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Eleições em Espanha (1): os “Cambios” na geografia eleitoral

As eleições realizadas em Espanha no passado dia 10 de novembro, voltaram a confirmar as previsões da maioria das sondagens. Por Jorge Martins
Eleições gerais em Espanha - 10 de novembro de 2019
Eleições gerais em Espanha - 10 de novembro de 2019

As eleições realizadas em Espanha no passado dia 10, na sequência do impasse governativo que se seguiu às efetuadas no dia 28 de abril deste ano, voltaram a confirmar as previsões da maioria das sondagens: o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) triunfou, mas recuou ligeiramente; o Partido Popular (PP) recuperou do desastre de abril passado, embora longe dos seus melhores resultados; o crescimento exponencial do Vox, da extrema-direita, na prática o grande vencedor do ato eleitoral; a nova queda da coligação de esquerda Unidas Podemos (UP); o afundamento dos Cidadãos (C’s), em contraste absoluto com o seu êxito de abril; o fraco desempenho do Mais País, formação dissidente do Podemos, e um novo reforço do conjunto das forças políticas independentistas catalães e bascas, a par com o regresso dos nacionalistas galegos ao Congresso. Talvez o mais inesperado (e, mesmo assim, talvez não tanto, porque alguns inquéritos de opinião locais já o previam) foi a entrada no Parlamento de um movimento independente de cidadãos, defensor dos interesses da província aragonesa de Teruel.

Outro aspeto que confirmou o que previam as inquirições aos eleitores foi o facto de nenhum dos dois grandes blocos ideológicos obter a maioria absoluta (176 lugares) no Congresso dos Deputados. Assim, o progressista (PSOE, UP e o pequeno Mais País) conseguiu 158 mandatos, enquanto o conservador (PP, Vox, C’s e a coligação navarra NA+) se quedou pelos 153. Contudo, relativamente ao último ato eleitoral, o segundo reduziu a distância, já que o primeiro tinha atingido os 165, contra 149 do segundo. Ou seja, ocorreu, agora, uma viragem à direita. E, dentro desta, foram os mais radicais aqueles que mais progrediram.

Vamos, então, e tal como fizemos em abril, apresentar uma análise das eleições para o Congresso dos Deputados com base na sua geografia, tanto ao nível autonómico como provincial e, até, local.

PSOE: um ligeiro recuo, fruto de uma aposta falhada

O PSOE, de centro-esquerda, liderado pelo primeiro-ministro demissionário, Pedro Sánchez, voltou a vencer o ato eleitoral, obtendo 28,0% dos votos válidos e elegendo 120 deputados, o que consubstancia uma ligeira quebra face a abril, quando obteve por 28,7% e 123 eleitos.

Composição do Congresso dos Deputados de Espanha, saído das eleições de 10 de novembro de 2019
Composição do Congresso dos Deputados de Espanha, saído das eleições de 10 de novembro de 2019

Após o seu claro triunfo eleitoral, em abril, Pedro Sánchez pretendeu formar um governo minoritário, com o apoio parlamentar da UP, do PNV basco e de outras pequenas forças regionalistas e a abstenção das esquerdas independentistas bascas e catalãs. Se estas (em especial, a ERC catalã) deram essa garantia ao líder socialista, a UP manifestou a sua vontade de participar no governo de Sánchez e o seu líder, Pablo Iglesias, fez depender o seu apoio a essa solução à assinatura de um acordo de incidência governativa entre o PSOE e a UP. Convencido de que a coligação de esquerda não estaria interessada na repetição do ato eleitoral, o atual presidente do governo mostrou-se intransigente, não aceitando a exigência de Iglesias. Este não cedeu e “chumbou” a investidura de Sánchez, não restando outra solução que não fosse voltar às urnas.

O líder do PSOE pensou que, responsabilizando a UP pelo impasse político, poderia “canibalizar” uma parte importante do seu eleitorado e ficar próximo da maioria absoluta, que conseguiria com o apoio das forças regionalistas mais moderadas. Um erro de cálculo que lhe viria a custar caro!...

Na verdade, o eleitorado responsabilizou, igualmente, Sánchez pelo impasse, acabando por penalizá-lo. É certo que a quebra acabou por ser ligeira, mas isso sucedeu também porque o PSOE beneficiou de algum “voto útil”, em especial nas circunscrições mais pequenas, e da deslocação dos C’s para a direita, o que lhe permitiu ir buscar alguns eleitores ao centro.

Por outro lado, desta vez, o presidente do governo já não possuía o “estado de graça” de que ainda desfrutava em abril, com a reversão das mais duras medidas de austeridade do executivo de Rajoy, e que bastante o beneficiou nas eleições de então.

Mas aquilo com que Sánchez, provavelmente, não contava era que a questão catalã reemergisse em força nas vésperas da campanha. A dureza das sentenças condenatórias dos líderes independentistas catalães, proferidas pelo Supremo Tribunal, provocou uma forte polarização, que favoreceu os nacionalismos, tanto o espanholista como os periféricos. Assim, apesar de não sair da posição tradicional do partido, oposta à autodeterminação das nacionalidades periféricas, embora sem a virulência da direita espanholista, acabou por ficar “entalado” entre esta, que exigia uma nova aplicação do artº 155º da Constituição espanhola (ou seja, a suspensão das instituições autonómicas da Catalunha) ou, mesmo, no caso da extrema-direita, a aplicação de penas mais pesadas. Apesar de ter descartado qualquer amnistia aos presos políticos e ter procurado “lavar as mãos como Pilatos”, afirmando estar-se em presença de uma questão jurídica, não agradou nem a uns nem a outros, levando o PSOE a perder votos, em especial para a sua direita e para a abstenção.

Analisando as transferências de votos, estimamos que os socialistas tenham conservado cerca de 87% dos seus eleitores de abril. Contudo, para a queda não ter sido mais acentuada, valeu-lhes a conquista de 10% dos C’s, a que se somam perto de 2,5% ganhos à UP e, em menor grau, 1% retirado ao PP, cerca de 12,5% à lista autonomista canária (CC-PNC-NC), outro tanto aos animalistas do PACMA, pouco mais de 10% a outras pequenas formações, 0,3% de abstencionistas e valores menores de outras forças políticas. Com a já referida exceção canária, pouco conseguiu penetrar nos eleitorados independentistas e regionalistas, bem como no da extrema-direita, sendo os ganhos aí obtidos residuais. Quanto a perdas, as maiores foram na direção da abstenção (4%). Seguiram-se, aproximadamente, 2,5% para o Vox, 2% para o PP, 1% para a UP, outro tanto para o novel Mais País e, ainda, 0,5% para a ERC e menos para os votos brancos e para os C’s. Para as restantes opções de voto, foram pouco expressivas.

Ao contrário de abril, quando venceu em todas as comunidades autónomas, à exceção da Catalunha, País Basco/Euskadi e Navarra, desta vez o PSOE, para além dessas, perdeu também na Galiza, Cantábria, Castela e Leão e Múrcia. Foi, igualmente, derrotado nas cidades autónomas do norte de África, quando, nas anteriores eleições, havia vencido em Ceuta. Ao nível provincial, voltou a vencer na maioria das províncias (32 em 50). Porém, para além das 11 que havia perdido em abril - três das quatro catalãs (só ganhou na de Barcelona), as três bascas, Navarra, as duas galegas do interior (Ourense e Lugo), as conservadoras Salamanca e Ávila, em Castela-Leão – onde voltou a não vencer, há que somar a galega Corunha, a Cantábria, as castelhano-leonesas Palência, Zamora e Segóvia, a aragonesa Teruel e Múrcia.

O partido voltou a registar os seus melhores desempenhos nas áreas rurais, em especial do Centro-Sul e Sul do país, onde é tradicionalmente forte. Mas este voto pode significar, igualmente, que os socialistas captaram, essencialmente, o eleitorado mais idoso, porventura mais sensível ao argumento da estabilidade, que foi o mote da campanha de Sánchez.

Ao nível das comunidades autónomas, o seu melhor resultado ocorreu, mais uma vez, na Extremadura (38,3%), mas o segundo verificou-se na Rioja (34,9%). Só depois vêm a Andaluzia (33,4%), onde tem o apoio de boa parte dos assalariados agrícolas e seus descendentes urbanos, e as Astúrias (33,2%), região mineira onde a esquerda tem, tradicionalmente, bastante implantação. Teve, igualmente, uma boa prestação em Castela-Mancha (31,3%), mas também nas mais conservadoras Galiza (31,3%) e Castela-Leão (31,2%) e um resultado acima da média em Aragão (30,7%). Em contrapartida, os seus piores resultados ocorrem, sem surpresa, nas duas comunidades mais independentistas: Euskadi (19,2%) e Catalunha (20,5%), algo que resulta das posições espanholistas do partido, mesmo que mais moderadas que as da direita. As uniprovinciais e conservadoras Cantábria (23,2%), Múrcia (24,8%) e Navarra (25,0%), bem como as Ilhas Baleares (25,4%), foram outras regiões onde os socialistas ficaram, claramente, abaixo da média nacional.

Relativamente à evolução face ao anterior ato eleitoral, apenas registou acréscimos percentuais em seis comunidades autónomas. O maior ocorreu na Rioja (+10,1%), sendo os restantes bem mais modestos: Castela e Leão (+4,8%), Canárias (+4,0%), Castela-Mancha (+2,2%), Extremadura (+0,5%) e Astúrias (+0,3%). Em Múrcia, perdeu votos, mas a maior abstenção deixou a percentagem de abril inalterada. Nas restantes autonomias, recuou, em especial na Catalunha (-11,6%), algo que a posição espanholista do partido face à questão nacional ajuda a explicar. Seguem-se Cantábria (-7,9%), fruto da afirmação do PRC, formação regionalista de orientação social-democrata, Euskadi (-3,5%), Ilhas Baleares (-3,4%), Aragão (-3,2%) e Navarra (-3,1%).

No entanto, as descidas mais fortes do PSOE ocorreram nas duas praças espanholas do Norte de África: perdeu 13,8% em Ceuta, onde, com 31,3% dos sufrágios, foi derrotado pelo Vox, e 20,8% em Melilla, onde foi apenas quarta força política, com 16,4% dos votos, voltando a perder eleitores para a Coligação por Melilla (CpM), uma cisão de esquerda no partido, protagonizada pelos seus militantes de origem árabe, que chegou aos 29,0% dos votos, quase destronando o PP no enclave.

Ao nível provincial, o melhor resultado voltou a ocorrer na andaluza Jaén (38,8%), seguido das duas províncias extremenhas (Badajoz e Cáceres, por esta ordem), de Cuenca, em Castela-Mancha, das de Huelva e Sevilha, ainda na Andaluzia, da Rioja, de Sória, em Castela-Leão, e na também manchega Ciudad Real. Sem estranheza, também voltou a ser nas províncias bascas e catalãs que o seu desempenho foi mais fraco, em especial naquelas onde o sentimento independentista é maior: Lleida (14,4%, o valor mais baixo) e Girona, na Catalunha, Gipuzkoa, em Euskadi, e a também basca Bizkaia, a par da catalã Tarragona, não chegando aos 20% em nenhuma delas. Seguiram-se, depois, Barcelona e Araba/Álava, ainda em Euskadi, apesar de o desejo de independência ser, em ambas, menos forte.

Relativamente à evolução, a maior subida teve lugar na província de Burgos, em Castela e Leão (+10,2%), logo seguida da Rioja e da igualmente castelhana-leonesa Sória. Vêm, depois, uma série de províncias dessa região (Palência, Segóvia, Valladolid, Palência e Zamora, por esta ordem). Seguem-se as de Cuenca e Guadalajara, em Castela-Mancha e as duas canárias (Santa Cruz do Tenerife e, em menor grau, Las Palmas). Acréscimos positivos, mas modestos, ocorreram, ainda, nas manchegas Toledo e Albacete, intercaladas pela extremenha Cáceres, as castelhano-leonesas Leão e Ávila, tendo, entre elas, a aragonesa Huesca e a galega Ourense e, por fim, as Astúrias. Em Ciudad Real (Castela-Mancha), Múrcia e Badajoz (Extremadura) “ficou em casa”. As maiores perdas ocorreram em Teruel (-22,0%), devido à emergência de um movimento de cidadãos defensor dos interesses da província, seguindo-se, pela ordem indicada, as catalãs Lleida, Girona, Barcelona e Tarragona, onde, pelas razões acima referidas, as quebras foram superiores a 10%.

PP: pequena recuperação, ameaçada pela extrema-direita

O Partido Popular (PP), de direita, liderado por Pablo Casado, recuperou da maior derrota eleitoral da sua história, ocorrida em abril, quando obteve apenas 16,7% dos sufrágios e 66 lugares no Congresso, perdendo mais de metade do grupo parlamentar que detinha até então e vendo a liderança da direita ameaçada pelos C’s. Agora, melhorou a sua prestação, conseguindo 20,8% dos votos e a eleição de 89 deputados. Um resultado que, face à hecatombe do último ato eleitoral, é satisfatório, mas está longe dos seus melhores tempos e das suas ambições de voltar ao poder.

Depois de, na primavera, face à emergência do Vox, ter feito pender o seu discurso para posições próprias da direita mais radical, tática que se viria a revelar errada, pois não só captou poucos eleitores da extrema-direita, que preferiram o original à “fotocópia”, como também o fez perder a maior parte do eleitorado do centro, desta vez adotou um discurso mais moderado. Mesmo se manteve a sua tradicional inflexibilidade face aos nacionalismos periféricos em geral e ao independentismo catalão, em particular, exigindo do governo a ativação do artº 155º, a verdade é que não alinhou com o Vox no pedido de aumento das penas aos presos políticos catalães.

Ao mesmo tempo, os “populares” centraram-se nas questões económicas, responsabilizando Sánchez e o PSOE pelo “arrefecimento” da economia espanhola nos últimos meses. Algo que seria consequência, na sua opinião, quer da sua incapacidade em encontrar uma solução governativa, quer das suas alegadas políticas “socialistas”. Acontece que os espanhóis ainda não se esqueceram da governação de Rajoy, marcada pela austeridade extrema, que elevou o desemprego a níveis insustentáveis, com o consequente aumento da pobreza, de que os “despejos” foram uma das principais marcas, e da institucionalização de uma extrema precarização do trabalho, que afeta, de sobremaneira, os mais jovens. Uma triste realidade que, ainda hoje, se faz sentir no conjunto do país vizinho. Se a isso somarmos os escândalos de corrupção a todos os níveis do poder (nacional, regional e local), que marcaram esse período, quase sempre envolvendo dirigentes do partido, veremos que não era fácil ao PP recuperar muito do eleitorado entretanto perdido. E só o afundamento dos C’s, que lhe permitiu recuperar os eleitores do centro-direita que perdera em abril, e o “voto útil” de alguns eleitores da direita em certas circunscrições mais pequenas evitou que a recuperação fosse ainda mais tímida. Se é certo que a queda dos Cidadãos lhe deu mais folga na liderança da direita, a verdade é que esta continua ameaçada e, desta vez, por um adversário mais temível: o Vox, da extrema-direita, muita da qual se acoitou (e ainda acoita) nos “populares” nos últimos 40 anos e que, agora, surge, sem vergonha, “à luz do dia”.

Face ao péssimo resultado das últimas eleições, em que ficou, praticamente, reduzido ao seu “núcleo duro”, não surpreende que o partido tenha conservado mais de 90% dos que nele votaram em abril. A eles, somou 25% de eleitores que, nesse ato eleitoral, haviam optado pelos C’s, de longe a maior “fatia” de votos provenientes de outros lados. Foi, ainda, buscar 2% ao PSOE, 1% à abstenção, outro tanto ao Vox, cerca de 10% aos votos brancos, quase o mesmo a pequenas forças políticas, 0,5% à UP e residuais a outras opções de voto. Quanto a perdas, a maior percentagem de votos perdidos pelos “populares” foi na direção do Vox (5%), seguindo-se o PSOE, os C’s e a abstenção (1% para todos eles) e percentagens pouco significativas para outras direções.

Se, em abril, o PP não ganhou em nenhuma comunidade autónoma, desta vez venceu em três: Galiza, Cantábria e Castela e Leão. Contudo, na primeira e na última, as suas vitórias foram bastante apertadas e, na segunda, também não foi propriamente folgada. Ao nível provincial, vencera, então, em apenas quatro províncias: as de Ourense e Lugo, na Galiza interior, e as de Salamanca e Ávila, em Castela-Leão. Desta vez, triunfou em nove, havendo a juntar aquelas a Corunha, na Galiza, a Cantábria e as de Palência, Zamora e Segóvia, estas três últimas em Castela e Leão.

Os seus melhores resultados ocorreram, desta vez, na Rioja (34,3%), curiosamente uma região onde o PSOE teve, igualmente, um bom resultado, algo que indicia algum “voto útil” em favor dos maiores partidos, dada a pequena magnitude da circunscrição. Seguem-se a Galiza (31,9%) e Castela-Leão (31,7%), regiões onde é tradicionalmente forte, em especial nas áreas rurais mais envelhecidas. É esse o fator que explica os razoáveis resultados obtidos em Castela-Mancha (26,9%), Múrcia (26,5%), Extremadura (26,0%) e Cantábria (25,9%). Ao invés, e como é igualmente tradicional, os piores ocorreram na Catalunha (7,4%) e em Euskadi (8,8%). Se, na primeira, passou de um para dois deputados, ambos eleitos em Barcelona, na segunda, onde a magnitude das circunscrições é menor, só conseguiu recuperar a sua representação no Congresso “in extremis”, arrebatando um mandato na Bizkaia, após uma dramática recontagem dos votos. Fraca, ainda, e como habitualmente, a sua votação na Andaluzia (20,5%), onde tende a ser débil, dado o peso dos jornaleiros, enquanto nas Canárias (20,8%), onde existe alguma tradição autonomista, se quedou na média nacional.

Os “populares” subiram em todo o território, mas a maior recuperação percentual ocorreu na Catalunha (+51,0%), também muito devido ao efeito estatístico do baixíssimo resultado de abril. Seguiram-se as suas comunidades insulares - as Ilhas Baleares (+36,3%) e as Canárias (+34,2%) – e Madrid (+33,9%), nesta última graças à acentuada quebra dos C’s. Astúrias (+29,6%) e Rioja (+29,4%) foram outras regiões onde a subida foi claramente superior à média nacional. Ao invés, o seu crescimento foi menor em Múrcia (apenas +13,2%), tendo sido ultrapassado pelo Vox na região. Mas também foi menor que o valor médio do país na Galiza (+16,4%), Castela-Mancha (+18,5%), Euskadi (+18,9%), Andaluzia (+19,2%) e Cantábria (+19,4%). Não há um padrão explicativo, estando estes menores acréscimos relacionados com o desempenho de outras forças políticas: na primeira, o menor peso dos C’s e o facto de ter perdido menos votos em abril; na segunda e na quarta a maior subida do Vox; na quinta, a consolidação do PRC e, na terceira, a sua fraqueza crónica em terras bascas.

Nas praças norte-africanas, venceu em Melilla, com apenas 29,6% dos votos, mais uma vez muito “apertado” pela Coligação por Melilla (29,0%), enquanto em Ceuta voltou a ser terceiro, recolhendo apenas 22,3% dos sufrágios, atrás do Vox e do PSOE. Se, na primeira, ainda cresceu 23,8%, provavelmente devido ao “voto útil”, na segunda registou o menor acréscimo regional do país: apenas 4,2%.

Ao nível provincial, o partido voltou a conseguir os melhores resultados nas galegas Ourense (39,5%, a melhor em todo o território) e Lugo, seguida de três províncias de Castela-Leão (Palência, Ávila e Salamanca, por esta ordem), a que se segue a Rioja e mais três castelhano-leonesas (Zamora, Segóvia e Sória, assim ordenadas), áreas onde o eleitorado é, em geral, rural e idoso, e mantem alguma fidelidade aos “populares”. Em contrapartida, os piores ocorreram, como sempre, nas sete entidades provinciais da Catalunha e Euskadi. O ponto mais baixo voltou a ocorrer na catalã Girona, onde se quedou pelos 4,9%, seguida da basca Gipuzkoa, das três restantes catalãs (Lleida, Barcelona e Tarragona, por esta ordem) e a Bizkaia. Em todas elas ficou abaixo dos 10%. Seguiu-se a outra província basca, Araba/Álava, onde ficou perto dos 15%, e as três da Andaluzia ocidental: Sevilha, Cádiz e Huelva, nesta ordenação.

Relativamente à evolução a escala territorial, o PP subiu em 49 das 50 províncias. A maior subida verificou-se em Barcelona (+54,0%), logo seguida das restantes três catalãs (Girona, Tarragona e Lleida), embora o ponto de partida seja demasiado baixo, provocando um efeito estatístico. Vêm, depois, a canária Santa Cruz de Tenerife e as Ilhas Baleares. A única descida ocorreu em Teruel (-0,4%) e está relacionada com o surgimento do movimento de cidadãos na província. Por seu turno, o menor acréscimo ocorreu em Araba/Álava (+8,0%), a mais espanholista das províncias bascas, mas onde o partido parece em perda de influência. Seguem-se Ávila, Zamora, Múrcia, Lugo e Ourense, áreas onde está mais bem implantado e a margem de crescimento é menor. A região murciana constitui uma exceção, sendo a mais reduzida progressão dos “populares” explicada pela força que o Vox aí detém.

Vox: Franco foi reenterrado, mas o franquismo parece ter reencarnado

O Vox, partido da extrema-direita, liderado por Santiago Abascal, que, em abril, já havia obtido 10,3% dos votos e 24 lugares, chegou, agora, aos 15,1%, o que lhe assegurou a eleição de 52 deputados.

Se o seu súbito crescimento, nas regionais da Andaluzia, em dezembro passado, surpreendera, o bom resultado de abril já não espantou ninguém, tendo, mesmo, o partido ficado aquém do que previa a maioria das sondagens da altura. Contudo, um mês depois, nas europeias, autonómicas e municipais, o Vox pareceu estar a perder fulgor. E, quando se deu a dissolução do Parlamento, em meados de setembro, estava cotado na casa dos 7-8%. O que levou, então, a este resultado?

A condenação dos dirigentes independentistas catalães e as reações de indignação ocorridas na Catalunha, em resposta ao veredicto, polarizaram a opinião pública do país vizinho. Sabendo que a causa independentista catalã é extremamente impopular no resto do país, o partido de Abascal aproveitou a onda, também auxiliado, mesmo que involuntariamente, por uma comunicação social espanholista, que realçou o lado violento dos protestos. Ao contrário do que foi amplamente difundido, a maioria destes foram pacíficos, sendo a violência obra de grupos mais radicais, mas minoritários, entre os independentistas. Daí que as suas reivindicações de penas mais pesadas, da aplicação imediata do artº 155º da Constituição e, até, o fim das autonomias tenham suscitado a adesão de muitos. É curioso que uma força política que tem sempre o texto constitucional “na boca” contra os independentistas catalães, bascos e outros, em defesa da unidade de Espanha, faça uma proposta tão abertamente inconstitucional, pois as autonomias estão constitucionalmente consagradas, definindo a Constituição espanhola o país vizinho como um Estado das Autonomias. Mas não há dúvida de que foi a irrupção da questão catalã na campanha que explica, em muito, a enorme subida do Vox.

Por outro lado, a persistência do bloqueio político levou muitos cidadãos a desiludir-se com os até então quatro maiores partidos, que consideravam agir mais em função dos seus próprios interesses que dos nacionais. Como o Vox esteve fora das negociações para a formação de um novo executivo, pôde reivindicar a sua “virgindade” em matéria de jogos políticos.

Também o facto de a trasladação do ditador Franco do seu túmulo, no Vale de los Caídos, para um cemitério na periferia de Madrid ter caído em plena campanha eleitoral, após sentença definitiva do Supremo Tribunal, favoreceu a formação da extrema-direita, que mobilizou a raiva dos nostálgicos do franquismo com a decisão do governo de Sánchez e a decisão judicial. A verdade é que, ao contrário do que sucedeu em Portugal, onde a rutura revolucionária do 25 de Abril “civilizou” a direita, em Espanha, onde ocorreu uma transição pactuada, esta manteve, no essencial, o “ranço” franquista, mesmo se, durante os últimos 40 anos, teve alguma reserva em o afirmar, acoitando-se no seio do PP. Com uma conjuntura internacional favorável à extrema-direita e à direita populista, “saiu à rua” e exibe os ideais neofranquistas sem qualquer pudor. No fundo, Franco foi reenterrado, mas o franquismo continua, afinal, vivo em muitos espanhóis, e reencarnou, agora, no Vox.

Por outro lado, apesar da sua notória demagogia, Abascal é um líder carismático, que, como referimos então, possui uma temível oratória, que entusiasma, não apenas os mais ferranhos dos seus apoiantes, mas também os mais incautos. E a verdade é que, no debate a cinco, o seu desempenho permitiu a conquista de muitos eleitores. Aí, perante um Rivera perdido, um Casado sem discurso credível e um Sánchez desinspirado, só Iglesias lhe deu, verdadeiramente, luta. Se, antes, as sondagens lhe atribuíam à volta de 12%, foram em crescendo a partir daí e atingiram, depois disso, um valor próximo do que viria a ser o seu resultado nas urnas.

Claro que a estes fatores se somam os que enunciámos na nossa análise às eleições de abril e que podem ser lidos aqui.

A formação da extrema-direita não só conservou mais de 97% do seu eleitorado de abril, mas também foi buscar votos a muitos que, então, tiveram uma opção diferente: 16% aos C’s, 5% ao PP, 2,5% ao PSOE e 1% à abstenção foram os que lhe permitiram aumentar, de forma mais notória, o seu pecúlio eleitoral. A esses, há ainda a acrescentar quase 15% de partidos de menor dimensão, exceção feita, como é natural, às forças independentistas, e votos brancos, bem como 1% da UP. Já as perdas foram insignificantes: 1% para o PP, outro tanto para a abstenção e pouco mais noutras direções.

O Vox obteve os seus melhores resultados no Sul e Centro-Sul do país, tendo triunfado na região de Múrcia (28,0%), a comunidade autónoma onde obteve a maior percentagem de votos. Seguiram-se Castela-Mancha (21,9%) e Andaluzia (20,4%). Nesta última, foi terceiro, mas ficou a uma décima do PP, que foi segundo. Comunidade Valenciana (18,5%) e Madrid (18,4%) foram outras em que o seu desempenho ficou, claramente, acima da média nacional. Ao invés, nas nacionalidades periféricas e nas comunidades com alguma identidade própria, o espanholismo radical do partido continua a ter dificuldades em penetrar. O exemplo mais forte dessa realidade é Euskadi (2,4%), onde o partido voltou a ter o seu pior resultado no país. Seguiram-se Navarra (5,6%), Catalunha (6,3%) e Galiza (7,8%), em todas elas bem abaixo da percentagem nacional.

Relativamente à sua evolução percentual, o maior acréscimo ocorreu nas Canárias (+87,9%), onde quase duplicou a sua votação, logo seguido da Catalunha (+75,0%), embora aí haja algum efeito estatístico, já que o valor de partida era relativamente baixo. Extremadura (+55,6%), Comunidade Valenciana (+54,2%), Andaluzia (+52,2%), Ilhas Baleares (+51,3%) e Múrcia (+50,5%) foram outras comunidades onde a sua subida foi bastante acentuada. Ao invés, foi em Euskadi (+9,1%) e Navarra (+16,7%) que os acréscimos foram mais baixos, o que confirma a sua fraqueza nessas regiões, vindo depois a Rioja (+26,7%), onde terá havido algum “voto útil” no PP.

Destaque para os bons resultados obtidos nas praças do norte de África, onde o nacionalismo espanholista é muito forte, algo já visível nas últimas eleições. Assim, em Ceuta, venceu, elegendo o deputado correspondente a essa cidade autónoma. Aí obteve o seu melhor resultado nacional, com 35,3%. Em Melilla, o seu desempenho esteve longe desse valor, mas os 18,4% obtidos permitiram-lhe ficar na terceira posição, atrás de PP e CpM, mas à frente do PSOE. Também ao nível dos acréscimos há diferenças entre as duas cidades: na primeira, cresceu 47,1%, enquanto na segunda apenas subiu 9,5%.

Ao nível provincial, o Vox conseguiu o melhor resultado no território peninsular na região de Múrcia (28,0%), comunidade autónoma uniprovincial, seguida da vizinha província andaluza de Almeria, duas áreas onde a pressão migratória é maior. Vêm depois Guadalajara e Toledo, em Castela-Mancha. Málaga e Cádiz, na Andaluzia, as manchegas Ciudad Real e Albacete, intercaladas pelas também andaluzas Huelva e Granada foram outras províncias onde ultrapassou os 20%. Como referimos em abril, para além do peso da imigração e dos refugiados, em especial nas zonas litorais, há ainda que ter em conta o ressentimento profundo de andaluzes, manchegos e murcianos face aos catalães, por razões que referimos então. Esse sentimento tem sido bem aproveitado pela que extrema-direita, cuja oposição frontal ao processo independentista lhe granjeia muitos votos nessas regiões. Por outro lado, apesar de a exploração de que foram vítimas por parte das elites locais terratenentes ter puxado muitos deles para a esquerda, a verdade é que, em algumas áreas mais rurais, estamos em presença de populações conservadoras e tradicionalistas, que veem com maus olhos a defesa dos direitos das mulheres e das comunidades LGBT ou os apelos ao fim da caça e das touradas. Daí o facto de o Vox ter aí captado muitos eleitores.

Como seria expectável, os piores resultados surgiram nas províncias bascas, com o mais baixo a ocorrer em Gipuzkoa (1,9%), seguida da Bizkaia e da Araba/Álava. Seguem-se as catalãs mais independentistas de Lleida e Girona, Navarra, Barcelona e as galegas Pontevedra e Ourense, a quarta catalã, Tarragona, e as restantes da Galiza, Lugo e Corunha. Em todas elas, o Vox não atingiu a casa dos 10%. Confirma-se, pois, que os nacionalismos periféricos são uma barreira à progressão do nacionalismo espanholista mais extremista, de que o Vox é o principal representante.

No que se refere á sua evolução à escala provincial, esta é bastante consistente com a ocorrida a nível autonómico. Assim, a maior subida verificou-se nas duas províncias canárias: Las Palmas (+90,0%) e Santa Cruz de Tenerife (+88,5%). As questões migratórias, a par com o aumento da abstenção, terão tido algum peso neste elevado crescimento da extrema-direita no arquipélago. Seguem-se as quatro catalãs (Girona, Barcelona, Tarragona e Lleida, por esta ordem), embora aí haja que ter em conta o efeito estatístico que referimos anteriormente. Igualmente fortes os acréscimos em três da Andaluzia: Huelva, Jaén e Cádiz, respetivamente. Em todas elas, cresceu mais de 60%. Por sua vez, o menor registou-se na província basca da Bizkaia (+4,3%). Seguem-se Navarra, Teruel, pelo motivo já amplamente referido, e as outras duas de Euskadi (Gipuzkoa e Araba/Álava). Nestas circunscrições, cresceu sempre abaixo dos 20%.

UP: uma quebra não muito acentuada, mas contínua

A aliança de esquerda Unidas Podemos (UP), liderada por Pablo Iglesias, voltou a perder votos face às eleições anteriores, tendo obtido 12,8% dos sufrágios e 35 mandatos, contra os 14,3% e 42 lugares que obtivera em abril. Se é certo que, ao contrário de então, a quebra não foi muito acentuada, a verdade é que ela é contínua, o que deverá fazer “soar os alarmes” na formação.

Após ter falhado o objetivo de ultrapassar o PSOE e tornar-se a maior força da esquerda, em 2016, a UP, que junta o Podemos, força política com pretensões basistas, surgida do movimento dos “indignados”, e a Esquerda Unida (IU), coligação de várias formações de esquerda, onde pontifica o Partido Comunista de Espanha (PCE), não mais conseguiu definir uma estratégia consistente. Depois de alguns “ziguezagues” táticos o terem levado a uma quebra acentuada, nas eleições de abril, Iglesias exigiu ao PSOE a participação no governo para firmar um pacto que viabilizasse a investidura de Sánchez. Confrontado com a intransigência deste, que apenas aceitava um acordo de incidência parlamentar, semelhante à “geringonça” portuguesa, fez “finca-pé” na questão, acabando as duas formações por não chegar a acordo.

Muitos culparam o líder da UP pelo impasse que levou à repetição das eleições, entre os quais a fação do Podemos liderada por Iñigo Errejón, há muito em “rota de colisão” com Iglesias. Depois de ter assumido uma aliança para as municipais de Madrid com a então “alcaldesa” da capital, Manuela Carmena, intitulada Mais Madrid, à revelia da direção do partido, acabou, pouco depois, por abandonar a UP e criar um novo partido, intitulado Mais País, que “roubou” alguns votos aos “podemitas”.

Por outro lado, o reacender da questão catalã nas vésperas da campanha voltou a deixar a UP numa posição difícil. Esta foi a única das grandes formações políticas espanholas a criticar abertamente a sentença condenatória dos dirigentes independentistas catalães. Sendo favorável à autodeterminação (embora contrário à independência) das nacionalidades periféricas, tem de manter um difícil equilíbrio, que contente tanto parte da esquerda mais espanholista como da independentista, o que, dado o extremar de posições, não é nada fácil. Por fim, nas circunscrições de menor dimensão, a coligação foi vítima de algum “voto útil” nos socialistas.

Apesar de tudo, e mais uma vez, a queda acabou por ser menor que a prevista no início da campanha. A boa prestação de Iglesias no debate, trazendo temas que interessam à vida concreta dos cidadãos, terá mitigado o desaire.

A aliança da esquerda terá conservado cerca de 82% do seu eleitorado de abril e não recebeu muitos de outros: 1% do PSOE, 0,5% dos C’s, 3% da ERC, 7,5% do PACMA, cerca de 10% de pequenas forças políticas, 3% da ERC, 0,2% da abstenção e valores residuais de outras opções de voto. Em contrapartida, deixou fugir 7% para o Mais País, de Errejón, 3% para a abstenção, 2,5% para o PSOE, 1,5% para a ERC, 1% para o Vox, 0,5% para o PP, outro tanto para pequenos partidos e percentagens menores para outras formações, em especial de cariz independentista ou regionalista, e votos em branco.

Desta vez, as Ilhas Baleares foram a comunidade autónoma onde a formação obteve a maior percentagem de votos (18,1%), seguida de Navarra (16,6%), até há pouco tradicionalmente de direita, e, mais logicamente, das Astúrias (16,0%) e de Euskadi (15,4%), pois são regiões onde a esquerda é forte. Vêm, depois, as Canárias (14,7%) e a Catalunha (14,2%). Já os desempenhos mais fracos ocorreram na Cantábria (8,6%) e Múrcia (8,8%), a que se seguem comunidades rurais ou mais conservadoras, mas onde, em geral, os círculos eleitorais têm pequena magnitude: Extremadura (9,1%), Castela-Mancha (9,2%), Castela e Leão (9,3%) e Rioja (9,8%).

As Ilhas Baleares foram a única comunidade onde conseguiu subir a sua votação, com um acréscimo de 1,7%. Nas restantes, teve perdas em todas, com as menos acentuadas a ocorrerem na Extremadura (-4,2%), na Catalunha (-4,7%) e na Comunidade Valenciana (-5,6%). No caso catalão, a firme tomada de posição da “alcaldesa” de Barcelona, Ada Colau, contra a condenação dos dirigentes independentistas, terá evitado uma maior perda de votos para as forças da esquerda pró-independência. Nas outras duas, a queda fora bastante acentuada em abril, pelo que é natural que, agora, a sua amplitude tenha sido menor. Ao invés, atingiram maiores dimensões em Aragão (-20,6%) e Madrid (-19,8%), não por acaso zonas onde o Mais País obteve resultados acima da sua média nacional. Seguiram-se a Rioja (-16,9%), a Cantábria (-15,7%) e Múrcia (-15,4%), onde, salvo nesta última, terá funcionado de forma mais acentuada o “voto útil” no PSOE.

As praças norte-africanas, com um eleitorado muito conservador, foram, sem surpresa, um terreno pouco fértil para a UP, que aí voltou a registar os piores resultados nacionais: 2,6% em Melilla e 3,9% em Ceuta. Foi na primeira daquelas cidades autónomas que registou a descida mais acentuada em todo o país, com a perda de 31,6%. Na segunda, o decréscimo foi um pouco menor, mas, ainda assim, cifrou-se em 18,8%. O facto de estarmos em presença de círculos uninominais levou ao aumento do “voto útil”, que o penalizou: no caso de Ceuta, para os socialistas; no de Melilla, maioritariamente para a Coligação por Melilla (CpM), uma formação de esquerda, resultante de uma cisão no PSOE, protagonizada pelos seus militantes de origem árabe, para a qual a UP continuou a perder votos.

Ao nível provincial, também as Ilhas Baleares (18,1%) e Navarra (16,6%) ocupam os primeiros lugares, algo que, tendo em conta os resultados, se deve, em grande parte, ao carácter uniprovincial dessas comunidades autónomas. Seguem-se a basca Araba/Álava (16,5%), as Astúrias (16,0%), também uma região uniprovincial, Barcelona e a galega Pontevedra (15,5% em ambas), a igualmente basca Bizkaia e Las Palmas, nas Canárias (15,4% nas duas), a andaluza Cádiz (15,2), Guipuzkoa (15,0%), a terceira de Euskadi e, ainda, Sevilha e Córdova (em ambas, 14,5%), na Andaluzia. Ou seja, a UP teve os seus melhores desempenhos em áreas tradicionalmente de esquerda, o que é lógico, ou onde existe um sentimento regionalista ou independentista mais forte, algo que se poderá explicar por ser a mais tolerante das principais formações políticas espanholas relativamente aos nacionalismos periféricos e mais favorável à descentralização do Estado. Por seu turno, os piores voltaram a ocorrer, sem surpresa, nas áreas rurais mais conservadoras do interior, com destaque para a aragonesa Teruel (5,3%), onde o movimento de cidadãos pela província também lhe “comeu” votos. Seguiram-se Ávila (6,4%), em Castela e Leão, Salamanca, na mesma região, e a manchega Cuenca (6,9% nas duas) e Salamanca, as também castelhana-leonesas Zamora (7,0% em ambas) e Sória (7,6%), a catalã Lleida, fortemente pró-independência, e a conservadora galega Ourense (7,9% nos dois casos), a andaluza Almeria, onde a extrema-direita é muito forte, e Palência, também em Castela e Leão (8,0% nas duas) e Ciudad Real, em Castela-Mancha (8,2%).

Quanto à evolução, também a esta escala só as Ilhas Baleares revelam uma dinâmica positiva (+1,7%). Depois, as menores perdas ocorreram na província catalã de Tarragona (-0,8% apenas), seguida da andaluza Córdova, da igualmente catalã Girona, da extremenha Badajoz e da castelhana-leonesa Segóvia. Estes valores refletem a menor quebra na Catalunha, enquanto a cidade cordovesa sempre foi um bastião da Esquerda Unida, cujo “núcleo duro” terá segurado a votação na UP. Nas duas últimas, a queda foi menor, porque a maioria dos votos já tinha sido perdida no último ato eleitoral. A quebra mais significativa ocorreu na aragonesa Teruel (50,0%), pelas razões acima expostas. Seguem-se Madrid, a também aragonesa Saragoça, a Rioja, as castelhano-leonesas Ávila e Zamora, a Cantábria e Múrcia. A capital do país e a de Aragão foram aquelas onde o novel Mais País melhores resultados obteve, se excetuarmos a Comunidade Valenciana, onde já tinha a base do Compromís. Como grande parte da sua votação teve origem na UP, esta foi aí mais penalizada. Nas restantes, a pequena magnitude dos círculos e a fraqueza da esquerda nessas áreas levou a uma maior amplitude do “voto útil” no PSOE, enquanto na região murciana poderá ter havido algumas transferências diretas de voto para a extrema-direita.

C’s: erros estratégicos sucessivos geram hecatombe eleitoral

Depois do êxito retumbante de abril, os Cidadãos (C’s), do centro-direita, liderados por Albert Rivera, sofreram uma verdadeira hecatombe eleitoral, vendo os 15,9% dos votos e os 57 lugares então conquistados reduzidos a 6,8% dos sufrágios e apenas 10 mandatos, o pior resultado da sua curta história.

O que explica que, após ter tocado o “céu”, tenha descido aos “infernos” pouco mais de seis meses depois?

Na primavera, o partido beneficiou da viragem do PP em direção à direita radical, o que lhe permitiu conquistar o eleitorado da direita moderada, na sua maioria urbana e tecnocrática, apoiada, em parte, no setor financeiro, mesmo deixando algum espaço ao centro para o PSOE. Por outro lado, e ao contrário dos “populares”, não fora ainda “chamuscado” por escândalos de corrupção, o que lhe permitiu atrair eleitores desiludidos com aqueles por esse motivo. O facto de ter nascido na Catalunha, para lutar contra o independentismo, e de ter uma posição espanholista e de grande intransigência na questão dos nacionalismos periféricos, facilitou-lhe, também, a entrada em vários segmentos do eleitorado mais direitista, adepto da “mão dura” na questão catalã. Dissemos, então, que a “chave” do deu êxito esteve na capacidade de ocupar um espaço vazio.

Contudo, o seu líder e os mais próximos deslumbraram-se com o grande apoio obtido nas urnas e não souberam o que fazer com os votos conquistados. Rivera apostou tudo na liderança da direita, buscando ultrapassar o PP e não percebeu os sinais que vinham da sociedade.

Quando viu que Sánchez e Iglesias não chegavam a acordo, recusou-se a “dar a mão” ao PSOE, contra a opinião da ala liberal do partido. Com essa atitude, muitos eleitores do centro-direita, que haviam votado nos C’s por verem na formação uma força moderada, capaz de romper o bloqueio político em que o país caíra, deram conta de que a sua aposta fora, afinal, inútil. Assim, a maioria deles regressou ao PP, que viu como mais capaz de liderar a direita e constituir uma alternativa aos socialistas, enquanto os mais centristas optaram pelo PSOE, que encararam como a força política mais capaz de construir “pontes” e romper o bloqueio. Por outro lado, aqueles que tinham optado pelo partido por verem nele um bastião contra os nacionalismos periféricos e, em especial, o independentismo catalão, encontraram no Vox um baluarte mais forte na defesa do nacionalismo espanholista e para lá dirigiram o seu voto, algo que foi potenciado pela irrupção da questão catalã na campanha eleitoral.

Com sondagens desfavoráveis, Rivera entrou em total desorientação estratégica, ora atacando Sánchez, ora manifestando disponibilidade para apoiar a sua investidura. A campanha entrou numa dinâmica negativa e, até ao fim, foi sempre a descer, algo que foi potenciado pelo “voto útil” no PP, em especial nas circunscrições mais pequenas. Se, na primavera, o largo espectro programático dos C´s lhes permitiu agradar a diferentes grupos de eleitores, desta vez, passou-se o contrário: não agradaram a quase ninguém e ficaram reduzidos ao seu “núcleo duro”.

O partido conservou apenas 40% do seu eleitorado de abril e pouco mais conquistou: estimamos 1% do PP, menos de 0,5% do PSOE e valores muito residuais de outras opções de voto e da abstenção. Ao invés, as perdas ocorreram em várias direções, com destaque para os 25% que foram para o PP e os 16% para o Vox, a que se somam 10% para o PSOE e 6% para a abstenção. Já com menos impacto, há ainda a registar a fuga de 1,5 % para pequenos partidos, 1% para os votos brancos e 0,5% para a UP.

Do ponto de vista da estrutura do voto, os C’s continuam a ter um eleitorado essencialmente urbano e, por isso, não surpreende que o seu melhor resultado, ao nível das comunidades autónomas, tenha voltado a ocorrer na de Madrid (9,0%). Seguiu-se Aragão (8,5%), tal como em abril, mas, agora, vêm depois a Andaluzia (8,1%) e a Comunidade Valenciana (7,7%). Já os resultados mais fracos registaram-se em Euskadi, onde não foi além de 1,1% (!...), seguido pela Galiza (4,3%), Cantábria (4,8%), Canárias (5,4%) e Catalunha (5,6%). Como seria de esperar, dadas as suas posições espanholistas, o partido sempre foi débil nas nacionalidades periféricas. No caso cantábrico, o “voto útil” e a subida do PRC explicam a sua fraca prestação.

A descida ocorreu em todas as comunidades autónomas, sem exceção. O menor decréscimo verificou-se na Catalunha (-51,7%), quiçá devido ao prestígio da sua líder regional, Inés Arrimadas, favorita a substituir Rivera na liderança do partido. Seguiram-se a Andaluzia (-54,2%), de onde aquela e o líder demissionário são originários, e Madrid (-56,9%), as únicas onde a quebra é percentualmente inferior à média nacional, a Comunidade Valenciana (-57,2%), onde é igual a esse valor, as Ilhas Baleares (-57,5%), a Extremadura (-57,8%) e Aragão (-58,5%). Já os maiores registaram-se em regiões onde é tradicionalmente mais fraco e o efeito do “voto útil” no PP mais se fez sentir: Cantábria (-68,2%), Euskadi (-64,5%) e Canárias (-63,6%),

Em Ceuta e Melilla, a votação (3,4% na primeira e 3,0% na segunda) foi bastante fraca, tendo a descida face ao anterior ato eleitoral sido mais acentuada que no resto do país (-71,7% e -76,7%, respetivamente). Algo que o facto de estarmos em presença de círculos uninominais explica, pois conduziu a uma maior pressão no sentido do “voto útil”.

No que respeita à votação a nível provincial, os resultados menos maus ocorreram na província de Saragoça (9,1%), em Aragão, logo seguidos de Madrid e de Cádiz, na Andaluzia. Vêm, depois, a igualmente andaluza Málaga e as castelhano-leonesas Salamanca e Valladolid. Por seu turno, e como é lógico, os piores desempenhos ocorreram nas três províncias bascas, com o pior resultado a registar-se na Gipuzkoa (1,0%!...) e na Bizkaia (1,1%!...), logo seguidas de Lugo, na Galiza, Lleida, na Catalunha, da também galega Ourense e da igualmente catalã Girona. Se, nos casos de Euskadi e da Catalunha, é a questão nacional que explica o resultado, na Galiza, embora esta também esteja presente em muitas áreas da região, é a maior resiliência do PP no eleitorado rural da região que explica a menor implantação dos C’s.

Em coerência com os resultados regionais, foi nas províncias catalãs e andaluzas que o decréscimo foi menos acentuado. Assim, a menor descida ocorreu na de Barcelona (-50,8%). Depois, vêm Córdova e Sevilha, na Andaluzia, Tarragona, na Catalunha, e as andaluzas Cádiz, Málaga e Granada.

Já as maiores quebras ocorrem na aragonesa Teruel (-74,6%!...), fruto do aparecimento do movimento de cidadãos em defesa da província, na Cantábria, na manchega Cuenca, na galega Ourense, na basca Gipuzkoa, nas castelhano-leonesas Ávila e Sória e, ainda, na também basca Bizkaia, em Lugo, igualmente na Galiza, Léon, e na canária Santa Cruz de Tenerife, áreas onde a pequena magnitude dos círculos ou a fraqueza do partido o levou a ser mais vítima do “voto útil” no PP.

Texto de Jorge Martins

Sobre o/a autor(a)

Professor. Mestre em Geografia Humana e pós-graduado em Ciência Política. Membro da coordenadora concelhia de Coimbra do Bloco de Esquerda
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