a Salazar, com a apresentação, a 19 de dezembro, da rendição das tropas portuguesas ao comando indiano. E Goa foi o princípio do fim.

Uma Guerra injusta, imoral, maldita

Em 1961, embarcaram 33 mil homens, os primeiros dos 800 mil enviados para os palcos da Guerra Colonial em Angola, Guiné e Moçambique. Até à Revolução de 1974, mais de 90 por cento da carga e de 80 por cento do pessoal metropolitano empenhado na guerra foram transportados para as ex-colónias por via marítima.

Os paquetes mais utilizados para o efeito foram o Vera Cruz, que realizou o maior número de viagens, o Niassa, o Lima, o Império e o Uíje. Em 1961, nove paquetes em missão militar realizaram 19 viagens com destino aos palcos da Guerra Colonial. O número de viagens aumentou para 27 em 1963 e para 33 em 1967. O Cais da Rocha do Conde de Óbidos, em Alcântara, passou a ser local privilegiado de escoamento de tropas e colonos.

“Os soldados partiam para Angola, com a confiança vinculada no rosto e a serena garantia de que iam combater por uma causa justa (…) Lisboa viu-os partir. E as esposas, mães e irmãs acenaram-lhes com orgulho”. Este era o relato da propaganda do regime.

Mas os soldados, na sua grande maioria, eram pouco mais do que rapazes. Muitos apenas conheciam as aldeias onde tinham nascido e os quartéis onde fizeram a recruta. E mal sabiam ler e escrever, ou nem isso. Não tinham qualquer ideia do que os esperava em Angola. Os primeiros contingentes foram aclamados como heróis à chegada a Luanda, mas estavam mal preparados, não estavam devidamente equipados e nem sequer sabiam bem o que estavam ali a fazer. Médicos militares no terreno alertavam para o alarmante estado de subnutrição e desidratação dos soldados e a inexistência de cuidados de saúde adequados.

Os militares portugueses enviados para os palcos da Guerra Colonial em Angola, Guiné e Moçambique ocuparam, pilharam, queimaram aldeias, torturaram, mataram. São vários os relatos de agressões sexuais contra as mulheres africanas e, inclusive, de violações em grupo. O relato do massacre de Wiryamu, Chawola e Juwau (1972), no distrito de Tete, em Moçambique, levado a cabo por tropas coloniais portuguesas e pela PIDE-DGS, dá-nos conta das atrocidades, dos crimes hediondos cometidos durante a Guerra Colonial, com o extermínio de comunidades inteiras – incluindo crianças, mulheres, idosos – com requintes de uma perversidade sem limites.

Os soldados portugueses, por sua vez, serviram como verdadeira “carne para canhão”.

Muitos não voltaram, foram enterrados no cenário de combate ou os seus corpos não foram encontrados. Outras famílias puderam enterrar os seus entes queridos. Às famílias dos soldados mortos, foi cravada uma medalha ao peito, nas cerimónias das comemorações do dia de Portugal.

Os soldados que voltaram trouxeram as memórias de matar, ver morrer, de morrer aos poucos. Os estropiados foram rapidamente escondidos pelo regime fascista, que não queria ver divulgados os horrores da guerra. Uns, atirados para o Depósito de Indisponíveis, na Graça, em Lisboa. Outros, reencaminhados para as suas aldeias, esquecidos, sem qualquer possibilidade de recuperarem as suas anteriores ocupações.

Às mulheres portuguesas foi atribuído o papel de apoiar o esforço de guerra: parir guerreiros para a defesa do “Império” e apoiá-los, bem como aos maridos, irmãos e todos os homens enviados para as ex-colónias; apoiar na assistência aos feridos e desprotegidos; trabalhar nas fábricas de munições. Foi-lhes imposto um sofrimento silencioso, porque ir para a guerra só podia ser motivo de orgulho. E herdaram o stress pós-traumático daqueles que de lá vieram.

Lá, as mulheres africanas guardam as cicatrizes das agressões sexuais e cuidam dos filhos deixados pelos soldados portugueses, nunca reconhecidos pelos pais e pelo Estado Português.

A Guerra Colonial durou mais do dobro da Segunda Guerra Mundial e fez milhares de mortos portugueses e africanos. Este conflito representou, em termos humanos, um esforço cinco vezes superior ao que os EUA mobilizaram para o Vietname. Apenas entre o contingente português, contabilizaram-se 8.831 mortos, 30 mil feridos, 4.500 mutilados, 14 mil deficientes físicos. Mais de 100 mil diagnosticados com perturbação de stress pós-traumático.

A devastação causada pelo colonialismo português nos territórios das ex-colónias tem ainda repercussões profundas, ao ter comprometido abruptamente o desenvolvimento económico, social, cultural das suas sociedades, espoliado os seus bens e os seus recursos, escravizado, violentado e tentado aniquilar a identidade e a cultura dos seus povos.


FONTES:

AFONSO, Aniceto; GOMES, Carlos de Matos Gomes. Guerra Colonial. Edição: Editorial Notícias, abril de 2000

CARDINA, Miguel; MARTINS, Bruno Sena. As Voltas do Passado - A Guerra Colonial e as Lutas de Libertação. Editor: Tinta da China, junho de 2018

DHADA, Mustafah. O Massacre Português de Wiriamu - Moçambique, 1972. Edição: Tinta da China, outubro de 2016.

GOMES, Catarina. Furriel não é Nome de Pai. Lisboa: Tinta da China, Edição:05-2018.

MATEUS, Dalila Cabrita. Angola 61 - Guerra Colonial: Causas e Consequências. Edição: Texto Editores, janeiro de 2011.

RIBEIRO, Margarida Calafate. África no Feminino: as Mulheres Portuguesas e a Guerra Colonial. Porto: Afrontamento, 2007.

ROSAS, Fernando. História a História – África. Edição: Tinta da China, março de 2018  ‧  ISBN: 9789896714215

Arquivo Digital do Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra

Baixa de Kasanje – a revolta camponesa de 1961, artigo de Aida Freudenthal, publicado no Esquerda.net

15 de março de 1961: A UPA e a revolta no norte de Angola, artigo de Maria da Conceição Neto, publicado no Esquerda.net

O 4 de fevereiro de 1961 e a guerra colonial em Angola, artigo de Diana Andringa, publicado no Esquerda.net

Goa, ou o princípio do fim, artigo de Fernando Rosas, publicado no Esquerda.net

Wiriamu: O massacre esquecido, artigo de Carmo Vicente, publicado no Esquerda.net

Estilhaços de uma guerra maldita, artigo de Mariana Carneiro, publicado no Esquerda.net

As feridas abertas da Guerra Colonial, artigo de Mariana Carneiro, publicado no Esquerda.net

Sobre o/a autor(a)

Socióloga do Trabalho, especialista em Direito do trabalho
Termos relacionados Esquerda com Memória, Política
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