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Eleições em Espanha (2): os “Cambios” na geografia eleitoral

Analisadas as cinco principais forças políticas espanholas, vamos agora analisar o desempenho eleitoral das formações de menor dimensão. Por Jorge Martins
Eleições gerais em Espanha - 10 de novembro de 2019
Eleições gerais em Espanha - 10 de novembro de 2019

Mais País: Madrid…e pouco mais

O Mais País, formação da esquerda moderada, criada e liderada por Iñigo Errejón, fundador e ex-dirigente do Podemos, que entrou em colisão com Iglesias, não foi além de 2,4% dos votos e a conquista de três lugares no Congresso. Contudo, e relativamente à sua percentagem nacional de votos, há que ter em conta que apenas se apresentou nas circunscrições que elegessem sete ou mais deputados, não se candidatando nas de menor magnitude, de forma a evitar dividir ainda mais o voto da esquerda. Uma justificação lógica e politicamente correta, mas que esconde as dificuldades que a nova força política teve em preparar uma candidatura nacional em poucos meses.

Após ter patrocinado uma lista às municipais de maio na capital, intitulada Mais Madrid, encabeçada pela antiga “alcaldesa”, Manuela Carmena, Errejón acabou por sair do partido e criar esta nova formação. A causa próxima foi a recusa da UP em apoiar a investidura de Sánchez na base de um acordo de incidência parlamentar, após as eleições de abril, o que o levou a culpar Iglesias pela persistência do bloqueio.

Após o êxito relativo nas autárquicas de Madrid (ficou à frente da UP, mas perdeu a capital para a direita), Errejón pensou replicar o modelo para o resto do país, como prova a designação que deu ao seu novo partido. Para o efeito, procurou parceiros nacionais e regionais, neste último caso inspirado no modelo das confluências do Podemos. Conseguiu o apoio do Equo, um pequeno partido ecologista, em todo o país, mas, ao nível autonómico, apenas na Comunidade Valenciana e em Aragão conseguiu apoios significativos: na primeira, do Compromís, uma coligação de várias formações da esquerda valenciana; na segunda, da Chunta Aragonesista (CHA), partido da esquerda regionalista aragonesa.

Acontece que a conjuntura não favoreceu a nova formação. A sua ideia era tornar o bloqueio político o principal tema da campanha e apelar à unidade da esquerda, mostrando que, ao contrário da UP, estaria disposto a pactuar com Sánchez e o PSOE. Só que a irrupção na campanha da questão catalã, tema onde o Mais País se sente muito pouco à vontade, acabou por fazer passar aquele que era o seu grande objetivo para segundo plano. Por outro lado, com Iglesias a falar de problemas concretos das pessoas, a campanha de Errejón pareceu sempre virada mais para o jogo político que para as questões do dia a dia dos eleitores, em especial dos mais desfavorecidos. Se a isso somarmos as suas debilidades organizativas no terreno e a sua ausência dos debates, que não permitiram dar maior visibilidade à campanha, temos a explicação para o relativamente fraco resultado obtido, embora o acesso à representação parlamentar lhe tenha garantido, para já, a sobrevivência.

Composição do Congresso dos Deputados de Espanha, saído das eleições de 10 de novembro de 2019
Composição do Congresso dos Deputados de Espanha, saído das eleições de 10 de novembro de 2019

O seu melhor resultado ocorreu na Comunidade Valenciana, onde, beneficiando da estrutura do Compromís, atingiu os 6,9% e elegeu um deputado. Nas últimas eleições, aquela coligação obtivera 6,4% dos sufrágios na comunidade (0,7% a nível nacional) e eleito um representante. Seguiu-se Madrid, onde conseguiu 5,6% e os restantes dois mandatos, o que não surpreende, dada a base já existente das municipais. Ainda acima da média nacional, os 3,3% obtidos em Aragão, com o apoio da CHA, apesar de apenas ter concorrido na província de Saragoça. Nas restantes comunidades onde se apresentou, os resultados foram modestos, em especial em Euskadi (0,7%) e na Catalunha (1,1%), embora apenas tenha concorrido na Bizkaia, na primeira, e em Barcelona, na segunda.

Ao nível provincial, obteve o melhor resultado em Valência (8,8%), onde conseguiu um eleito, seguido da também valenciana Castellón, de Madrid, da aragonesa Saragoça e de Alicante, igualmente na Comunidade Valenciana. Já os mais fracos ocorreram em Santa Cruz de Tenerife, nas Canárias, na basca Bizkaia e em Barcelona (1,4% em todas).

As formações independentistas,
autonomistas e regionalistas

As forças independentistas, autonomistas e regionalistas saíram, em geral, fortalecidas deste ato eleitoral, algo que se deveu, em muito, à mobilização dos seus eleitores, muitos deles indignados com as condenações dos presos políticos catalães.

ERC: liderança do independentismo mantem-se, mas menos à vontade

A lista da Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), aliada aos Soberanistas, uma dissidência no Em Comum Podemos (ECP), a confluência regional da UP, voltou a ser a mais votada, tendo obtido 3,6% dos votos a nível nacional e 13 mandatos. Com Oriol Junqueras preso e condenado a 13 anos de prisão, devido à sua participação no processo independentista, a campanha foi liderada pelo deputado Gabriel Rufián. Apesar de se manter como a maior força do nacionalismo catalão, recuou face às eleições de abril, onde conquistara 3,9% dos sufrágios e 15 lugares.

Tal como na primavera, apresentou-se com uma plataforma eleitoral relativamente moderada, em que se dispôs a negociar um acordo com o governo de Madrid, em troca da libertação dos presos e do regresso dos exilados, no quadro de uma amnistia relativamente ao processo independentista. E mostrou-se disponível para, através da sua abstenção, apoiar a investidura de Pedro Sánchez como primeiro-ministro, caso este chegasse a acordo com a UP. Esta postura moderada, se deu uma imagem de sensatez e responsabilidade, que lhe permitiu ganhar votos em setores mais moderados do campo independentista, acabou por ser posta em causa pela condenação dos presos políticos.

O veredicto enfureceu os independentistas, levando os mais radicais a questionar a moderação da Esquerda Republicana. Daí a CUP, da ala mais radical da esquerda pró-independência, ter decidido concorrer, pela primeira vez, às eleições gerais espanholas, “roubando” votos à ERC. Esta perdeu, ainda, alguns para a lista do JxCAT, de Puigdemont, que adotou uma postura mais intransigente.

Assim, apenas conservou cerca de 78% dos seus eleitores de abril, aos quais juntou 1,5% da UP, 5% do JxCAT e, ainda, 0,5% do PSOE, 0,2% da abstenção e valores residuais para pequenos partidos e votos brancos. Entretanto, perdeu cerca de 12% para a CUP, 5% para o JxCAT, 3% para a UP, 1,5% para a abstenção e pequenas percentagens para outras opções de voto.

Na Catalunha, voltou a ser a força política mais votada, com 22,6% dos votos, ficando o PSOE pelos 20,5%. Venceu em Lleida (31,3%) e em Tarragona (25,6%), com vantagens claras sobre a lista dos JxCAT e o PSOE, respetivamente, enquanto em Girona a sua vitória sobre a primeira foi mais apertada (25,8% contra 24,8%). Só perdeu em Barcelona para os socialistas e, mesmo assim, tangencialmente (21,2% face aos 21,8% destes últimos).

Desceu em todas as províncias, mas a maior quebra ocorreu em Girona (-13,4%), onde, para além das perdas para a CUP, terá visto, igualmente, alguns votos “fugirem” para a lista de Puigdemont, daí natural. Seguiram-se Barcelona (-8,6%) e, depois, Lleida (-6,3%) e Tarragona (-5,9%).

JxCAT: em recuperação e, mais uma vez, contra as sondagens

O centro-direita nacionalista catalão voltou a apresentar-se debaixo da designação Juntos pela Catalunha (JxCat), que agrupa o Partido Democrata Europeu da Catalunha (PDeCAT) e a sua antecessora, entretanto reativada Convergência Democrática da Catalunha (CDC), bem como a Crida Nacional per la República (CNxR), fundada com o objetivo (falhado) de haver apenas uma lista independentista nas eleições de abril, e independentes. O seu mentor foi o ex-presidente da Generalitat, Carles Puigdemont, atualmente exilado em Bruxelas, na sequência do processo independentista. Dado não poder candidatar-se, a campanha foi liderada pela deputada Laura Borràs. Nestas eleições, melhorou a sua votação, obtendo 2,2% dos votos a nível nacional e oito mandatos, quando, em abril, se quedara por 1,9% e sete lugares.

Ao contrário da ERC, o JxCAT continuou a mostrar uma postura mais desafiadora face ao governo de Madrid, o que lhe terá permitido captar alguns eleitores mais radicais na questão da independência, mas ideologicamente mais ao centro. Após ter perdido a liderança do independentismo nas últimas eleições, parecia continuar em queda, por razões que referimos em artigos anteriores. Contudo, a sentença condenatória dos líderes independentistas contribuiu para a mobilização dos setores pró-independência, o que permitiu à lista, mais uma vez, “fintar” as sondagens e recuperar algum do eleitorado perdido em abril. Pode até afirmar-se que a sua estratégia de intransigência deu alguns frutos, tendo diminuído a sua distância face à ERC, embora esteja longe de voltar a tomar a dianteira do campo independentista.

Comparando com os resultados de então, os JxCAT terão segurado quase 90% dos eleitores de então e conquistado 5% à ERC, 0,3% à abstenção e valores residuais a outras opções de voto. Perdas com algum significado apenas na direção da ERC (5%), a que se juntam 2% para a CUP, 1,5% para a abstenção e cifras reduzidas para outras formações políticas e votos brancos.

Apesar da recuperação, continua a ser apenas a quarta força política mais votada na Catalunha, com 13,7% dos sufrágios, atrás de ERC, PSOE e ECP/UP. O seu melhor resultado ocorreu na província de Girona, de onde Puigdemont é natural, com 24,8%, logo seguido de Lleida (22,6%), onde possui, igualmente, forte implantação. Mais fracos foram os seus desempenhos em Tarragona (13,4%) e, principalmente, em Barcelona, onde não foi além de 11,7%. Algo que não surpreende, já que o centro-direita nacionalista goza de maior apoio nas áreas rurais da região.

As subidas ocorreram em toda a comunidade autónoma, sendo a mais acentuada em Barcelona (+15,8%). Os restantes acréscimos são um pouco mais baixos: Girona (+10,2%), Lleida (+9,2%) e Tarragona (+8,9%).

CUP: uma estreia razoável

A Candidatura de Unidade Popular (CUP), formação da esquerda independentista radical, decidiu, pela primeira vez, concorrer às eleições gerais de Espanha, justificando a sua decisão com a situação de emergência que se vive na Catalunha, de perseguição e criminalização do independentismo, expresso na condenação dos líderes independentistas pelo Supremo Tribunal espanhol.

Com uma estratégia radical, que apostava na manutenção do bloqueio governativo no seio do Estado espanhol, expressa no lema da candidatura (“Ingovernáveis”), obteve 1,0% dos votos a nível nacional e elegeu dois deputados. Um resultado que, mesmo estando longe do seu máximo nas autonómicas, se pode considerar razoável.

Relativamente à proveniência dos seus votos, cerca de 80% vieram da Frente Republicana, lista constituída por três pequenas formações da esquerda independentista, que obteve, em abril, 0,4% dos votos no conjunto do território espanhol e 2,7% em terras catalãs. Essa transferência não se estranha, já que duas delas manifestaram o seu apoio à CUP neste ato eleitoral. Para além desses, foi buscar perto de 12% à ERC, 0,3% à abstenção e valores menores a outras opções de voto.

Na Catalunha, obteve 6,4% dos votos. Ao nível provincial, o seu melhor resultado ocorreu em Girona (8,9%), seguido de Lleida (6,8%), ou seja, as duas províncias onde o sentimento pró-independência é mais forte. Já em Barcelona (6,1%) e Tarragona (5,7%) os seus resultados foram um pouco mais fracos.

EAJ/PNV: moderação e pequeno reforço eleitoral

O Partido Nacionalista Basco (EAJ/PNV), de centro-direita, que detém a presidência do governo basco, voltou a ser o mais votado em Euskadi, tendo obtido 1,6% dos sufrágios a nível nacional e eleito seis deputados. Uma subida face a abril, quando conseguira 1,5% e os mesmos seis lugares. Os primeiros resultados conhecidos atribuíam-lhe um sétimo eleito, que seria o quarto na província da Bizkaia. Porém, uma dramática recontagem, a par com os votos do estrangeiros, acabou por levar à atribuição desse mandato ao PP, que, assim, volta a ter um representante eleito por Euskadi no Congresso.

Formação democrata-cristã, muito ligada à Igreja Católica basca, tem como objetivo final a independência do território, mas vai-se mantendo confortável dentro do modelo autonómico, embora a sua posição face à luta armada da ETA fosse de alguma ambiguidade: não concordava com os seus métodos, mas manteve sempre pontes com os setores mais radicais. Na crise catalã, assumiu uma posição discreta, não tendo aproveitado o processo independentista da Catalunha para subir o tom das reivindicações bascas, procurando, antes, servir de mediador entre Barcelona e Madrid.

Liderado por Aitor Esteban, apresentou-se, novamente, com uma plataforma moderada. Ao contrário da Catalunha, os privilégios forais permitem aos bascos cobrar os seus próprios impostos. Uma eventual suspensão da autonomia basca implicaria, igualmente, a suspensão daqueles, prejudicando fortemente a economia da região, que, ao contrário da maioria de Espanha, atravessa um bom momento. Algo que explica a sua progressão eleitoral, apesar de haver alguma insatisfação em setores mais nacionalistas, o que provocou alguma fuga de votos para o independentismo radical.

Apesar de tudo, o PNV conservou quase 90% dos seus votantes de abril, a que se somam 0,2% captados na abstenção e pequenas porções noutras opções de voto. Entre as perdas, apenas há a registar cerca de 6% para a EH Bildu, da esquerda independentista, pelas razões expressas acima. As restantes, para a abstenção, outras forças políticas e votos brancos, são pouco significativas.

Em Euskadi, voltou a ser, claramente, o mais votado, obtendo 32,1% dos sufrágios, muito acima do PSOE (19,2%) e da EH Bildu (18,7%). Venceu, novamente, nas três províncias da comunidade autónoma: na Bizkaia (35,2%), seu bastião tradicional, de forma clara face aos socialistas; na Gipuzkoa (30,6%), com uma vantagem menor sobre a EH Bildu, e em Araba/Álava (23,6%), onde triufou pela primeira vez em abril, com uma vitória mais apertada sobre o PSOE.

Quanto à evolução face ao último ato eleitoral, registou o mais forte crescimento na Gipuzkoa (+5,2%), seguido de Araba/Álava (+4,0%), tendo o menor ocorrido naquela onde tem maior implantação: a Bizkaia (+2,6%).

EH Bildu: esquerda “abertzale” volta a reforçar-se

A coligação EH Bildu (Unidade da Pátria Basca), que junta várias formações da esquerda “abertzale” (independentista), tem ainda mais motivos para celebrar, pois obteve 1,2% dos votos a nível nacional e elegeu cinco parlamentares, contra 1,0% e quatro lugares em abril. A candidatura foi liderada pelo deputado Oskar Matute, pois o seu líder histórico, Arnaldo Otegi, esteve preso e foi condenado com perda de direitos políticos até 2021, por, alegadamente, “fazer a apologia do terrorismo” e tentar reativar o proscrito Herri Batasuna, antecessor da Sortu, a principal formação da coligação.

Embora continue a defender a independência dos sete territórios bascos (as três províncias da comunidade autónoma, Navarra e os três do País Basco francês), que constituem a Euskal Herría (Pátria Basca), promete fazê-lo por meios pacíficos. Isso permitiu-lhe agregar outras forças de esquerda mais moderadas, como a Eusko Alkartasuna (EA), a Alternatiba, saída do ramo basco da IU, e a agora extinta Aralar, mais alguns independentes, alargando a sua base de apoio.

A sua subida, já notória na primavera, deve-se, por um lado, ao facto de ser, no Parlamento basco, a única verdadeira força de oposição ao governo autónomo e, por outro, por beneficiar do descontentamento de alguns setores independentistas com a moderação do PNV.

Tendo conservado 90% dos seus eleitores de abril, foi ainda buscar 6% ao PNV e 0,2% à abstenção, a par com pequenas percentagens a outras opções de voto. As perdas ocorreram em diferentes direções, mas são, em geral, muito residuais.

Em Euskadi, subiu para terceira força política, com 18,7% dos votos, muito próximo do PSOE (19,2%). Como é habitual, o seu melhor resultado eleitoral ocorreu na Gipuzkoa (25,9%), seguido, tal como no último ato eleitoral, por Araba/Álava (16,1%), a menos independentista das províncias, e só depois pela Bizkaia (15,0%). Em Navarra, onde, ao contrário do PNV, também concorre, conseguiu uns notáveis 17,0% e obteve, pela primeira vez, o mandato que, na primavera, lhe fugira por muito poucos votos.

Foi, assim, nesta última que registou o seu maior crescimento (+32,8%), seguido de Araba/Álava (+15,0%) e, por fim, Bizkaia (+11,9%) e Gipuzkoa (+10,7%).

CC-PNC-NC: coligação subtraiu em vez de somar

A Coligação Canária (CC), formação centrista e autonomista, liderada por Ana Oramas, aliada ao Partido Nacionalista Canário (PNC), conservador e independentista, alargou a coligação à Nova Canárias (NC), social-democrata e autonomista. Porém, se, em abril, a aliança CC-PNC obteve 0,5% dos sufrágios nacionais e dois mandatos e a NC 0,1%, agora, a coligação tripartida teve menos votos que a aliança bipartida, quedando-se pelos mesmos 0,5% e dois lugares daquela. Destes, um pertence à CC e o outro à NC.

A sua política traduz-se no apoio aos governos nacionais, sejam eles de direita ou de esquerda, em troca de contrapartidas para o arquipélago, em especial num contexto de fragmentação parlamentar. Se, em abril, esse posicionamento lhe permitiu granjear apoios em vários setores da sociedade canária, agora tal não se verificou, algo que também estará relacionado com o aumento da abstenção no arquipélago, geralmente mais elevada que a média nacional.

Por outro lado, terá havido eleitores da direita que não viram com bons olhos a aliança com a NC e fugiram para o PP e o Vox, enquanto outros, mais à esquerda, não terão gostado de ver a NC junta com os seus parceiros do centro-direita e acabaram por votar no PSOE.

A lista terá conservado pouco mais de 60% dos seus eleitores, tendo recolhido pouco mais de abstencionistas ou de outras opções de voto. Em contrapartida, as perdas ocorreram em várias direções, com destaque para o PSOE (12%), Vox e PP (cerca de 8% para ambos). Há, ainda, a registar 4% para a abstenção, 3% para pequenos partidos locais e valores residuais para as restantes forças políticas e votos brancos.

Nas Canárias, obteve 13,1% dos votos e foi a quarta força política. Contudo, o seu desempenho é diferente nas duas províncias: melhor na de Santa Cruz de Tenerife (as quatro ilhas ocidentais), onde foi segunda, com 16,4%, e menos bom na de Las Palmas (as três ilhas orientais), onde se ficou por 9,9%.

Apesar disso, do ponto de vista evolutivo, e considerando a soma das duas listas (CC-PNC e NC) que se apresentaram separadamente em abril, a queda foi menor nesta última (-17,6% e a conquista de um lugar, que falhara na primavera, devido à divisão quase a meio do voto regionalista). Na segunda, a quebra foi mais acentuada (-23,8%, o que levou à perda de um mandato).

BNG: o regresso ao Parlamento

Tal como previam algumas sondagens, e como aqui referi, o Bloco Nacionalista Galego (BNG), da esquerda independentista, que apresentou como principal candidato Néstor Rego, voltou a estar representado no Congresso dos Deputados, ao obter 0,5% dos votos a nível do território espanhol e eleger um deputado nestas eleições. Em abril, ficara-se pelos 0,4%, sem qualquer eleito. Um regresso que está em linha com a subida das forças independentistas e regionalistas em quase todo o país, com exceção das Canárias.

O partido terá conservado mais de 85% do seu eleitorado da primavera, tendo ido buscar 0,2% à abstenção, menos de 0,5% à UP e percentagens residuais a outras formações políticas. Por seu turno, as suas perdas foram pouco significativas, sendo de destacar 6% para a UP, 3% para o PSOE e outro tanto para o Mais País.

Na Galiza, obteve 8,1% dos votos, contra os 5,7% das anteriores eleições. Por províncias, o seu melhor resultado ocorreu na da Corunha, onde os 9,5% conseguidos lhe valeram um mandato. Nas restantes, desempenho razoável na de Pontevedra (7,5%), que contém a cidade de Vigo, e Lugo (7,2%). Já na mais rural e conservadora Ourense o resultado foi mais fraco, quedando-se em 6,0%.

Relativamente ao ato eleitoral anterior, a maior subida registou-se nas duas províncias orientais da região, mais conservadoras e onde a sua implantação é menor: Ourense (+53,8%) e Lugo (+50,0%). Nas outras duas, mais litorais e urbanas, os acréscimos foram menores, tendo o mais baixo ocorrido em Pontevedra (+33,9%), talvez porque a boa implantação da UP é, aí, um obstáculo ao crescimento do BNG. Já na Corunha foi um pouco mais elevado (+41,8%).

NA+: igual a abril no voto, mas…

A coligação Navarra Plus (NA+) não é, na realidade, uma formação regionalista, mas uma coligação que junta o ramo regional do PP e seus aliados da União do Povo Navarro (UPN) com o dos C’s. Se a percentagem de votos (0,4%) e o número de eleitos (dois) foi igual ao de abril, a verdade é que a subida dos “populares” e a descida dos “cidadãos” alterou, em muito, a relação de forças no interior da aliança, que só existiu devido à pequena magnitude da circunscrição, de forma a evitar a dispersão dos votos da direita.

Terá conservado cerca de 78% dos seus eleitores e terá ido buscar outros a diferentes formações, ao voto branco e à abstenção. Ao invés, perdeu cerca de 8% para o PSOE e quase outro tanto para o Vox, mais 3% para a abstenção e valores residuais para outras opções de voto. Ou seja, compensou as perdas dos C’s com os ganhos do PP.

A sua votação na região, uma comunidade uniprovincial, foi de 29,6%, exatamente o mesmo valor do último ato eleitoral.

PRC: a confirmação

Em abril, a entrada no Congresso do Partido Regionalista Cantábrico (PRC), que concorria pela primeira vez às eleições gerais, foi uma surpresa. Se, então, conseguiu 0,2% dos votos a nível nacional e um deputado, fruto dos 14,6% obtidos na comunidade uniprovincial da Cantábria, agora, os 0,3% no total do país e os 21,1% na região mostram que aquele resultado não foi fruto do acaso. Tornou-se a terceira força política regional, ficando muito perto de socialistas e “populares”.

O partido, de orientação social-democrata, é liderado por Miguel Ángel Revilla. Venceu as eleições autonómicas de maio e o seu líder tornou-se presidente do governo regional cantábrico, à frente de uma coligação com o PSOE. É provável que, neste ato eleitoral, tenha beneficiado de algum “estado de graça” do seu executivo.

Para além de ter mantido à volta de 88% do seu eleitorado de abril, conquistou eleitores em grande parte do espetro partidário (em especial, nos C’s, PSOE e UP) e na abstenção. Já as perdas foram pouco significativas: 3% para PSOE e outro tanto para o PP, 2% para o Vox e o mesmo para a abstenção e valores residuais para outras opções de voto.

Teruel Existe!: a surpresa

Se o PRC fora a surpresa em abril, agora foi a entrada no Congresso do movimento de cidadãos denominado Teruel Existe!, dedicado à defesa dos interesses daquela província do sul de Aragão, que surpreendeu os analistas políticos, embora algumas sondagens locais já encarassem essa possibilidade. A referida lista obteve 0,1% do voto nacional, mas foi a mais votada naquela circunscrição provincial, obtendo aí 26,7% dos sufrágios, à frente de PSOE (25,5%) e do PP (23,7%), tendo cabido um mandato a cada uma das três forças políticas.

A lista surgiu da fusão de várias plataformas cidadãs, que protestavam contra a falta de investimento do Estado central na província, pertencente à chamada “Espanha vazia”, ou seja, à zona central da Península, cada vez mais despovoada e envelhecida. A sua entrada no Parlamento reflete o descontentamento que grassa nessas zonas e poderá levar os cidadãos de outras províncias a procurar repetir a experiência, algo que não agrada aos partidos tradicionais, em especial “populares” e socialistas, que se arriscam a perder o monopólio da representação dessas áreas

A transversalidade do movimento é visível nas transferências de voto na província. Assim, o Teruel Existe! “pescou” em todos os eleitorados: a maior “fatia” veio de 22% do PSOE, seguido, por esta ordem, de 30% dos C’s, 20% do PP, 42,5% da UP e, por fim, 15% do Vox. A estas, somam-se porções mais pequenas, vindas de 1,6% de abstencionistas, 40% de votos brancos e à volta de 33% de pequenas forças políticas.

Abstenção: aumentou à esquerda e diminuiu à direita

Ao contrário do que acontecera nas eleições de abril, onde a afluência às urnas foi bastante elevada, o mesmo não sucedeu neste ato eleitoral, que viu a abstenção registar uma pequena subida. Se, então, não ultrapassou os 28,2%, desta vez atingiu os 30,1%.

Na primavera, a irrupção da extrema-direita levou às urnas muitos eleitores, uns nostálgicos do franquismo e outros descrentes no sistema democrático, que, muitas vezes, não votavam e viram naquela uma alternativa ou um voto de protesto mais eficaz. Contudo, a consciência dessa realidade originou uma mobilização sem precedentes do eleitorado da esquerda e, em especial, dos simpatizantes independentistas, que tendem a participar pouco nas eleições gerais espanholas, mas que entenderam ser necessário evitar uma maioria do tripartido espanholista, conhecido nos meios da esquerda por “trifachito” (PP, C’s e Vox). A isso há a somar, por um lado, algum “estado de graça” de Sánchez, cujo governo revertera as medidas de austeridade mais duras dos executivos do PP. Por outro lado, descontentes com a governação de Rajoy e com a viragem à direita da campanha do partido, alguns eleitores habituais do PP não compareceram nas urnas.

Agora, as coisas foram diferentes. A falta de acordo entre Sánchez e Iglesias levou à descrença uma parte do eleitorado da esquerda, que também não acreditou em Errejón e acabou por refugiar-se na abstenção. Simultaneamente, os descontentes “populares” entenderam que o partido já tinha sido suficientemente penalizado e regressaram às mesas de voto. Por sua vez, a reemergência da questão catalã e a retirada do corpo de Franco do Vale de los Caídos levou às urnas mais eleitores nacionalistas e nostálgicos do franquismo.

Assim, se, em abril, a elevada afluência favoreceu a esquerda, agora, a sua redução foi favorável à direita, que também se mobilizou mais que então. Valeu a elevada mobilização do eleitorado das forças independentistas e regionalistas (exceção feita às Canárias) para evitar que o avanço daquela fosse maior.

Nas comunidades, as maiores taxas de abstenção ocorreram nas regiões insulares, onde é tradicionalmente mais alta, cifrando-se em 41,3% nas Ilhas Baleares e 39,1% nas Canárias. Seguem-se, a grande distância, as Astúrias (34,5%) e a Galiza (33,4%). Já as menores registaram-se, também como é habitual, em Madrid (25,5%), seguida pela Catalunha (27,8%) e pela Comunidade Valenciana (28,3%), ou seja, nas áreas onde se situam as maiores concentrações urbanas. Contudo, foi igualmente mais baixa em algumas zonas rurais do interior, a tal “Espanha vazia” de que alguns falam: Aragão (28,5%), Castela-Mancha (28,6%), Castela e Leão (28,6%), a Rioja (28,7%) e a Cantábria (29,2%).

Apesar do seu crescimento a nível nacional, a abstenção diminuiu nas duas comunidades mais a noroeste: Galiza (-12,3%) e Astúrias (-1,4%), quiçá devido ao aumento da afluência por parte de eleitores do PP que não haviam comparecido nas urnas em abril, algo que foi notório na primeira. Madrid (+4,1%) foi aquela onde, apesar de mais elevada que na primavera, a abstenção menos cresceu. Seguiram-se as Canárias (+5,3%), Castela e Leão (+5,5%) e Cantábria (+5,8%). Ao invés, o maior acréscimo percentual ocorreu em Castela-Mancha (+22,2%), uma das que havia registado maior participação em abril. Vêm depois a Extremadura (+19,8%) e as Baleares (+19,4%) com crescimentos elevados, apesar de esta última já ter sido a região mais abstencionista nas últimas eleições, enquanto em Aragão (+14,1%), Múrcia (+13,2%) e Navarra (+12,0%) os acréscimos, embora claramente acima da média nacional, não são tão grandes.

Como é tradicional, foi nas praças norte-africanas de Ceuta (43,8%) e Melilla (42,9%) que se registaram os índices de abstenção mais elevados do país, o que não surpreende, já que as populações árabes dessas cidades autónomas pouco votam nas eleições gerais espanholas. Contudo, se, na primeira, o acréscimo foi relativamente elevado (+13,5%), o que também terá contribuído para o triunfo do Vox, na segunda foi muito reduzido (apenas +0,9%). Algo que a presença da lista da CpM, integrada, maioritariamente, por cidadãos de origem árabe, pode explicar.

Por províncias, onde menos se votou foi nas Baleares, comunidade insular uniprovincial, onde a abstenção atingiu os já referidos 41,3%. Seguiram-se as canárias Las Palmas (40,7%) e Santa Cruz de Tenerife (38,3%), dados que são consistentes com a elevada abstenção registada no arquipélago. No território continental, a maior taxa de abstenção ocorre na andaluza Cádiz (36,1%). Depois, por esta ordem e com valores entre 33 e 35%, temos três províncias andaluzas litorais (Huelva, Almeria e Málaga), três galegas (Lugo, Ourense e a Corunha) e as Astúrias.

Por seu turno, a menor abstenção registou-se na de Valladolid (25,3%), em Castela e Leão, à frente de Madrid (25,5%) e da igualmente castelhana-leonesa Segóvia (25,9%). Vêm a seguir Ávila, na mesma região, e Valência (ambas com 26,8%), Barcelona (27,0%) e as manchegas Guadalajara e Cuenca (27,1%). A aragonesa Teruel, a valenciana Castellón, a andaluza Jaén e Palência, em Castela e Leão, bem como Saragoça, em Aragão, são outras onde a taxa é inferior a 28,0%. Ou seja, tal como em abril, foi nas principais cidades, onde a politização é maior, e na chamada “Espanha vazia”, com uma população mais envelhecida, em geral com mais tendência a ir votar, que a afluência foi maior.

No próximo artigo, farei uma análise das perspetivas de formação do novo governo e das lideranças partidárias.

Texto de Jorge Martins

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