You are here

O mate e o brilhante

Tal como os comboios dos anos da ditadura onde existiam 3 classes para viajar, a inauguração do MAAT estabeleceu 3 inaugurações distintas. Tal como se dizia nos anos cinzentos: “cada peixe no seu cardume”. Texto de Rui Pinto, arquiteto
Abertura ao público do MAAT - Museu de Arte, Arquitetura, e Tecnologia – Foto de Manuel de Almeida/Lusa
Abertura ao público do MAAT - Museu de Arte, Arquitetura, e Tecnologia – Foto de Manuel de Almeida/Lusa

Num domingo solarengo de outubro, trabalhadores quase todos negros, agacham-se para calcetar as últimas porções de passeio em falta na Avª da Índia. No lado oposto, sobre o rio Tejo, aproximam-se os convidados VIP para uma inauguração em regime private party que marca o quase fim das obras do novo Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia de Lisboa, adiante designado por MAAT. Ao longe, sobre a cobertura ondulante, vislumbram-se silhuetas de fato escuro, acionistas, mulheres de saltos caros, gente da comunicação e amigos excêntricos ligados ao comércio da arte contemporânea. Lá em baixo, dezenas de BMW’s polidos - marca que pagou parte da coisa, por eles designado de “parceiro” - enquadram jovens vestidos de preto, sorridentes ao receber os convidados.

Sobre o ar de Lisboa, easyjets chegam com mais turistas.

Passados 2 dias inaugurou-se o MAAT outra vez. Desta vez convidaram profissionais com ligações à Fundação EDP, “colaboradores”, familiares e os representantes da República que procedem à inauguração oficial. Curiosamente, Marcelo Rebelo de Sousa, no momento de descerrar a lápide inaugural, tem a palavra “distopia” sobre a sua cabeça, impressa numa parede expositiva envolvente. No interior minimal do edifício, fatos escuros apertados contra camisas brancas revelam paredes abdominais perfeitas. Curadoras e curadores sorriem nos diretos televisivos, enquanto os diretos televisivos anunciam o sucesso dos presentes e desta nova obra que nos seus interstícios celebra o dinheiro ao serviço da arte e da cultura. De fato escuro, omnipresente, há muito consagrado com um salário diário de 6800 euros, o doutor António Mexia deambula pelos espaços.

Cá fora, já noite, o silêncio da água do Tejo reflete o sunido do rádio de um dos seguranças.

Dia 5 de Outubro, a plena implantação do MAAT dentro da implantação da República, e lá se abriram as portas ao povo, duplamente inebriado, quer pelo feriado agora devolvido, quer pela reportagem televisiva da noite anterior que anunciou o convite para vir ao novo MAAT à borliú.

Se no primeiro dia tivemos carapau graúdo e no segundo sardinha gorda, no terceiro foi a vez de oferecer a onda a toda a patruça miúda. Dia da República, o sol a brilhar para todos, milhares de pessoas alinham-se a caminho do MAAT e da sua arquitetura tão espetacular que se gosta logo à primeira; como aqueles discos que só se ouvem uma vez. Na longa e demorada fila, um visitante impaciente lembra que a fatura da energia eléctrica em Portugal é a mais taxada e a mais cara da União Europeia. Também na fila, uma senhora gorda grita - nós é que pagamos isto tudo!

Tal como os comboios dos anos da ditadura onde existiam 3 classes para viajar, a inauguração do MAAT estabeleceu 3 inaugurações distintas. Tal como se dizia nos anos cinzentos: “cada peixe no seu cardume”. E à terceira lá foram os cidadãos, em festa diferenciada e tratados como massa consumista, sujeitos a esta ditadura light que lá vai impondo os seus dogmas igualmente tripartidos: imagem, sucesso e espetáculo. Valores assentes no novo Deus que é o dinheiro e a supremacia dos capitais acima dos valores humanos. Restará saber se este universo estará mais próximo do sagrado ou do profano. Se a luz é da ordem do divino, todo o resto será da ordem da Vaidade. E que ninguém se atreva a não entrar nesta onda sob pena de no céu ter um saldo negativo.

Cá fora, uma brisa atlântica refresca um fim de tarde brilhante. É tempo dos consumidores voltarem para casa…

Texto de Rui Pinto, arquiteto

Termos relacionados Comunidade
Comentários (2)