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Galiza e Euskadi: Esquerdas nacionalistas a subir, Unidas Podemos em forte queda

Numas eleições que mantiveram os governos regionais hoje em funções, a principal mudança foi o crescimento do Bloco Nacionalista Galego e do EH Bildu e a queda da Unidas Podemos, que perde representação no parlamento galego. Por Jorge Martins.
Ana Pontón
Ana Pontón, líder do Bloco Nacionalista Galego. O BNG ultrapassou os socialistas e alcança o melhor resultado eleitoral deste século na Galiza. Foto BNG/Twitter

As eleições regionais ontem realizadas na Galiza e no País Basco não trouxeram grandes alterações à governação dessas duas Comunidades Autónomas do país vizinho.

Assim, na Galiza, o Partido Popular (PP), da direita conservadora, manteve a maioria absoluta que detém desde 2009, pelo que Alberto Núñez Feijóo irá para o seu quarto mandato consecutivo como presidente da Xunta.

Em Euskadi, o nacionalista moderado Partido Nacionalista Vasco (EAJ/PNV), de tendência democrata-cristã, do “lehendakari” (presidente do governo basco) Iñigo Urkullu, venceu as eleições e reforçou a sua posição. Aquele vai para o seu terceiro mandato consecutivo, devendo renovar a coligação com o ramo basco dos socialistas, que também melhoraram a sua percentagem de votos.

Ambas os sufrágios estavam marcados para 5 de abril, mas foram adiados devido à pandemia.

Galiza: PP mantem, BNG trepa, PSdeG sobe e En Marea afunda-se

Na Galiza, o Parlamento regional é constituído por 75 membros, eleitos por sufrágio universal, direto e secreto, através de um sistema de representação proporcional.

O seu território é dividido em quatro circunscrições eleitorais, correspondentes às quatro províncias em que se divide a Comunidade Autónoma: Corunha (25 lugares), Pontevedra (22), Lugo (14) e Ourense (14). Os mandatos são distribuídos, em cada uma, através do método de Hondt. Existe uma cláusula-barreira de 5% a nível provincial.

O Partido Popular (PP) obteve 48,0% dos votos e conseguiu 41 mandatos, exatamente o mesmo número de 2016, quando registou 47,5% dos sufrágios.

Os “populares” aumentaram a sua votação na Corunha (de 47,8% para 49,2%) e em Lugo (de 52,8% para 54,7%), elegendo mais um deputado em cada uma delas. Em contrapartida, mantiveram a sua percentagem em Ourense (53,1%) e desceram em Pontevedra (de 43,2% para 42,4%), mas perderam um lugar em ambas.

Em segundo lugar, ficou o Bloco Nacionalista Galego (BNG), liderado por Ana Pontón. Os “bloquistas” foram os grandes vencedores do ato eleitoral, obtendo 23,8% e conquistando 19 lugares. Uma subida extraordinária se tivermos em conta que, há quatro anos, se quedara pelos 8,4% e apenas seis parlamentares.

Esse grande crescimento dos nacionalistas ocorreu em todas as províncias. Os seus melhores resultados registaram-se, como habitualmente, nas duas províncias do litoral ocidental, mas o seu desempenho foi igualmente bom no interior, em geral mais conservador. Eis a evolução da sua votação em cada circunscrição, comparando-a com a de 2016: Corunha (de 8,8% para 24,9%), Pontevedra (de 9,0% para 24,7%), Lugo (de 7,4% para 21,5%) e Ourense (de 6,0% para 20,0%).

Na terceira posição, ficou o Partido Socialista da Galiza (PSdeG), o ramo regional do PSOE, que se apresentou liderado por Gonzalo Caballero. Os socialistas melhoraram a sua votação, que se cifrou em 19,4% e lhes permitiu eleger 15 deputados. Uma subida face às últimas eleições regionais, em que se ficara por 17,9% e 14 eleitos.

Contudo, o se desempenho foi muito desigual. Assim, registaram uma forte subida em Pontevedra (de 18,4% para 23,1%), que lhes valeu a conquista de mais dois mandatos e melhoraram, igualmente, em Ourense (de 17,6% para 19,7%), onde ganharam um eleito. Contudo, desceram em Lugo (de 19,0% para 17,4%) e ligeiramente na Corunha (de 17,2% para 16,7%), tendo perdido um lugar em ambas.

Nenhuma das outras forças concorrentes obteve representação parlamentar.

A grande derrotada foi a coligação entre a Unidas Podemos (UP) e a ANOVA (esquerda radical nacionalista), que se quedou nuns modestos 3,9% e ficou fora do Parlamento. O seu desempenho menos mau ocorreu no litoral ocidental, mas as suas percentagens em Pontevedra (4,6%) e na Corunha (4,4%) ficaram abaixo da cláusula-barreira.
Em 2015, aquelas forças políticas formaram, com um grupo de militantes da esquerda galega, o projeto En Marea, então uma das suas confluências do Podemos. Já com este último transformado em partido político, concorreu às eleições autonómicas de 2016, integrando na sua lista elementos da UP e da ANOVA. A sua participação nas eleições autonómicas foi um êxito: segundo lugar, com 19,1% dos votos e 14 eleitos.

Contudo, em 2018, divergências internas na En Marea, que culminaram na contestada eleição de um novo líder, com acusações de fraude eleitoral, levaram aquelas duas formações a retirar o apoio à En Marea. Esta concorreu a estas eleições aliada a duas outras pequenas formações nacionalistas (uma da esquerda, outra do centro), sob a designação de Maré Galeguista, mas a maré já tinha baixado imenso e os resultados foram residuais, não indo além de 0,2%.

Também os Cidadãos (C’s), do centro-direita, que nunca foram muito fortes em terras galegas, confirmaram a sua decadência, descendo dos 3,4% de há quatro anos para uns modestíssimos 0,8%.

Por seu turno, o Vox, da extrema-direita, que não tinha concorrido em 2016, obteve agora apenas 2,0%, confirmando a sua fraqueza nas nacionalidades periféricas do Estado espanhol.

A abstenção cifrou-se em 41,1%, superior à das últimas eleições, quando se ficou pelos 36,3%, algo que poderá dever-se à atual situação pandémica.

Euskadi: PNV e PSE sobem, EH Bildu trepa, UP e direita caem, Vox elege

Em Euskadi, o Parlamento regional é também constituído por 75 membros, eleitos por sufrágio universal, direto e secreto, através de um sistema de representação proporcional.

O seu território é dividido em três circunscrições eleitorais, correspondentes às três províncias em que se divide a Comunidade Autónoma. Contudo, apesar de a Bizkaia tem perto de 1,2 milhões de habitantes, a Gipúzkoa mais de 700 mil e Álava/Araba pouco mais de 300 mil, são atribuídos 25 mandatos a cada uma, o que fere, claramente, o princípio da proporcionalidade da representação. Existe uma cláusula-barreira de 3% dos votos válidos e brancos a nível provincial, mas que não tem aplicação prática, pois dificilmente uma lista que obtenha menos de 3,5% dos votos terá possibilidades de obter um mandato em círculos eleitorais com aquela magnitude.

O Partido Nacionalista Vasco (EAJ/PNV) obteve 39,1% dos votos e 31 lugares no Parlamento, uma melhoria face a 2016, quando conseguira 37,7% e 29 mandatos.

Os nacionalistas moderados aumentaram a sua votação nas três províncias, mas a sua subida mais notável ocorreu em Álava/Araba (de 28,2% para 32,2%), a mais espanholista, onde o “lehendakari” encabeçava a lista. O crescimento foi menor, embora razoável na Gipúzkoa (de 34,4% para 36,5%) e mais modesto na Bizkaia (de 42,1% para 42,6%), seu tradicional bastião. Nas duas primeiras, elegeu mais um deputado em cada uma.

Em segundo lugar, ficou a Unidade Basca (EH Bildu), a principal força política da esquerda radical nacionalista, defensora da independência da região, liderada por Maddalen Iriarte. Foi a grande triunfadora destas eleições, ao obter 27,8% e conquistando 22 lugares. Uma subida significativa, pois, há quatro anos, conseguira 21,2% e 17 parlamentares.

Esse grande crescimento dos nacionalistas radicais ocorreu em todas as províncias, com destaque para o seu bastião da Gipúzkoa (de 28,8% para 35,2%), onde ficou muito perto do PNV e ganhou um lugar. Notável, igualmente, a subida ocorrida em Álava/Araba (de 17,9% para 24,9%), até há uns anos território difícil para a esquerda “abertzale” (independentista), que lhe valeu a eleição de mais um elemento. E, na Bizkaia, onde sofre forte concorrência do nacionalismo moderado, melhorou significativamente a sua votação (de 17,5% para 23,9%), conquistando mais três deputados.

Na terceira posição, ficou o Partido Socialista de Euskadi-Esquerda Basca (PSE-EE), o ramo regional do PSOE, parceiro de coligação do PNV no governo basco. Liderado por Inoia Mendia. os socialistas melhoraram a sua votação, que se cifrou em 13,6% e lhes valeu eleger 10 deputados, quando, nas últimas eleições autonómicas, se ficaram por 11,9% e nove eleitos.

O partido cresceu em todas as províncias. Contudo, foi em Álava/Araba (de 13,0% para 15,6%) que a subida foi mais forte e onde foi buscar o deputado adicional. Nas outras duas, melhorou, igualmente, a sua percentagem de votos, mas sem conseguir obter mais mandatos: Bizkaia (de 11,7% para 13,6%) e Gipúzkoa (de 11,8% para 12,9%).

Também aqui a Unidas Podemos (EP), da esquerda, agora liderada por Miren Gorrotxategi, foi a grande derrotada, ao obter apenas 8,0% dos votos e seis mandatos quando, há quatro anos, sob a liderança de Pilar Zabala, conseguira de 14,8% e a eleição de 11 parlamentares.

A queda foi geral, mas foi um pouco mais atenuada na Bizkaia (de 14,5% para 8,6%), onde perdeu, no entanto, dois deputados. Por seu turno, foi mais dramática em Álava/Araba (de 16,2% para 8,1%) e na Gipúzkoa (de 14,2% para 7,1%), já que, em ambas, viu a sua percentagem de votos reduzir-se para metade. Na primeira, perdeu, igualmente, dois lugares e na segunda um.

Também a coligação entre o PP e os Cidadãos (C’s), representativa da direita espanholista, encabeçada pelo líder dos “populares” bascos, Carlos Iturgaiz, se revelou um fiasco. Se nunca foi forte em terras bascas, o campo direitista saiu mais enfraquecido deste ato eleitoral, não indo além de 6,8% dos sufrágios e cinco deputados. Há quatro anos, as duas formações concorreram isoladamente e, então, o PP obtivera 10,2% e nove eleitos, enquanto o C’s se quedou pelos 2,0% e não conseguiu representação no Parlamento.

A descida ocorreu nas três províncias, com destaque para Álava/Araba: em 2016, de 21,8% (18,6% para o PP e 3,2% para os C’s) para 11,5% e menos dois deputados, apesar de ser a província onde ainda possui algum apoio. Depois, a Bizkaia, de 11,6% (9,7% para os “populares” e 1,9% para os “cidadãos”) para 6,8% e a mais hostil Gipúzkoa, de 8,9% (7,2% para os primeiros e 1,7% para os segundos) para 4,7%. Em ambas, perdeu um lugar.

Por seu turno, o Vox, que nas últimas eleições autonómicas, obtivera 0,1%, tendo concorrido apenas em Álava/Araba, onde não foi além de 0,5%, conseguiu agora 2,0% dos votos e a eleição de um deputado.
Este foi eleito naquela província, onde obteve 3,8% dos sufrágios. Nas outras, ficou-se por 1,9% na Bizkaia e 1,3% na Gipúzkoa.

Apesar de o seu líder nacional, Santiago Abascal, ser natural da região, o partido da extrema-direita tem pouco apoio em Euskadi. Beneficiou, no entanto, do seu crescimento no resto de Espanha e também da fraca afluência às urnas.

Com efeito, a abstenção atingiu os 47,1%, quando, nas últimas eleições, se ficara pelos 37,7%. É claro que a pandemia ajuda a explicar esses números, embora o bom momento que a economia basca atravessava antes daquela (e que será responsável pelos bons resultados de EAJ/PNV e PSE-EE) possa também explicar o facto de as pessoas não quererem arriscar ir votar.

Conclusão

O facto mais importante destas duas eleições foi a transferência de votos ocorrida à esquerda, da Unidas Podemos (UP), que, recordo, engloba o Podemos (P) e a Esquerda Unida (IU), para as forças da esquerda independentista: o BNG na Galiza e o EU Bildu em Euskadi. Se este fenómeno pode dever-se à especificidade destas duas Comunidades Autónomas, onde o sentimento nacionalista e independentista é forte, há, no entanto, outro aspeto que não é despiciendo: o PSOE também beneficia, mesmo que apenas marginalmente, da transferência de votos vindos da UP.

Até que ponto esse facto pode afetar a coligação de esquerda no poder em Madrid é a questão que se coloca. Por um lado, neste momento, uma rutura seria quase suicida para o partido de Pablo Iglesias, embora o mal-estar no seio da UP possa crescer. Mas há também que atender à possibilidade de um “esticar de corda” das forças independentistas periféricas para manter o seu apoio ao executivo de Pedro Sánchez, o que poderia constituir uma dificuldade adicional para este. Que, apesar de tudo, deve ter saído aliviado destas eleições, já que não viu a direita crescer.

Entretanto, à direita, o PP não parece ter capitalizado algum descontentamento com o governo de Madrid, face à sua gestão da crise da CoViD. O que parece confirmar-se, no entanto, é a continuação do afundar dos C’s e da afirmação do Vox.

Porém, há que atender à especificidade destas duas Comunidades Autónomas (em especial, Euskadi), pelo que, na análise dos dados, há que ter alguma prudência, em especial com a sua extrapolação para o nível nacional.

Sobre o/a autor(a)

Professor. Mestre em Geografia Humana e pós-graduado em Ciência Política. Membro da coordenadora concelhia de Coimbra do Bloco de Esquerda
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