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Quando a petrolífera dá aulas, o pobre desconfia

A Repsol, através da sua Fundação, pôs na estrada um espetáculo sobre rodas que corre por escolas portuguesas a espalhar a “boa nova” das vantagens da indústria petrolífera. Em notícia de 7 de abril, diz que encerrará a 27 deste mês uma campanha com a duração total de três meses. Por Paula Sequeiros.

No Site da empresa consegue ver-se o interior duma carrinha usada na campanha, com o imaginável aparato futurístico e o obsessivo uso das cores empresariais. A aula dura os 50 minutos dos programas letivos e destina-se a promover “o desenvolvimento educativo, ambiental e cultural da sociedade e fomentar nos estudantes o interesse pela ciência e o respeito pelo meio ambiente”. As famílias também podem visitar a exposição interativa por marcação. Onde? Dentro das escolas: em “Faro, o autocarro da Fundação esteve/vai estar no estacionamento no interior do Agrupamento de Escolas João de Deus” de 11 a 15 de abril. A Repsol diz ainda que quer passar por Évora e Castelo Branco (calendário aqui). Lê-se e hesita-se: isto é normal? Por certo será surpresa para a maioria de nós.

Através de entrevista ao Sexta às 9 da RTP do passado dia 8, Sousa Cintra, da concorrente Portfuel, declarou que há território português por explorar e cujas riquezas se desconhecem. As prospeções, na realidade, podem dar-lhe prejuízo, mas os furos que a empresa está a fazer vão dar um grande contributo à ciência. Como? Com os estudos... encomendados pela empresa. Recomendo que vejam essa entrevista esclarecedora sobre o negócio dos combustíveis, o modo como pretende explorar o subsolo e o segredo e truques de ilusão de um processo que parece pairar acima da lei e ao lado do olhar público.

Se uma fura por uma lado, outra fura por outro: a Repsol quer ensinar, furando através das escolas públicas, onde diz ter conseguido chegar a cerca de 4000 pessoas. Ou seja, a Repsol inova o sistema de ensino: faz prospeção nos cérebros dentro e a partir das escolas. O que terá o Ministério da Educação a dizer sobre isto?

Entretanto, e sem aprofundar, encontra-se rapidamente uma resposta sobre o que a Repsol sabe: em 2015, no Estado Espanhol, foi condenada a pagar 22,6 milhões de Euros de multa por ter quebrado a lei da concorrência, a par de outras empresas petrolíferas, ao fixar coordenadamente o preço dos combustíveis nos retalhistas das gasolineiras, segundo a Reuters.

A Repsol declara as melhores intenções com a campanha, como se lê na propaganda da página referida. Recorrendo à linguagem do capitalismo esverdeado afirma que pretende “esclarecer alguns mitos e curiosidades sobre o petróleo e incentivar hábitos responsáveis na utilização energética”. Quem melhor que uma petrolífera para explicar “ao povo e às crianças” quanto ganham em gostar dela?

O desvelo vai mais longe: na Aula Móvel dentro da carrinha “vão mostrar a importância da energia na nossa vida”.

Em Portugal as crianças e as famílias sabem como é custoso, para a grande maioria delas, manter as casas aquecidas durante o frio, iluminar quando necessário ou recorrer a equipamentos elétricos. Simplificando: viveriam melhor, não só dentro das escolas, se as grandes multinacionais pagassem os devidos impostos – aplicados no sistema público de ensino – sem favores ou condescendências, cumprindo apenas com a equidade fiscal e praticando o compromisso social.

A história não parece clara, bem escura parece a ligação do ensino público às pretrolíferas. Desconheço os detalhes da articulação prática entre escolas e Repsol, mas o certo é que aquela “matéria” está fora dos currículos conhecidos do público. O que se adiciona ao negrume e ao silêncio que tem rodeado o negócio das concessões de exploração na costa portuguesa, apesar do esforço informativo da imprensa independente e dos meios cidadãos, nomeadamente por parte da PALP, Plataforma Algarve Livre de Petróleo e da ASMAA, Algarve Surf & Marine Activities Association.

Artigo de Paula Sequeiros para esquerda.net

Sobre o/a autor(a)

Investigadora em sociologia da cultura
Termos relacionados Petróleo em Portugal, Ambiente
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