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“Só somos possíveis como sociedade se formos parte da comunidade, da vida, da terra”

A ecofeminista boliviana Elizabeth Peredo fala das lutas sociais e da importância de "disputar ao capitalismo o seu discurso abrangente, mercantilizado e extrativista da alegria". Entrevista de Paula Sequeiros para a revista Esquerda.
Elizabeth Peredo
Imagem de Tiago Tavares.

Feminista, organizadora e ativista de lutas contra diferentes formas de opressão, nascida na Bolívia, Elizabeth Peredo tem-se destacado pela visão internacional das causas e pela oposição ao domínio das corporações transnacionais na economia, no trabalho, nas vidas quotidianas. Entrevistámos uma mulher com um percurso de luta e pensamento, marcos nos caminhos partilhados de um ecofeminismo pulsante e atual. Com respostas plenas de urgência e solidariedade, as suas ideias e práticas configuram-se como um apelo à ação em territórios próprios, com alcance global.

 

«Habitar a fronteira e recriar e defender a vida é diferente de olhar para o abismo e deixar-se seduzir. E o tempo aperta”. Faz falta “diferenciar entre democracia patriarcal e democracia pela vida, entre transição eficientista e transição ecossocial… entre um mundo dado e um mundo desejado»[1]

 

Vendo o teu percurso como feminista, ressalta a dedicação, entre 1999 e 2003, à valorização e regulamentação laboral das empregadas do lar na Bolívia, grupo pouco numeroso e socialmente invisível. Considera-la, ainda hoje, uma luta estratégica?

Esta experiência ensinou-me que não só o que conhecemos na economia feminista, como a importância de olhar o que é invisível, de considerar o tempo e as vidas das mulheres quando pensamos na sociedade e nos seus desafios. O meu trabalho pelos direitos das trabalhadoras do lar e pelos seus ideais de justiça, reconhecimento, liberdade e por plenos direitos ocupa um lugar muito importante nas minhas utopias atuais, central e estratégico. Esta luta invisível, subalterna, dentro das casas, contra uma cultura da vida quotidiana e um sistema de valores de opressão ferreamente articulado no quadro da reprodução da vida era e continua a ser um lugar de centralidade da opressão capitalista que hoje apenas se consegue reproduzir em aliança com o colonialismo e o patriarcado.

As lutas e as resistências das trabalhadoras do lar que se dão na Bolívia, Peru, EUA ou Europa dão conta de um nó crítico nas cadeias de opressão que predominam na sociedade e nas suas relações de hierárquicas de género, classe e etnia.

É preciso trabalhar a economia do cuidado também a partir da interseccionalidade e da precariedade, traço dominante no âmbito dos “cuidados” no nosso tempo. À luz desta experiência de investigação, de recuperação da memória e da luta sindical, a perspetiva de classe e anticolonial proporciona muitas luzes para refletir sobre os caminhos que percorremos no ecofeminismo.

No tempo em que as trabalhadoras, chamadas “domésticas” na Bolívia de então, se começaram a organizar – entre as décadas de 1980 e 1990, durante a recuperação da democracia depois de longos anos de ditaduras –, os direitos das empregadas do lar não eram relevantes para o feminismo. Creio que foi assim em vários países. O processo de organização, tomada de consciência e as ações destas mulheres corriam paralelas ao movimento feminista sem se tocarem, apenas se interpelavam. No caso boliviano, por exemplo, algumas parlamentares entradas no Congresso através da Lei das Quotas – conseguida pelo movimento de mulheres – foram precisamente quem cortou caminho às propostas dos Sindicatos de Trabalhadoras do Lar recém formados. Só umas poucas tiveram abertura à proposta e a apoiaram.

Nesse tempo, com o objetivo de contribuir para as suas lutas, produzi alguns textos sobre o trabalho do lar: “A equidade começa em casa” é um texto que recolhe as contribuições da sociologia feminista sobre o “trabalho reprodutivo” e que esclarecia o conceito dos “cuidados” contribuindo para uma compreensão mais integral e sistémica deste “nó crítico”, ligando-o à economia e à ecologia e enfatizando o conceito de sustentabilidade das sociedades. Embora esta evolução concetual seja muito importante, creio que é fundamental não esquecer as lutas das trabalhadoras assalariadas do lar e dar contributos criando categorias e conceitos que possam apoiar as causas e visibilizá-las. Por isto, é preciso trabalhar a economia do cuidado também a partir da interseccionalidade e da precariedade, traço dominante no âmbito dos “cuidados” no nosso tempo. À luz desta experiência de investigação, de recuperação da memória e da luta sindical, a perspetiva de classe e anticolonial proporciona muitas luzes para refletir sobre os caminhos que percorremos no ecofeminismo.

Assumiste que a água era bem fundamental a defender da pulsão privatizadora de uma transnacional. Após a “guerra da água” afirmaste que se tratava de um “motor de mudança” e importante propulsor da luta antiglobalização. Sabemos que persistem estas ameaças no mundo…

As lutas de resistência na América Latina contra as privatizações da água, enquanto bem comum e direito humano, proporcionaram grandes avanços e inspiração para os movimentos no mundo e tiveram um importante impacto nos sistemas de diretos económicos e sociais, em particular no sistema multilateral das Nações Unidas. Colocaram a água como eixo para avançar com propostas alter-mundialistas e anti-privatizadoras de todas as regiões. Avançamos muito num sentido: o Uruguai, por exemplo, foi pioneiro ao incluir na sua constituição a água como direito humano em 2004, seguindo-se-lhe a Bolívia e o Equador para que finalmente o princípio fosse aprovado na Assembleia da ONU com a Resolução 64/292. Esta declarou a água e o saneamento como direito humano em julho de 2010. Foi uma conquista excecional, mas ao mesmo tempo um grande desafio para os povos do mundo, dado que teve de enfrentar as corporações e políticas reais dos estados extrativistas.

Temos, portanto, as capacidades das lutas sociais para instalar uma visão e narrativa nos sistemas públicos e no sistema multilateral, e inclusive para encostar a um canto e limitar o poder das transnacionais. Mas também há que saber que o ataque à água e aos direitos à água persiste: em primeiro lugar as corporações conhecem o seu valor e precisam de a converter em mercadoria para controlar e continuar a especular. É preciso considerar que nem sempre se manteve uma vigilância social que assegurasse a permanência e aprofundamento dos direitos conquistados. E ainda que, desde há décadas, assistimos a uma intensificação do extrativismo, o neoextrativismo impulsionado não só por corporações como por estados para redistribuir recursos e gerar base social. Isto teve um impacto dramático na água, nas suas disponibilidade, qualidade e capacidade de articular com as comunidades e ainda nos impactos na gestão da água como bem comum.

Não podemos deixar de lado as alterações climáticas, que numa lógica de despejo de detritos e contaminação sem limite, estão a afetar a pureza e disponibilidade da água em todo o mundo. A água é elemento central na natureza para a reprodução da vida e para restaurar os ecossistemas e o clima, tendo por isso uma capacidade enorme para contribuir para propostas face às alterações do clima.

Vivemos na Era da Obscenidade. Para onde quer que olhes: despejo ambiental, precariedade da vida, precariedade crescente das pessoas mais vulneráveis, violências, femicídios, a “mafialização” dos próprios poderes estatais parecem devorar aqueles valores e utopias que se foram construindo durante o século passado com o calor das lutas sociais. As injustiças e opressões, que há umas décadas chamavam a atenção pela brutalidade e inconsciência humana, converteram-se em fenómenos mais globais e de alta intensidade.

Em Portugal as concessões para exploração de petróleo foram paradas, em grande parte, por pressão dos movimentos sociais. Questionamo-nos se as grandes corporações e os governos estarão a fazer um jogo, temporário, com essa intenção. Mas estão anunciadas explorações de gás em regiões do centro litoral, Leiria e Batalha, para data próxima. Queres comentar essa “insaciedade” em hidrocarbonetos no momento atual e naquela localização?

Esta parece-me uma pergunta muito importante, porque um dos pilares da argumentação ecologista é o “pico dos combustíveis fósseis”, às vezes visto como suficiente para iniciar a transição energética. Contudo, estamos a ver, cada vez mais, uma exacerbação do que chamas “insaciedade” em hidrocarbonetos. A partir das nossas lutas na América Latina em torno das energias, nós denunciámos as “energias extremas” como formas que o capitalismo do despejo está a adotar de forma cada vez mais impune. Ao mesmo tempo vemos que as tecnologias da transição não são tão “limpas” como as anunciaram, como se fossem panaceia para sair do labirinto climático. Então torna-se muito importante, para resistir a tempo a estes projetos de intensificação da matriz de energias fósseis e às dependências da energia “fossilizada”, trabalhar também a partir de uma perspetiva transformadora, cultural, de mudança social e de ritmo das sociedades que se tornaram, tal como os capitalistas, insaciáveis em energia, velocidade, com adição e confiança cega nas tecnologias. O desafio que temos é epistemológico.

Que esperança tens de superar o ataque à vida, nas suas várias formas, traçado por poderes económicos e políticos extrativistas? Usando a tua expressão, como poderemos, mulheres, povos, “entrançar” as nossas lutas e os nossos desejos de um mundo habitável e justo?

Vivemos na Era da Obscenidade. Para onde quer que olhes: despejo ambiental, precariedade da vida, precariedade crescente das pessoas mais vulneráveis, violências, femicídios, a “mafialização” dos próprios poderes estatais parecem devorar aqueles valores e utopias que se foram construindo durante o século passado com o calor das lutas sociais. As injustiças e opressões, que há umas décadas chamavam a atenção pela brutalidade e inconsciência humana, converteram-se em fenómenos mais globais e de alta intensidade. São sintomas do que muitos chamam o Antropoceno, categoria crítica que surgiu no âmbito das ciências naturais e hoje se instalou nas análises e debates de diferentes campos, incluindo o nosso das lutas e utopias sociais. Esta situação, que denomino “mundo fronteira”, colocou-nos num limite, numa pequena franja, enquanto espécie humana e espécies não humanas e naturais, espaço-tempo disruptivo que metaforicamente as e os migrantes do mundo inteiro refletem, obrigados a deixar os seus territórios por falta de condições sociais e ambientais e levados a uma precariedade insustentável.

Mas, ao mesmo tempo, é igualmente impressionante a capacidade da gente e dos povos tanto para fazer comunidade, reestabelecer os laços solidários, como para tecer conjuntamente utopias e que dá esperança em que é possível um mundo melhor, de que somos capazes de ressignificar o bem-estar disputando ao capitalismo o seu discurso abrangente, mercantilizado e extrativista da alegria.

Fazemo-lo todos os dias quando as pessoas se organizam para enfrentar uma injustiça, para acolher migrantes e reclamar aos governos que deixem de lado a hipocrisia e cumpram o mandato de proteger a vida à escala humana e ambiental, face ao crime e ecocídio das alterações climáticas.

Estes dois polos, contudo, estão separados por uma ténue linha, quase como aquela linha vermelha que as e os ativistas do clima traçaram em 2015 durante a COP21 em Paris, para sinalizar que não pode ser ultrapassada. É uma linha que tem que ver com o equilíbrio que podemos alcançar com a rebeldia cidadã em tempos de disrupção sistémica, que se impõe material e subjetivamente à humanidade. E para isso quero citar a jovem escritora búlgara María Popova, que ao falar das «histórias que nos contamos» diz que «o pensamento crítico sem esperança é cinismo, mas a esperança sem pensamento crítico é ingenuidade». Estamos num dilema que se converte numa linha de ordem ética: resistir e sobretudo cultivar a esperança neste tempo de ataque sistemático às utopias e de pressão permanente para reforçar o medo ou o cinismo, a dissonância cognitiva. E a esperança é sobretudo possível de uma perspetiva relacional, a partir da experiência da alteridade e da empatia. E ainda, da consciência de que só somos possíveis como sociedade se formos parte da comunidade, da vida, da terra. Entrançar com rebelião e ternura a rede da vida na terra, alimentando alianças solidárias entre as pessoas, com as espécies não humanas e com a natureza.


Entrevista de Paula Sequeiros, publicada na revista Esquerda.


Nota:

[1] Peredo Beltrán, Elizabeth. 2019. “Antropoceno y biopolítica: narrativas, resistencias y nuevas epistemologías ante el avance de la frontera extractivista en la Bolivia del siglo XXI.” Utopía y Praxis Latinoamericana, 24(84) p. 56-67.

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