Ser ecofeminista

18 de June 2020 - 22:21

Entre a moda e o movimento radical, entre o apelo interior e a mobilização, análise de um conceito em voga mas com sentidos muito diversos, através do extrato de um livro de Jeanne Burgart-Goutal publicado na revista Contretemps.

PARTILHAR
Ecofeminismo.Ilustração do site Carta Capital.
Ecofeminismo.Ilustração do site Carta Capital.

A opressão das mulheres e a destruição da natureza são duas facetas indissociáveis de um modelo de civilização que deve ser ultrapassado: esta é a perspetiva central do ecofeminismo. Mas por trás deste termo existe uma grande variedade de pensamentos e práticas militantes.

Ao romper com uma abordagem chique e apolítica que está hoje em voga, este livro restitui a riqueza e a diversidade das teorias desenvolvidas por este movimento nascido há mais de 40 anos: crítica radical ao capitalismo e à tecnociência, redescoberta da sabedoria e do saber-fazer tradicionais, reapropriação das mulheres do seu corpo, aprendizagem de uma relação íntima com o cosmos...

Nesta road trip filosófica que intercala reportagens e análises, a autora acompanha-nos pelos caminhos das ecofeministas desde Cévennes, onde algumas tentam a aventura de viver em autonomia, até ao norte da Índia, onde vive a estrela do movimento, Vandana Shiva. Ela também revela as ambiguidades desta corrente, onde se misturam ocidentais em busca de alternativas sociais e transformações pessoais, ONGs que seguem as suas estratégias comerciais e políticas particulares e lutas concretas de mulheres e comunidades indígenas nos países do Sul.

Texto de apresentação do livro.

* * *

Como mudar o mundo num momento em que já não se acredita na revolução nem no atual processo democrático? Este problema norteou a política ecofeminista desde o início do movimento. As ativistas da década de 1980 nunca criaram um partido: não tinham ilusões sobre a representação institucional em Estados que, aos seus olhos, eram democráticos apenas no nome. Instruídas pela história do século XX, também não acreditavam no alcance real de uma revolução: em matéria de ecologia e feminismo, a URSS ou a China não eram melhores do que os Estados Unidos. Elas nem sequer se regozijavam com a crescente ascensão das mulheres a cargos políticos:

“Uma simples mudança na composição quantitativa de género nos parlamentos sem que haja uma mudança fundamental nas estruturas e políticas patriarcais não levará aos resultados esperados pelas feministas. [...] Perguntemo-nos o que esta luta pelo poder político das mulheres alcançou até agora. [...] As mulheres que tiveram paciência, ambição e resistência suficientes para ocupar as cadeiras do poder não eram necessariamente as que queriam mudanças sistémicas. [...] Essas querem agarrar-se ao poder, querem permanecer na casa dos homens. Querem participar nos jogos de poder dos homens que agora chamam de «Realpolitik profissional». Esta metamorfose não é nenhuma novidade. Não é particular das mulheres, mas aconteceu muitas vezes na história. O drama da transformação da rebelião numa aceitação do sistema existente de dominação e de integração nesse sistema, segue as mesmas etapas. [...] Não é surpreendente ver mulheres a fazer o mesmo que os homens patriarcais fizeram desde tempos imemoriais [1].”

As ecofeministas nunca sonharam em chegar ao poder: elas sonham com “uma sociedade finalmente feminina que seria baseada no não-poder (e não no poder-para as mulheres)[2]”. Todas elas rejeitaram o ideal de uma política ou sociedade matriarcal e até mesmo a hipótese de um matriarcado originário. [3] Desde logo,

“A questão torna-se: como derrubar não aqueles que estão atualmente no poder, mas o princípio do poder sobre algo? Como podemos moldar uma sociedade baseada no princípio do poder interior[4]?”

De acordo com essa sensibilidade radicalmente anarquista, elas tiveram que inventar outros modos de ação. Ao conjugar o preceito gandhiano “seja a mudança que quer ver no mundo” com o slogan feminista “o pessoal é político”, muitas pensaram sobre as maneiras de transformar a realidade, até na nossa intimidade, nos nossos estilos de vida, nas nossas relações profissionais, nas profundezas da nossa psique, nas nossas crenças, nos nossos hábitos, na mais pequena escolha. Neste livro, tentei dar alguns exemplos dessas práticas transformadoras integradas no quotidiano. Giovanna Di Chiro resumiu-o com um slogan provocador: “Traga a ecologia para casa” – uma casa igualmente compartilhada por homens e mulheres. Obviamente, essa abordagem suscitou algumas ironias. Janet Biehl, ao acusar o ecofeminismo de se ter “tornado um exercício de transformação pessoal[5]”, (claramente) menosprezou a moda das “radical homemakers”, essas donas de casa politicamente radicais que

“Escolhem ficar em casa para cuidar da família e dar aos filhos alimentação saudável a partir dos alimentos saborosos que cultivam no seu jardim”. Os seus relacionamentos com os outros favorecem a simplicidade e a autenticidade. Auto-suficiente, a sua casa é uma rede de segurança contra um possível desastre económico. E a sua pegada de carbono é muito baixa. Conseguem, assim, florescer a um nível pessoal enquanto dão sentido às suas vidas – pelo menos à primeira vista. [...] O que pensar desta falta de reconhecimento que algumas mulheres infligem a si mesmas em nome do feminismo[6]?”

Mas as ecofeministas recusaram validar as vias dominantes de reconhecimento. Se a transformação pessoal não é suficiente para mudar a sociedade, ela é necessária e nunca deixa de ter consequências coletivas. Esta abordagem carrega “um paradoxo fundamental: a consciência dá forma à realidade; a realidade dá forma à consciência[7]”. A sua ideia de mudança pessoal nada tem a ver com a dos “pequenos gestos diários” que queria fazer crer que bastava fechar a torneira, desligar a luz e separar os seus resíduos para resolver a crise ecológica – aos seus olhos um truque do liberalismo repintado de verde. Não, o que estão a tentar provocar é aquela famosa mutação holística, aquela “mudança de paradigma” interna e externa.

Na prática, as ecofeministas usaram todas as armas ao seu alcance ao longo do passar dos anos: criação de coletivos, manifestações, acampamentos, bloqueios, marchas de protesto, cortejos, cadeias humanas, atividades associativas, círculos femininos, comunidades espirituais, conciliábulos de magia, reuniões secretas, reuniões abertas, atos de desobediência civil, alegres desestabilizações das grandes reuniões internacionais do capitalismo, música, tambores, dança, pintura, filmes, performances, folhetos, ensaios, fanzines, romances, seminários universitários, conferências, sensibilizações, rituais, witchcamps, formações de todos os géneros, retorno à terra, autoginecologia, mudanças de alimentação, de educação, de estilo de vida, de sexualidade...

E tudo isto está de volta hoje a França! Para o observador atento às margens e aos buracos nas malhas das redes, está a tecer-se desde há pouco tempo uma galáxia onde cada estrela e cada constelação ocupa um lugar à sua maneira. Toda uma rede informal, vagamente ligada por essa afinidade, cuja emergência tentei seguir e dar alguns exemplos.

Entre as mulheres que encontrei e que reivindicam explicitamente pertencer ao ecofeminismo hoje em França, há quem faça filmes, quem se organize em coletivos e crie ações de desobediência civil, quem forme outros ativistas, quem se torne horticultora biológica, quem escreva livros, teses e artigos sobre o assunto, quem os publique, quem ministre cursos na universidade, quem desenhe, quem faça espetáculos e performances artísticas, quem cuide as pessoas feridas pelo patriarcado, quem cultive um jardim comunitário no seu bairro, quem fomente os círculos ou oficinas de mulheres em torno do Feminino, quem ensine as mulheres a reapropriarem-se dos seus corpos, quem as faça dançar ou caminhar, quem lhes transmita o seu conhecimento sobre plantas, as suas habilidades em colher alimentos, sobre artesanato, reparações, reciclagem, tecelagem, bricolage, não-desperdício, quem construa estaleiros participativos de eco-construção, quem experimente a aventura dos eco-lugares, quem se torne vegan, quem abrigue animais, quem realize rituais pela terra, quem lute a nível jurídico para que os direitos dos rios sejam reconhecidos e todas as outras pessoas anónimas que não conheço.

O princípio: tocar em tudo, para chegar a todos onde quer que estejam e responder à pergunta: como se pode ser ecofeminista na vida real?

* * *

Este reflorescimento não surge sem questionamentos. Será simplesmente uma moda ou é uma vaga mais sincera? Ao obter um eco mediático crescente, a palavra “ecofeminismo” parece, por vezes, ficar à deriva; é aplicada a fenómenos tão contrastantes que se teme que se esvazie da sua substância e se torne numa farsa. Se se propagar até este ponto próximo entre os media e o público em geral, aquilo que é chamado de “ecofeminismo” pode realmente permanecer enquanto movimento radical, contestatário e contra-hegemónico, ou corre o risco de se tornar o novo discurso politicamente correto, a nova moda “cache-sex” e bem pensante do capitalismo? Não é por má-fé que formulo estas perguntas. Vários indícios levam-me a suspeitar deste termo, ou, em todo o caso, revelam as ambiguidades do ecofeminismo “2.0”.

Em primeiro lugar, as palavras “mulheres”, “género”, “ambiente” deixaram de ser revolucionárias: são as novas palavras da ordem moral e das instituições internacionais. O tema “género e meio ambiente” está a desenvolver-se rapidamente, invadindo o discurso dos meios de comunicação social a tal ponto que não posso deixar de achar suspeito. Tal como me foi claramente explicado durante a minha estadia com ONGs feministas e ambientalistas na Índia, se se quiser obter uma aprovação alargada e subvenções, estas são as novas palavras-chave. Também na Indonésia, os ativistas do movimento Kendeng que lutam contra o estabelecimento de fábricas de cimento na sua região perceberam o mesmo: falar de “ecofeminismo” é enviar os sinais certos para seduzir os media e o público urbano, à escala nacional e internacional. Estes são os novos marcadores para “boas lutas” hoje em dia. Tal como disse um membro do movimento Kendeng, “as mulheres tornam a luta sexy”. Evidentemente, tudo isto é ambivalente; estas estratégias retóricas das ONGs e dos movimentos sociais têm a sua razão de ser e são legítimas. Tens que saber fingir, tens que saber jogar... mas no fim de contas, quem é que está a jogar com quem?

Outra fonte de questionamento é a ligação das ecofeministas de hoje às novas tecnologias. Com algumas exceções, a maioria das pessoas e associações que pude conhecer estão conectadas no Facebook, Twitter e Instagram, usam abundantemente as redes sociais para comunicar e, acima de tudo, não parecem percecionar nisso nenhuma tensão com o seu compromisso. Recentemente participei de uma mesa redonda organizada na muito em voga Maison du crowdfunding; ao meu lado, enquanto eu apresentava a teoria ecofeminista, uma jovem e atraente youtuber representava a sua prática. Existem até capas para iPhone com a marca de “Ecofeminista”! Nesta aceitação não crítica das novas tecnologias, deveríamos ver um sinal de pragmatismo, uma maturidade do movimento livre da radicalidade estúpida dos mais velhos ou um ponto cego realmente irritante?

Enfim, pelo que observei, as ecofeministas francesas de hoje são, na sua maioria, mulheres jovens e altamente educadas. O risco do movimento ser rotulado de feminismo branco e elitista, como aconteceu nos anos 90, está, portanto, muito presente. Encontramos a mesma cisão de antes entre as ecofeministas assumidas, que conhecem e reivindicam esta denominação (principalmente estudantes e intelectuais), e as mulheres que aos seus olhos poderiam encarnar a “base” do movimento mas que não se reclamam de todo dele. Mas, basicamente, não é este o caso para qualquer movimento político da extrema-esquerda?

* * *

Ainda assim, esta redescoberta do ecofeminismo pode ter a sua utilidade, enquanto salvaguarda contra duas tendências que vejo a desenvolverem-se: por um lado, o retorno de um discurso complicado sobre o papel das mulheres e do feminino na salvação do planeta – em suma, de uma ecologia ignorante do feminismo. Por outro lado, a recuperação institucional do tema “género e meio ambiente” no sentido de um pseudofeminismo sem consciência ecológica real – uma daquelas manhas de que o “novo espírito do capitalismo”[9] tem o segredo.

“«São as mulheres que vão salvar o planeta»: pensei ao ler o livro de Naomi Klein Tudo pode mudar, um trabalho notável sobre o capitalismo e as alterações climáticas[10]”, escreveu Paul Warren, professor de cinema do Québec. À primeira vista, isto parece ser lisonjeiro. Até mesmo feminista. Bem como a promoção das jovens mulheres na greve climática[11]. Ou esta contracapa de um livro recente, Les Femmes, avenir de la terre (2017):

“Quando o futuro é determinado pelos homens, significa que as decisões e ações que afetam o planeta, a sua população e toda a vida na Terra são tomadas e realizadas por um dos dois sexos que ignora ou não leva em consideração os sentimentos, as experiências e os sofrimentos dos outros. [...] É hora de «unir as mulheres», porque só quando são fortes juntas é que podem defender ferozmente o que amam. Só aí as crianças estarão em segurança e a paz será verdadeiramente possível[12].”

Mas não é fácil glorificar as mulheres para que elas salvem a terra? Já em 1975, a teóloga ecofeminista Rosemary Radford Ruether escreveu em New Woman, New Earth:

“As mulheres devem ter cuidado com o papel simbólico que serão solicitadas a desempenhar na crise ecológica tal como é analisada no seio da cultura patriarcal. Qualquer esforço para conciliar o «homem» concebido neste contexto com a «natureza», sem passar por uma reestruturação dos padrões psíquicos e sociais que fazem da natureza um «Outro», tenderá a relegar as mulheres, símbolos patriarcais da «natureza», para uma atitude de servidão romântica em relação aos homens cristalizados numa alienação auto-complacente. A preocupação ecológica poderá levar à repetição dos erros do romantismo do século XIX, revivendo a exaltação da «natureza complementar» de homens e mulheres[13].”

A autora acaba por enfatizar que, para poder construir uma sociedade realmente ecológica:

“É o modo de vida dos homens, mais do que o das mulheres, que deve sofrer as mudanças mais profundas. Os homens devem superar a ilusão individualista da autonomia, que se correlaciona com um poder exercido sobre os outros, a começar pelas mulheres com quem estão em contacto. Enquanto amantes, pais e colaboradores, devem estabelecer um relacionamento com as mulheres que seja essencial para à manutençãoda vida: produção de alimentos, roupas, limpeza, cuidados com os filhos desde o nascimento, culinária, gestão dos resíduos. Só quando os homens estiverem totalmente integrados à cultura das tarefas diárias de subsistência é que tanto homens e mulheres podem começar a remodelar, juntos, a vida económica, social e política.[14]”

Este não é verdadeiramente o caminho que a maioria do movimento ecológico hoje empreende na França... Mesmo quando é adornado com um verniz ecofeminista. Assim, nos trabalhos sobre “colapso”, que atualmente estão a ter um grande sucesso, os colapsologistas “Servigne, Stevens e Chapelle descobrem o ecofeminismo”, nota o ambientalista Daniel Tanuro,

“Mas Um outro fim do mundo” não evoca nem a luta das mulheres pela sua emancipação, nem a necessidade de um movimento autónomo de mulheres, nem o lugar central desse movimento nos combates contra a destruição ambiental e social. Os autores preferem desenvolver a ideia de que os «arquétipos feminino e masculino» são «polaridades que não se opõem»[15].”

Estar-se-á a concretizar a profecia de Ruether?

Evitar a repetição dos mesmos padrões patriarcais, reconhecer as dinâmicas do poder, em vez de camuflá-las ou embelezá-las: é isto que deve reger a redescoberta do ecofeminismo hoje, com ênfase na noção bastante política de interconexão de dominações.

O segundo esquema que deve desarmadilhar é a asseptização insidiosa, a despolitização e, finalmente, a aniquilação de qualquer luta feminista e ecológica sincera através da recuperação do tema “género e meio ambiente”. Porque se este tema hoje ganhou legitimidade nos níveis mais formais das políticas públicas e das instituições internacionais, devemos ter cuidado para não o confundir com o ecofeminismo! Para dar apenas um exemplo, a 21 de fevereiro de 2019, foi realizado um encontro internacional chamado “Women4Climate” nos opulentos salões da Câmara Municipal de Paris e focado no “papel crucial das mulheres na luta contra as mudanças climáticas. O objetivo é fazer emergir uma nova geração de heroínas do clima[16].” Muitas pessoas bonitas, os presidentes das Câmaras de Paris, Quito, Chicago, Dakar, Sydney, Lisboa; na abertura, uma performance de Rossi de Palma e Blanca Li; e, por fim, após as intervenções dos líderes da RATP e JC Decaux, a cereja no topo do bolo: uma palestra da Dra. Vandana Shiva, que eu vi, estupefacta, a fazer o seu belo discurso diante dos logotipos dos patrocinadores do evento, L’Oréal, EDF e Suez!

Em 2015, foi criado em Paris um coletivo ecofeminista chamado “Feministas pela justiça climática”: desse nome até chegar a “Women4Climate”, ocorreu uma interessante mudança semântica. “Mulheres” e não “feministas”; “O clima” e não “justiça climática”. Esquecidas as lutas, as reivindicações, as exigências políticas. O diabo está nos detalhes. E se prestarmos atenção a estes detalhes, percebemos que poderia muito bem estar a acontecer exatamente o tipo de embuste que Mies e Shiva já haviam denunciado: por trás do que um olhar pouco vigilante poderia interpretar como sendo ecofeminismo – esta promoção das “heroínas do clima” da classe alta, reunidas em salões chiques e calorosamente felicitadas pela sua brilhante jornada digna de as tornar iguais às elites do mundo – não preferiríamos falar de uma combinação inteligente de greenwashing e pseudofeminismo elitista? Em 1993, Mies e Shiva alertaram contra esta deriva:

“«Alcançar» os homens na sua sociedade, o que muitas mulheres ainda veem como o principal objetivo do movimento das mulheres, em particular aquelas que preconizam uma política de igualização, implica a reivindicação por uma parcela maior ou igual do que, no paradigma existente, os homens extraem da natureza [17]. "

Portanto, contra qualquer entorpecimento da consciência, evitemos as confusões. Não, não basta colar as palavras “mulheres” e “natureza”, ou “género”, “clima” e “ambiente” para estarmos a falar do ecofeminismo – a história do movimento como eu o tracei ajudará, espero, a definir os limites. Quando, em agosto de 2018, a revista Elle perguntou a Émilie Hache “um ponto de vista ecofeminista acerca da demissão de Nicolas Hulot... mas sem política, hein [18]!”, estamos em pleno contrassenso. Um contrassenso contra o qual a redescoberta do ecofeminismo, em todas as suas variantes, na sua riqueza e complexidade, deverá servir como alerta.

Finalmente, se a ideia de que “todas as opressões estão conectadas” não me convenceu a nível intelectual, ela tem, ainda assim, um certo mérito, absolutamente precioso no momento em que a ecologia e o feminismo ocupem o centro do palco: evitamos escorregar nas encostas escorregadias que constituem uma ecologia separada do feminismo, e o feminismo separado da ecologia.

 

Jeanne Burgart Goutal é professora de Filosofia e autora, para além de Etre écoféministe: Théories et pratiques, de Féminismes du XXIe siècle (PUR, 2017) e Dictionnaire des féministes (PUF, 2017).

Extrato de um livro de Jeanne Burgart-Goutal publicado na revista Contretemps.

Notas

[1] Maria Mies, « La libération des femmes », art. cit.

[2] Françoise d’Eaubonne, Le Féminisme ou la mort, op. cit., p. 251.

[3] D'Eaubonne afirmou que “a existência de uma cultura ocidental de clã antes da fundação do patriarcado, e que não era necessariamente matriarcado. As mulheres não estavam no topo, mas no centro. Não existiu um tipo de patriarcado reverso em que as mulheres exerciam um papel de poder... Não, isso nunca existiu.” (Palavras citadas em: joellepalmieri.wordpress.com/2012/12/21/francoise-deaubonne-la-rebelle/.) Starhawk fala de uma sociedade de “matriz” ou “orientação materna”, e Mies de “unidades matrísticas” ou “matricentradas”.

[4] Starhawk, Femmes, magie et politique, op. cit., p. 28. O poder de dentro é aquele “poder que adivinhamos numa semente, no crescimento de uma criança, que experimentamos ao escrever, tecer, trabalhar, criar, escolher” (ibid.).

[5] Janet Biehl, op. cit., p. 55.

[6] Janet Biehl, « Écologie et féminisme », art. cit.

[7] Starhawk, Femmes, magie et politique, op. cit., p. 40.

[8] Kassia Aleksic, art. cit., p. 57.

[9] Luc Boltanski et Ève Chiapello, Le Nouvel Esprit du capitalisme, Paris, Gallimard, 1999.

[10] URL: www.ledevoir.com/opinion/libre-opinion/469761/ce-sont-les-femmes-qui-vo…

[11] Ver Margaux Lacroux, « Qui sont les jeunes organisatrices de la grève mondiale pour le climat ? », Libération, 31 janeiro 2019 ; e « Les femmes ont toujours été plus nombreuses que les hommes à se battre pour le climat », Libération, 12 março 2019.

[12] Jean Shinoda Bolen, Les Femmes, avenir de la Terre : rassembler les femmes et sauver la planète, Genève, Jouvence, 2007.

[13] Rosemary Radford Ruether, New Woman, New Earth, op. cit., p. 203.

[14] Rosemary Radford Ruether, Gaia and God, op. cit., p. 266.

[15] Daniel Tanuro, « La plongée des “collapsologues” dans la régression archaïque » [www.contretemps.eu/critique-collapsologie-regression-archaique/]. Alusão a Pablo Servigne, Raphaël Stevens et Gauthier Chapelle, Une autre fin du monde est possible, Paris, Seuil, 2018.

[16] Jean-Sébastien Stehli, « Women4CLimate : l’élan des femmes pour le climat continue ! », Le Figaro, 27 fevereiro 2019.

[17] Maria Mies et Vandana Shiva, Écofeminisme, op. cit., p. 20.

[18] Comunicação pessoal em agosto de 2018 durante o Congresso Internacional de Pesquisa Feminista na Francofonia.