"Os nossos associados foram muitíssimo afetados desde o primeiro confinamento. Desde março [de 2020] até à data - e ainda não temos dados de dezembro - acredito que possamos estar muito perto dos 110 mil postos de trabalho perdidos. Até novembro eram 103 mil", afirmou o presidente da Associação Portuguesa das Empresas do Sector Privado de Emprego e de Recursos Humanos (APESPE-RH) em declarações à agência Lusa.
Afonso Carvalho assinalou que, desde o último trimestre de 2018, os setores de atividade representados pela APESPE-RH apresentam "uma trajetória descendente" que, contudo, "se agravou muito a partir de março". E reconheceu que os trabalhadores com vínculo de trabalho temporário "foram os primeiros a ser dispensados" quando a crise se agudizou, acabando por ser "muitíssimo penalizados" com a situação.
O representante da associação patronal referiu que contextos de crise como o atual "dão azo a criatividade excessiva, para não utilizar outros termos". Neste contexto, impõe-se a implementação de "todas as medidas para proteger os trabalhadores". “É nestas alturas que há quem goste de se aproveitar das oportunidades", advertiu.
"Nós temos um código de conduta que obrigamos as empresas a assinar quando se juntam a nós e posso dizer que já tivemos casos de empresas que não se quiseram associar para não o assinarem. Acho que isto é claro sobre o 'estado da nação'", assinalou.
No setor do trabalho temporário existem 230 empresas regularizadas. Entre as 35 empresas associadas da APESPE encontra-se, nomeadamente, a Manpower, Multitempo, Multipessoal, Randstad e RHmais.
"É o momento de insistir no que temos proposto"
Em declarações ao Esquerda.net, José Soeiro sublinhou que, “quando é a própria associação patronal do sector a chamar atenção para a permissividade da lei e para a tolerância da regulação que existe relativamente aos abusos, percebemos que o problema é grave”.
“Que o Governo tenha resistido até agora a mexer no enquadramento do trabalho temporário também é significativo do grau e do poder de influência que tem, dentro do PS, o negócio da colocação de mão-de-obra e do aluguer de trabalhadores”, afirmou o deputado bloquista.
“Por isso este é também o momento de insistir no que temos proposto: limitar fortemente os fundamentos do recurso ao trabalho temporário e a sua duração, além de combater o falso trabalho temporário, que abunda, acabando com a maior parte deste negócio de intermediação”, acrescentou.
De acordo com José Soeiro, “se as empresas de trabalho temporário se extinguissem, e se a colocação passasse a ser um monopólio do serviço público de emprego, que tem vindo a ser esvaziado de capacidade, só tínhamos a ganhar”.