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Eleições em Espanha (1): a nova geografia eleitoral

No momento em que começa uma nova campanha eleitoral em Espanha, Jorge Martins analisa as passadas legislativas que deram uma vitória com maioria relativa ao PSOE, o afundamento do Partido Popular, o crescimento dos Cidadãos, a queda do Unidos Podemos e a entrada da extrema-direita no Parlamento.
Comício final da campanha da candidatura Unidas Podemos em 2016. Foto de Adolfo Lujan/Flickr

As eleições realizadas em Espanha no passado dia 28 de abril confirmaram, em parte, o que se esperava: uma vitória com maioria relativa do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), o afundamento do Partido Popular (PP), o crescimento dos Cidadãos (C’s), a queda do Unidos Podemos (UP) e a entrada em força da extrema-direita no Parlamento. Se, em todos esses casos, as variações face ao “guião” previsto foram mais de grau que de substância, o mesmo não sucedeu relativamente ao acentuado reforço das forças políticas independentistas catalães e bascas, mesmo se a subida da Esquerda Republicana da Catalunha (ERC) era previsível.

Ao contrário do que tem sucedido em alguns outros países europeus, não dispomos, para já, de informações quanto à sociologia do voto, mas podemos apresentar uma análise das eleições para o Congresso dos Deputados com base na sua geografia, tanto ao nível autonómico como provincial e, até, local.

PSOE: aproveitar o momento para triunfar

O PSOE, de centro-esquerda, liderado pelo primeiro-ministro demissionário, Pedro Sánchez, foi o claro vencedor do ato eleitoral, obtendo 28,7% dos votos válidos e elegendo 123 deputados, quando, em 2016, se havia quedado por 22,6% e 85 eleitos.

Beneficiando da colocação do PP na direita pura e dura e da deslocação dos C’s na direção do centro-direita, os socialistas ficaram com margem de manobra suficiente para ocupar o espaço deixado livre ao centro. Por seu turno, os erros e contradições do UP, em especial o seu desconforto relativamente ao desafio independentista catalão, permitiram-lhe recuperar uma parte do eleitorado que haviam perdido para a sua esquerda, em especial nos anos da crise.

Por outro lado, Pedro Sánchez beneficiou do facto de ser o presidente de governo em funções. Este, embora minoritário, com o apoio da esquerda e dos independentistas, reverteu a parte mais dura da austeridade do executivo de Rajoy. Ao mesmo tempo, no seu curto exercício, tomou algumas medidas populares, como a subida do salário mínimo. Por isso, ainda não tinha perdido a totalidade do “estado de graça”.

Na questão catalã, não saiu da posição tradicional do partido, oposta à autodeterminação das nacionalidades periféricas, mas sem a intransigência da direita. Daí não ter cedido às exigências dos separatistas para viabilizar o orçamento, o que levou à queda do seu gabinete. Com essa atitude, evitou perder votos entre os eleitores centristas e mais próximos do espanholismo.

Os socialistas conservaram mais de 88% dos seus eleitores de há três anos. Contudo, para a subida da sua votação e consequente vitória eleitoral, a maior fatia dos ganhos socialistas veio de 8% do conjunto formado por abstencionistas de 2016 e novos eleitores, seguida de perto pelos 17% ganhos ao UP e os 10% retirados ao PP. Em menor proporção, também 10% dos C’s, a que se junta uma pequena porção constituída por cerca de 15% de pequenos partidos e votos brancos. Já nos eleitorados independentistas e regionalistas pouco conseguiu penetrar. Quanto a perdas, foram residuais: 2% na direção de C’s, Vox, outros e brancos, bem como da abstenção, 1,5% do UP e apenas 0,5% do PP.

O PSOE venceu em todas as comunidades autónomas, à exceção da Catalunha, País Basco/Euskadi e Navarra. Nas cidades autónomas do norte de África, venceu em Ceuta e perdeu em Melilla. Ao nível provincial, venceu na maioria das províncias, com exceção de três das quatro catalãs (só ganhou na de Barcelona), das três bascas, de Navarra, das duas galegas do interior (Ourense e Lugo) e das conservadoras Salamanca e Ávila, em Castela-Leão.

O partido teve os seus melhores desempenhos nas áreas rurais do Centro-Sul e Sul do país, onde é tradicionalmente forte. Ao nível das comunidades autónomas, o seu melhor resultado ocorreu na Extremadura (38,1%), seguido da Andaluzia (34,2%), regiões onde tem o apoio de boa parte dos assalariados agrícolas e seus descendentes urbanos. Teve, igualmente, uma boa prestação nas Astúrias (33,1%), região mineira onde a esquerda tem bastante implantação, e em Castela-Mancha (32,4%), mas também nas mais conservadoras Galiza (32,1%), Aragão e La Rioja (31,7% em ambas). Em contrapartida, os seus piores resultados ocorrem nas duas comunidades mais independentistas: Euskadi (19,9%) e Catalunha (23,2%), o que não é de estranhar, dada as posições espanholistas do partido, mesmo que mais moderadas que as da direita. As uniprovinciais e conservadoras Múrcia (24,8%), Cantábria (25,2%) e Navarra (25,8%) foram outras regiões onde os socialistas ficaram, claramente, abaixo da média nacional.

Apesar de tudo, foi em algumas das zonas onde foi menos votado que teve os maiores acréscimos percentuais: Navarra (+48,3%), Galiza (+44,6%) e Catalunha (+44,1%). O contrário sucedeu com os menores, que ocorreram em partes do território onde dispõe de maior apoio: Extremadura (+10,4%), Andaluzia (+9,6%) e Cantábria (+7,2%). Neste último caso, tal deve-se, em grande parte, ao facto de o Partido Regionalista da Cantábria (PRC), que habitualmente, se ficava pelas eleições autonómicas, ter concorrido às gerais, “roubando” votos às outras forças políticas.

Entretanto, o PSOE teve um comportamento contraditório nas duas praças espanholas do Norte de África: subiu 60,6% em Ceuta, onde venceu com 36,3% dos sufrágios, e recuou 17,5% em Melilla, também fruto do bom resultado da Coligação por Melilla (CpM), uma cisão de esquerda no partido, protagonizada pelos seus militantes de origem árabe, que obteve 20,4% dos votos, quase tanto como os socialistas (20,7%).

Ao nível provincial, o melhor resultado ocorreu na andaluza Jaén (39,5%), seguido das duas províncias extremenhas (Badajoz e Cáceres, por esta ordem), de Sevilha e Huelva, ainda na Andaluzia, de Cuenca, em Castela-Mancha, e das igualmente andaluzas Córdova e Granada, intercaladas pela também manchega Ciudad Real. Sem estranheza, foi nas províncias bascas e catalãs que o seu desempenho foi mais fraco, em especial naquelas onde o sentimento independentista é maior: Lleida (16,7%, o valor mais baixo) e Girona, na Catalunha, Gipuzkoa e Bizkaia, em Euskadi. Seguiram-se, por esta ordem, a catalã Tarragona, a basca Araba/Álava e, por fim, Barcelona, apesar de o desejo de independência ser, nestas três últimas, menos forte.

Relativamente à evolução, a maior subida teve lugar em Navarra (+48,3%), logo seguida da galega Pontevedra e de Barcelona. Depois, Corunha, as bascas Bizkaia e Araba/Álava e as também galegas Ourense e Lugo foram províncias onde os acréscimos foram superiores a 40%. Já as menos acentuadas ocorreram nas andaluza Huelva (apenas +3,4%), Jaén (curiosamente, onde logrou a maior percentagem nacional), Cantábria e em mais duas andaluzas (Almeria e Granada), intercaladas pela extremenha Badajoz. Em todas elas, cresceu menos de 10%.

PP: tática errada provoca hecatombe eleitoral

O Partido Popular (PP), de direita, liderado por Pablo Casado, sofreu a maior derrota eleitoral da sua história, com um resultado ainda pior do que previam as sondagens, já de si muito pouco risonhas para os “populares”. Depois de ter sido o mais votado em 2016, com 33,0% dos sufrágios, que lhe permitiram eleger 137 deputados, caiu para pouco mais de metade, tendo obtido apenas 16,7% e 66 lugares no Congresso, perdendo mais de metade do grupo parlamentar. Pior era difícil!...

A braços com uma governação de Rajoy marcada pela austeridade extrema, que elevou o desemprego a níveis insustentáveis, com o consequente aumento da pobreza, de que os “despejos” foram uma das principais marcas, e pelos escândalos de corrupção a todos os níveis do poder (nacional, regional e local), quase sempre envolvendo dirigentes do partido, trazia atrás de si um lastro difícil de esconder. A isso se soma a forma como lidou com o desafio independentista da Catalunha, que lhe valeu críticas, tanto à esquerda (que considerou a reação do governo central desproporcionada) como à direita (que a entendeu como tímida). Por isso, a nova liderança do partido tinha uma tarefa nada fácil nestas eleições.

Porém, face à irrupção do Vox, da extrema-direita, nas autonómicas andaluzas de dezembro, a direção do PP cometeu um erro fatal: fez pender o seu discurso para a direita, não apenas na questão da Catalunha e dos nacionalismos periféricos, onde reafirmou, de forma mais dura que habitualmente, a sua posição espanholista, de total oposição aqueles e a necessidade de “mão dura” sobre o independentismo catalão, mas também no que respeita à imigração e às questões de género. Com essa viragem, pouca votação retirou à extrema-direita, cujos potenciais eleitores preferem o original à “fotocópia”, como referi anteriormente, e deixou um imenso espaço no centro-direita, que o C’s aproveitou para crescer.

O partido conservou apenas 55% dos que nele votaram nas últimas eleições. A maior percentagem de votos perdidos pelos “populares” foi na direção do Vox (15%), seguindo-se os C’s (11,5%) e o PSOE (10%), a que se juntam 4% que fugiram para a abstenção, 2,5% para pequenos partidos e votos brancos e perdas residuais para a esquerda. Cerca de 1% foi para a coligação Navarra Suma (NA+), que juntou PP e o seu aliado local, a União do Povo Navarro (UPN), com o ramo navarro dos C’s. Os pouquíssimos ganhos vieram de 1% de abstencionistas e novos eleitores, de 2% de pequenos partidos e brancos, de 1,5% dos C´s e de valores residuais dos socialistas.

O PP não venceu em nenhuma comunidade autónoma, tendo apenas obtido um triunfo tangencial na cidade autónoma de Melilla. Ao nível provincial, só venceu em quatro províncias: as de Ourense e Lugo, na Galiza interior, e as de Salamanca e Ávila, em Castela-Leão. E, à exceção desta última, bastião da direita religiosa, as suas vantagens foram tangenciais.

Os seus melhores resultados ocorreram na Galiza (27,4%), Rioja (26,5%) e Castela-Leão (26,1%), regiões onde é tradicionalmente forte, em especial nas áreas rurais mais envelhecidas. Ao invés, e como é igualmente tradicional, os piores ocorreram na Catalunha e em Euskadi. Contudo, atingiram níveis inimagináveis: na primeira, não foi além de 4,9% dos votos e apenas um deputado, um dos 32 eleitos em Barcelona, enquanto na segunda se quedou pelos 7,4%, mas, dada a menor magnitude dos círculos provinciais, sem obter qualquer lugar parlamentar. Maus desempenhos, igualmente, nas comunidades autónomas insulares (15,5% nas Canárias e 16,8% nas Baleares), bem como na Andaluzia (17,2%) e nas Astúrias (17,9%), onde os jornaleiros, na primeira, e os mineiros, na segunda, tendem a ser hostis à direita.

As perdas foram generalizadas em todo o território, mas, ao contrário do que sucedeu com os socialistas, as maiores ocorreram exatamente nas áreas onde o partido já é, habitualmente, mais fraco: Catalunha (-63,4%), Euskadi (-58,8%), Canárias (-54,1%), Baleares e Andaluzia (-52,1% em ambas) e Astúrias (-51,4%). Como se pode verificar, em todas elas perdeu mais de metade do seu eleitorado de há quatro anos. Se as suas posições espanholistas lhe asseguram, à partida, maus resultados nas duas primeiras, a sua posição de grande dureza face ao processo independentista catalão levou-o ao seu afundamento total na Catalunha, extensível a terras bascas, onde o desejo de independência é, igualmente, forte. Terá sido esse o fator que levou à sua quebra nas Canárias, onde, apesar de os setores separatistas serem minoritários, existe um forte sentimento autonomista, derivado da sua especificidade insular e da distância ao continente peninsular, e nas Baleares, onde parte da população se identifica com o catalanismo, mesmo não pretendendo a independência. Na Andaluzia e nas Astúrias, pagou pelas políticas de austeridade, que empobreceram populações já de si pobres.

Ao invés, aguentou-se um pouco menos mal na Galiza (“apenas” -34,0%), onde dispõe de uma importante rede clientelar e o presidente da comunidade e do PP regional, Alberto Núñez Feijóo, encarna a ala centrista do partido, bem como na agrícola Rioja (-37,8%) e, em menor grau, na interior, envelhecida e conservadora Castela-Leão (-41,1%).

Nas praças norte-africanas, venceu em Melilla, com apenas 23,9% dos votos, devido à divisão da esquerda, e sofreu uma derrota esmagadora em Ceuta, onde se ficou pelos 21,4%. Na primeira, perdeu 42,6% e na segunda 47,5% dos votos de há três anos.

Ao nível provincial, o partido teve os melhores resultados nas galegas Ourense (34,3%, a melhor em todo o território) e Lugo, seguida de várias províncias de Castela-Leão (Ávila, Zamora, Palência, Salamanca e Segóvia, por esta ordem), a que se segue a manchega Cuenca, Sória (também em Castela-Leão) e Rioja, áreas onde o eleitorado é, em geral, rural e idoso, e manteve alguma fidelidade aos “populares”. Em contrapartida, os piores ocorreram, como seria de esperar, nas sete entidades provinciais da Catalunha e Euskadi. O ponto mais baixo ocorreu na catalã Girona, onde se quedou por uns modestíssimos 3,2% (!...), seguidos de Lleida, Barcelona e da basca Gipuzkoa (5,0% em todas), de Tarragona, da Bizkaia e de Araba/Ávila, sendo que só nesta última província ultrapassou os 10%.

C’s: saber ocupar um “espaço vazio” rendeu

Os Cidadãos (C’s), do centro-direita, liderados por Albert Rivera, têm motivo para sorrir, pois conseguiram um bom resultado, subindo de 13,1% e 32 deputados em 2016 para 15,9% e 57 lugares agora.

O partido beneficiou da viragem do PP em direção à direita radical para conquistar o eleitorado da direita moderada, na sua maioria urbana e tecnocrática, apoiada, em parte, no setor financeiro, mesmo deixando algum espaço ao centro para o PSOE. Por outro lado, e ao contrário dos “populares”, não foi ainda “chamuscado” por escândalos de corrupção, o que lhe permitiu atrair eleitores desiludidos com aqueles por esse motivo. O facto de ter nascido na Catalunha, para lutar contra o independentismo, e de ter uma posição espanholista e de grande intransigência na questão dos nacionalismos periféricos, facilitou-lhe, também, a entrada em vários segmentos do eleitorado “pepero”, adepto da “mão dura” na questão catalã.

O partido conservou 76% do seu eleitorado de 2016. Para a sua subida eleitoral, muito contribuíram os 11,5% de votos oriundos do PP e os 6,5% vindos da abstenção e novos eleitores. A esses, ainda se podem juntar pequenas fatias, correspondentes a 2% do PSOE, igual percentagem do UP e, em menor grau, 7,5% de pequenos partidos - em especial, da moribunda União, Progresso e Democracia (UPyD), que integrou as suas listas - e votos brancos. Quanto às perdas, as mais significativas foram os 10% em direção ao PSOE, seguido dos 5% para o Vox. Em menor proporção, 2,5% para a abstenção e igual valor percentual para pequenas formações e brancos e, ainda, 1,5% para PP e UP. Entretanto, 0,5% foram a coligação navarrina NA+, que integrava juntamente com o PP local.

Os C’s obtiveram os melhores resultados nas áreas urbanas. Não surpreende, assim, que o seu melhor resultado, ao nível das comunidades autónomas, tenha ocorrido na de Madrid (20,9%). Seguiram-se outras em que o PP era tradicionalmente forte e, portanto, onde o partido foi buscar mais votos: Aragão (20,5%), Múrcia (19,5%) e Castela-Leão (18,9%). Como seria de esperar, dadas as suas posições anti-independentistas, foi nas nacionalidades periféricas que os C’s tiveram os piores desempenhos: em Euskadi, foi particularmente mau, tendo-se quedado por uns escassos 3,1%, sendo logo seguido pela Galiza (11,2%), Catalunha (11,6%) e, mesmo, as Canárias (14,7%).

O partido registou os maiores crescimentos na Extremadura (+71,4%) e nas regiões centrais do planalto castelhano: Castela-Mancha (+34,6%) e Castela-Leão (+33,1%). Seguiram-se as Astúrias (+32,1%), onde terá captado eleitores do Fórum Asturiano de Cidadãos (FAC), que concorreu aliado ao PP. Também acima da média as subidas na Galiza (+30,2%), onde não tem grande implantação, e na Andaluzia (+30,1%).

A única descida ocorreu em Euskadi, onde já era fraco (-11,4%), mas também teve um crescimento reduzido na Cantábria (+4,9%), devido ao aparecimento do PRC, e na Catalunha (+6,4%). Este último resultado soube a desilusão, após o brilharete nas autonómicas, onde foram o partido mais votado e que, por isso, parecia ter tomado a liderança do campo anti-independentista. O aumento da participação e algum “voto útil” nos socialistas podem explicar, em parte, este desfecho.

Em Ceuta e Melilla, a votação (12,0% na primeira e 12,9% na segunda) ficou abaixo da média, com acréscimos reduzidos (+4,3% e +4,0%, respetivamente). O facto de estarmos em presença de círculos uninominais levou a uma maior pressão no sentido do “voto útil”, o que prejudicou o partido.

No que respeita à votação a nível provincial, os melhores resultados ocorreram em Madrid, como já se esperava, e em Saragoça (ambas com 20,9%), o que explica o bom desempenho dos C’s em Aragão. Seguiram-se as que, em Castela-Leão, comportam algumas cidades de média dimensão (Salamanca, Valladolid, Segóvia e Burgos, por esta ordem), a que se seguem a andaluza litoral Cádiz, as duas restantes aragonesas (Teruel e Huesca), de novo uma andaluza litoral (Málaga) e a valenciana Alicante.

Por seu turno, e como é lógico, os piores desempenhos ocorreram nas três províncias bascas, com o pior resultado a registar-se na Gipuzkoa (2,9%!...), logo seguida das duas mais independentistas catalãs (Lleida e Girona), de três galegas (Lugo, Ourense e Pontevedra), de Barcelona, da restante galega (Corunha) e da também restante catalã (Tarragona). Se, nos casos de Euskadi e da Catalunha, é a questão nacional que explica o resultado, na Galiza, embora esta também esteja presente em muitas áreas da região, é a menor amplitude da fuga do eleitorado rural ao PP que explica este menor fulgor dos C’s.

Como se poderia esperar, dada a grande subida ocorrida nessa comunidade autónoma, foi nas províncias extremenhas de Badajoz (onde atingiu +72,9%) e de Cáceres que registou o seu maior crescimento eleitoral. Seguiram-se outras rurais, como a galega Ourense, a andaluza Jaén, a aragonesa Teruel, Zamora (Castela-Leão), Cuenca e Ciudad Real (Castela-Mancha) e Huesca (também em Aragão), fruto do eleitorado “roubado” ao PP.

Pela negativa, as descidas nas três províncias bascas, com destaque para Araba/Álaba (-20%) e para as subidas “poucochinhas” em Barcelona e na Cantábria (nesta última, devido ao aparecimento do PRC), nas quais o acréscimo foi inferior a 5%, seguidas da catalã Tarragona e da valenciana Castellón, ambas na casa dos +10%.

UP: um mau resultado, mas podia ter sido pior

A aliança de esquerda Unidos Podemos (UP), liderada por Pablo Iglesias, registou uma forte quebra face às eleições de 2016, tendo obtido 14,3% dos votos e 42 mandatos, contra os 21,2% e 71 lugares de há quatro anos. Mesmo sendo uma quebra substancial, já que perdeu quase 1/3 do seu eleitorado de há três anos, não foi tão grande como previam algumas sondagens.

O UP, que junta o Podemos, força política com pretensões basistas, surgida do movimento dos “indignados”, e a Esquerda Unida (IU), coligação de várias formações de esquerda, onde pontifica o Partido Comunista de Espanha (PCE), sentiu a frustração de, nas últimas eleições, não ter conseguido a ultrapassagem (o famoso “sorpaso”) ao PSOE. Ou seja, perdeu a hipótese de assumir a liderança da esquerda, quando parecia ter tudo para o conseguir. A partir daí, tomou algumas decisões controversas, como o não ter viabilizado o executivo PSOE-C’s, em 2016, permitindo que o PP voltasse ao poder, e, mais tarde, apoiando os socialistas, após a queda de Rajoy, o que desagradou a diferentes segmentos do seu eleitorado. Também a coligação com a IU afastou alguns eleitores do Podemos, em especial os descontentes com pouca consistência ideológica, que preferiam que este fosse uma força política de tipo populista, mais centrada na participação cidadã e não alinhada à esquerda. Esse fator foi o início de uma divergência interna, protagonizada por Iñigo Errejón, que assumiu uma aliança para as autonómicas de Madrid com a “alcaldesa” da capital, Manuela Carmena, à revelia da direção do partido. A isso se somou o esboroar de algumas confluências regionais, que sofreram diversas cisões. Mas, mais importante, o processo independentista catalão deixou a UP numa posição difícil, pois é o único dos grandes partidos espanhóis favoráveis à autodeterminação (mas não à independência) das nacionalidades periféricas, o que o levou a perder votos, tanto da parte da esquerda mais espanholista como da independentista. Por fim, os maus indicadores nas sondagens, num contexto de aparecimento de uma extrema-direita forte, que poderia determinar uma maioria parlamentar e governativa direitista com a sua participação, levou ao “voto útil” de muitos eleitores de esquerda nos socialistas.

A aliança da esquerda conservou apenas cerca de 61% do seu eleitorado de 2016. Deixou fugir votos em todas as direções, mas foi para o PSOE que foram 17%, ou seja, mais de 1/6 dos seus votantes. Das restantes perdas, 4% foram para o Vox e outros tantos para a abstenção, 2,5% para a ERC, da esquerda independentista catalã, e igual percentagem para o Compromís valenciano, tal como para pequenas forças políticas e brancos, 2% para os C’s e o mesmo valor para os animalistas do PACMA, 1% para o EH Bildu, da esquerda independentista basca, e valores residuais para outras forças separatistas, autonomistas e regionalistas. Os ganhos são poucos, mas destacam-se os 4% obtidos na abstenção e jovens eleitores, que terão evitado uma quebra ainda maior. De resto, apenas conseguiu retirar 1,5% ao PSOE e aos C’s, a que se juntam, residualmente, 10% vindos do PACMA, 7,5% de pequenos partidos e votos brancos e pequenas porções de algumas forças independentistas e regionalistas.

Curiosamente, a conservadora Navarra foi a comunidade autónoma onde a formação obteve a maior percentagem de votos (18,7%), seguida das Baleares (17,8%) e, mais logicamente, pois são regiões onde a esquerda é forte, Euskadi (17,6%) e Astúrias (17,2%). Já os desempenhos mais fracos ocorreram em comunidades rurais ou mais conservadoras, mas onde, em geral, os círculos eleitorais têm pequena magnitude: Extremadura (9,5%), Cantábria e Castela-Mancha (10,2% em ambas), Castela-Leão e Múrcia (10,4% nas duas) e, ainda, a Rioja (11,8%). Na maioria delas, terá funcionado de forma mais acentuada o “voto útil” no PSOE.

As perdas também ocorreram em todo o país, mas atingiram maior dimensão na Comunidade Valenciana (-44,1%), onde o Compromís, que havia integrado a sua confluência em 2016, tomou a decisão de concorrer em separado. Seguiu-se a Cantábria (-42,4%), consequência do já muito referido aparecimento do PRC, e as nacionalidades periféricas: Euskadi (-39,5%), Catalunha (-39,2%) e Galiza (-37,4%). Nas duas primeiras, terá perdido votos para as esquerdas independentistas (EH Bildu e ERC, respetivamente) e na última pagou o preço do desmoronamento de parte da sua confluência, com o abandono da Marea, que concorreu isoladamente, e da Anova, que decidiu não participar no ato eleitoral.

Ao invés, teve perdas menos acentuadas nas Canárias (-22,7%), Andaluzia (-23,7%) e em Madrid (-23,9%). A formação conseguiu, então, segurar algum eleitorado urbano, em especial em áreas onde a esquerda tem apoio acima da média e a magnitude de alguns círculos é maior.

As praças norte-africanas, com um eleitorado muito conservador, foram um terreno pouco fértil para o UP, que aí registou os piores resultados nacionais: 3,8% em Melilla e 4,3% em Ceuta. Foi também nessas cidades autónomas que registou as descidas mais acentuadas, com a perda de 61,2% de votos na primeira e de 55,6% na segunda. O facto de estarmos em presença de círculos uninominais levou ao aumento do “voto útil”, que o penalizou, tal como ocorrera, à direita, com os C’s, a que acresce o aparecimento da Coligação por Melilla (CpM), uma formação de esquerda que lhe ganhou alguns eleitores, em especial árabes.

Ao nível provincial, Navarra e Baleares foram aquelas onde os resultados foram melhores, como referimos a propósito das comunidades autónomas, já que estas duas são uniprovinciais, seguida de duas províncias de Euskadi (Bizkaia e Araba/Álava), da galega Pontevedra e da terceira basca, Gipuzkoa, as Astúrias, a canária Las Palmas, a andaluza Cádiz, vindo depois Barcelona, Madrid e Sevilha, que integram três das quatro maiores cidades do país. Por seu turno, os piores ocorreram nas áreas rurais mais conservadoras do interior: Ávila (7,6%, o valor mais baixo) e Salamanca, ambas em Castela-Leão, a manchega Cuenca, as também castelhana-leonesas Zamora e Sória, intercaladas pela catalã Lleida, fortemente pró-independência, a andaluza Almeria, litoral mas onde se verificou um forte crescimento da extrema-direita, e a galega Ourense.

As maiores perdas ocorreram na províncias catalã de Lleida (-50,3%), em Valência e em outras duas da Catalunha (Tarragona e Girona). Em ambos os casos, as cisões nas suas confluências regionais explicam esses resultados: da Comunidade Valenciana já falámos acima, enquanto na Catalunha uma parte da En comú podem (ECP) cindiu-se e criou uma pequena formação pró-independentista (os Sobiranistes), que concorreram aliados à ERC. Quebras significativas em Sória (Castela-Leão), onde apenas são eleitos dois deputados, o que potencia o “voto útil”, na basca Araba/Álava, na galega Ourense, na valenciana Castellón, na Cantábria e na igualmente castelhano-leonesa Zamora, onde esse efeito também se verifica.

Vox: O “ladrar dos cães”, mas não tão alto como se esperava

O Vox, partido da extrema-direita, liderado por Santiago Abascal, que se havia ficado por uns residuais 0,2% nas últimas eleições gerais, obteve agora 10,3%, o que lhe assegurou a eleição de 24 deputados. É certo que ficou aquém do que algumas sondagens lhe atribuíam, o que provocou alguma desilusão, não assumida entre os seus dirigentes, mas que foi visível entre os seus apoiantes. Todavia, convém não subestimar o seu resultado, que marca o regresso em força da extrema-direita ao Congresso, onde esteve representada apenas pelo deputado Blas Piñar, então líder da Fuerza Nueva (FN), entre 1979 e 1982.

Para o seu súbito crescimento, contribuíram: a crise económica do início da década, que levou a um enorme aumento da pobreza e do desemprego, que atingiu taxas elevadíssimas, em especial entre os jovens, e que se mantém muito elevado em algumas áreas do país; os casos de corrupção envolvendo inúmeros dirigentes nacionais, regionais e locais do PP e alguns do PSOE, que descredibilizaram a generalidade da classe política; alguma desilusão com os novos partidos surgidos durante a crise (Podemos e Cidadãos) e que muitos acreditaram poder mudar o sistema de um dia para o outro; o aumento da imigração de origem magrebina em várias áreas do país, em especial na costa andaluza e na capital, e que alimenta a retórica racista, xenófoba e islamofóbica do partido; o aumento do poder dos movimentos sociais (feminista, LGBTI, pelo direito à habitação, ambientalista e animalista) que colocam em causa a ordem e os costumes tradicionais; a crescente laicização da sociedade, a que se opõe a conservadora Igreja Católica espanhola, e, talvez como principal combustível para a extrema-direita, o processo independentista catalão, que reacendeu os fantasmas da divisão de Espanha entre os setores mais reacionários do nacionalismo castelhano. Acresce, ainda, o carisma do seu líder, antigo dirigente do PP basco, cuja temível oratória entusiasma, não apenas os mais ferranhos dos seus apoiantes, mas também os mais incautos.

A formação da extrema-direita conservou cerca de 95% do seu escassíssimo eleitorado de há três anos, pelo que, para conseguir o resultado que atingiu, teve de ir buscar os seus votos a todos os partidos de maior dimensão, exceção feita, como é natural, às forças independentistas. A maior fatia veio de 15% do PP, seguida de 8,5% de abstencionistas e jovens eleitores, sendo que estas duas componentes representam cerca de 80% dos seus votantes. A esses, há, ainda, a acrescentar 4% do UP, 5% dos C’s, 2% do PSOE e, ainda, quase 15% do conjunto constituído por pequenos partidos e votos em branco.

O Vox obteve os seus melhores resultados no Sul e Centro-Sul do país, com destaque para a comunidade autónoma de Múrcia (18,6%). Seguiram-se Castela-Mancha (15,3%), Madrid (13,9%) e Andaluzia (13,4%). Ao invés, nas nacionalidades periféricas e nas comunidades com alguma identidade própria, o espanholismo radical do partido teve grandes dificuldades em penetrar. Por isso, os seus resultados ficaram muito abaixo da média em Euskadi (2,2%) e na Catalunha (3,6%) e também não foram famosos em Navarra (4,8%), na Galiza (5,3%) e nas Canárias (6,6%).

Nas últimas eleições, apenas tinha atingido os 0,5% em Madrid e em Ceuta, ficando abaixo em todas as outras autonomias, pelo que não faz sentido comparar os acréscimos percentuais regionais, todos na casa dos milhares.

De destacar, como seria de esperar, os bons resultados obtidos nas praças do norte de África, onde o nacionalismo espanholista é muito forte. Assim, em Ceuta, obteve o seu melhor resultado nacional, tendo sido segundo, atrás do PSOE, com 24,0%. Em Melilla, ficou um pouco abaixo, mas atingiu os 16,8%, ficando na quarta posição, atrás de PP, PSOE e CpM, mas a apenas sete pontos de distância do primeiro, que venceu.

Ao nível provincial, o Vox conseguiu o melhor resultado no território peninsular na província de Almeria (19,2%), no Sueste da Andaluzia, onde a pressão migratória é maior, tendo vencido no município de El Ejido, tal como nas autonómicas andaluzas de dezembro. Segue-se, por razões semelhantes, a vizinha Múrcia (18,6%). Depois, vêm as manchegas Toledo, Guadalajara (as duas acima dos 16,5%) e Albacete, a ultraconservadora e religiosa Ávila (Castela-Leão), as andaluzas Granada e Málaga, também devido ao peso da imigração nos seus litorais, a igualmente manchega Cuenca, Madrid e, ainda, a castelhana-leonesa Valladolid e Ciudad Real, a quinta de Castela-Mancha, onde obteve votações maiores que 13,5%. Para além da questão imigratória, o facto de um grande número de andaluzes e uma quantidade apreciável de murcianos e manchegos ter migrado para a Catalunha, onde tinham empregos subalternos, ao serviço da burguesia catalã, leva a um ressentimento profundo dos povos dessas regiões face aos catalães, pelo que a oposição frontal da extrema-direita ao processo independentista ter-lhe-á granjeado muitos votos nessas regiões. Por outro lado, apesar de a exploração de que foram vítimas por parte das elites locais terratenentes ter puxado muitos deles para a esquerda, a verdade é que, em algumas áreas mais rurais, estamos em presença de populações conservadoras e tradicionalistas, que veem com maus olhos a defesa dos direitos das mulheres e das comunidades LGBT ou os apelos ao fim da caça e das touradas. Daí o facto de o Vox ter aí captado muitos eleitores.

Como seria expectável, os piores resultados surgiram nas províncias bascas e catalãs, regiões onde a sua votação foi baixa, pelas razões acima indicadas. Em Euskadi, na Gipuzkoa registou a sua pior votação a nível nacional (1,6%), logo seguida da Bizkaia. Vêm a seguir as catalãs Lleida e Girona, seguida da terceira basca, Araba/Álava, e as restantes catalãs, Barcelona e Tarragona, com a galega Pontevedra pelo meio, e Navarra. Em todas elas, não chegou aos 5%. Seguem-se as restantes três galegas (Ourense, Corunha e Lugo, por esta ordem) e as duas canárias (Santa Cruz de Tenerife e Las Palmas), todas abaixo de 7%. Confirma-se, pois, que os nacionalismos e regionalismos periféricos são uma barreira à progressão do nacionalismo espanholista mais extremista, de que o Vox é o principal representante.

As formações independentistas, autonomistas e regionalistas

As forças independentistas, autonomistas e regionalistas saíram, em geral, fortalecidas deste ato eleitoral, algo que se deveu, em muito, à mobilização dos seus eleitores, em especial na Catalunha. Assustados com a possibilidade de uma maioria de direita, com a participação do Vox, partido que lhes lembra os tempos sinistros do franquismo, acorreram em massa às urnas, ao contrário do que é seu hábito nas eleições gerais espanholas.

ERC: na liderança do independentismo catalão

A mais votada foi a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), aliada aos Sobiranistes, uma dissidência no ECP, a confluência regional do UP. Liderada por Oriol Junqueras, atualmente preso, devido à sua participação no processo independentista, obteve um resultado histórico: 3,9% dos votos a nível nacional, que lhe valeram a conquista de 15 mandatos. Com estes números, tornou-se, claramente, na maior força do nacionalismo catalão. Em 2016, aliada a outra pequena formação da esquerda soberanista, já tinha sido a mais votada de entre os independentistas, conseguindo 2,6% dos sufrágios e nove parlamentares.

Com uma plataforma eleitoral relativamente moderada, em que se dispôs a negociar um acordo com o governo de Madrid, em troca da libertação dos presos e do regresso dos exilados, no quadro de uma amnistia relativamente ao processo independentista, e declarou apoiar a investidura de Pedro Sánchez como primeiro-ministro, se este necessitasse do seu apoio para governar, deu uma imagem de sensatez, que lhe permitiu ganhar votos em setores mais moderados do campo independentista e, até, captar alguns votantes habituais da esquerda espanholista.

Assim, conservou 91% dos seus eleitores de há três anos, mas o seu êxito deve-se muito ao aumento da participação eleitoral, tendo conquistado 2% de abstencionistas e jovens eleitores, 2,5% vindos da En comú Podem (ECP), a confluência catalã do UP, e perto de 15% da antiga Convergência Democrática da Catalunha (CDC), que daria origem ao PDeCAT, e cerca de 0,5% do PSOE. As perdas foram residuais e distribuíram-se por outras formações independentistas e de esquerda, bem como pela abstenção, pequenos partidos e votos brancos.

Na Catalunha, foi a força política mais votada, com 24,6% dos votos, contra 23,2% do PSOE. Venceu claramente em Lleida e com um avanço razoável em Girona (em ambas, sobre a outra lista nacionalista, os JxCat) e, mais surpreendentemente, em Tarragona (sobre os socialistas). Por seu turno, perdeu em Barcelona, mas ficou apenas a 1,7% destes últimos.

Foi nas províncias tradicionalmente menos pró-independência que mais cresceu, devido também ao aumento da participação eleitoral: Barcelona (+38,6%) e Tarragona (+38,1%). Forte subida, igualmente, em Lleida (33,1%) e menor em Girona, a terra natal do ex-presidente Puigdemont (“apenas” 13,7%).

JxCat: alívio com queda “poucochinha”

O centro-direita nacionalista catalão apresentou-se, nestas eleições, debaixo da designação Junts per Catalunya (JxCat), que agrupou o Partido Democrata Europeu da Catalunha (PDeCAT) e a sua antecessora, entretanto reativada Convergência Democrática da Catalunha (CDC), bem como da Crida Nacional per la República (CNxR), fundada com o objetivo (falhado) de haver apenas uma lista independentista, e independentes. O seu mentor foi o ex-presidente da Generalitat, Carles Puigdemont, atualmente exilado em Bruxelas, na sequência do processo independentista. Dado não poder encabeçar a lista, foi esta liderada por Jordi Sànchez, ex-presidente da Assembleia Nacional Catalã (ANC), atualmente preso pelo mesmo motivo.

Ao contrário da ERC, o JxCat mostrou uma postura mais desafiadora face ao governo de Madrid. Contudo, e como referimos em anterior artigo, para além de a fuga de Puigdemont ter sido mal vista em certos meios independentistas, as guerras internas que se seguiram ao desaparecimento da CiU, após as denúncias de corrupção e fuga ao fisco que atingiram o seu líder histórico, Jordi Pujol, e a posterior falência e reativação da CDC, afastaram muitos seguidores da direita independentista e as sondagens auguravam um péssimo resultado aos JxCat. Porém, a mobilização dos setores pró-independência permitiu à lista obter um resultado honroso, com 1,9% dos votos a nível nacional e a eleição de sete deputados, uma descida pequena face a 2016, quando obtivera 2,0% e conseguira oito eleitos.

Comparando com os resultados da CDC em 2016, os JxCat terão segurado 74% dos eleitores daquela. As maiores perdas foram na direção da ERC (14%), a que se juntam 4% para pequenas formações políticas (em especial a Frente Republicana), 3% para a ECP/UP, 2,5% para a abstenção e 1,5% para o PSOE. Quanto a ganhos, valeram-lhe os 3% de votos conseguidos na abstenção e novos eleitores, 0,5% na ECP/UP e valores residuais na ERC, pequenos partidos e brancos.

Na Catalunha, foi apenas a quarta força política mais votada, com 12,1% dos sufrágios, atrás de ERC, PSOE e ECP/UP. O seu melhor resultado ocorreu na província de Girona, de onde Puigdemont é natural, com 22,4%, logo seguido de Lleida, onde possui forte implantação. Mais fracos foram os seus desempenhos em Tarragona e, principalmente, em Barcelona, onde não foi além de 10,1%.

As suas perdas ocorreram em toda a comunidade autónoma e estão em consonância com os resultados: a menor ocorreu em Girona (-3,8%), seguida de Lleida (-8,4%), Tarragona (-10,2%) e Barcelona (-17,9%). Ao mesmo tempo, revelam-se quase simétricas face às subidas da ERC ao nível provincial, o que mostra as transferências verificadas entre os dois eleitorados, com benefício para esta última

EAJ/PNV: moderação valeu reforço eleitoral

O Partido Nacionalista Basco (EAJ/PNV), de centro-direita, liderado por Aitor Esteban, foi o mais votado em Euskadi, tendo obtido 1,5% dos sufrágios a nível nacional e eleito seis deputados. Uma subida face a 2016, quando se ficara por 1,2% e cinco lugares.

Formação democrata-cristã, muito ligada à Igreja Católica basca, tem como objetivo final a independência do território, mas tem-se mantido confortável dentro do modelo autonómico, embora a sua posição face à luta armada da ETA fosse de alguma ambiguidade: não concordava com os seus métodos, mas manteve sempre pontes com os setores mais radicais. Na crise catalã, assumiu uma posição discreta, não tendo aproveitado o processo independentista da Catalunha para subir o tom das reivindicações bascas. Ao invés, apoiou o governo de Sánchez até ao fim, votando favoravelmente o seu orçamento, ao contrário dos catalães. Foi com uma plataforma moderada que se apresentou neste ato eleitoral e a estratégia acabou por ser compensada. Ao contrário da Catalunha, os privilégios forais permitem aos bascos cobrar os seus próprios impostos. Uma eventual suspensão da autonomia basca implicaria, igualmente, a suspensão daqueles, prejudicando fortemente a economia da região.

O PNV conservou 88% dos seus votantes de há três anos e beneficiou do aumento da participação eleitoral, tendo ido buscar 1% da abstenção nacional, mais 0,5% ao UP e uns restos correspondentes a 6,5% da coligação radical independentista EH Bildu. As suas perdas foram residuais, com 4% para esta última a serem as mais relevantes.

Em Euskadi, foi claramente o mais votado, obtendo 31,1% dos sufrágios, muito acima do PSOE (19,9%). Fez história ao vencer nas três províncias da comunidade autónoma: na Bizkaia, seu bastião tradicional, de forma clara face aos socialistas; na Gipuzkoa com uma vantagem menor sobre a EH Bildu, e em Araba/Álava, onde nunca tinha vencido, com uma vitória tangencial (apenas 0,3% acima do PSOE).

Nesta última, registou um forte crescimento (+42,8%), seguido da Gipuzkoa (+24,9%) e da Bizkaia (+17,8%), ou seja, os seus acréscimos foram maiores onde tem menor implantação.

EH Bildu: esquerda “abertzale” está viva e reforça-se

Também a coligação EH Bildu (Unidade da Pátria Basca), que junta várias formações da esquerda “abertzale” (independentista) tem motivos para celebrar, pois obteve 1,0% dos votos a nível nacional e elegeu quatro parlamentares, contra os 0,8% e dois lugares de há três anos. É liderada pelo histórico Arnaldo Otegi, que esteve preso por, alegadamente, “fazer a apologia do terrorismo” e tentar reativar o proscrito Herri Batasuna, antecessora da Sortu, a principal formação da coligação.

O desarmamento da ETA e o fim da luta armada permitiram aos grupos radicais independentistas voltar a atuar na legalidade. Embora continue a defender a independência dos sete territórios bascos (as três províncias da comunidade autónoma, Navarra e os três do País Basco francês), que constituem a Euskal Herría (Pátria Basca), promete fazê-lo por meios pacíficos. Isso permitiu-lhe agregar outras forças de esquerda mais moderadas, como a Eusko Alkartasuna (EA), a Alternatiba, saída do ramo basco da IU, e a agora extinta Aralar, mais alguns independentes, alargando a sua base de apoio.

Tendo conservado 85% dos seus eleitores de 2016, beneficiou, igualmente, do aumento da afluência às urnas, e foi buscar 0,5% da abstenção nacional e jovens eleitores, a que se somam 1% do UP, 4% do PNV e valores residuais de outras formações e votos brancos.

Em Euskadi, foi a quarta força política, com 16,7% dos votos, mas ficou muito próximo do UP (17,6%) e do PSOE (19,9%). Como é habitual, o seu melhor resultado eleitoral ocorreu na Gipuzkoa (23,4%), seguido, com alguma surpresa por Araba/Álava, a menos independentista das províncias, onde conseguiu, pela primeira vez, eleger um deputado, e só depois pela Bizkaia. Em Navarra, onde, ao contrário do PNV, também concorre, conseguiu 12,8% e esteve perto de obter o último mandato, mas este acabou por ir para os socialistas. Apenas 408 votos separaram a EH Bildu desse desígnio.

O seu maior crescimento ocorreu em Araba/Álava (+47,4%), seguido de Navarra (+36,2%) e, por fim, quase ao mesmo nível, Bizkaia (+22,9%) e Gipuzkoa (+22,5%).

Coligação Canária: mobilização permite crescimento eleitoral

A Coligação Canária (CCa), formação centrista e autonomista, liderada por Ana Oramas, aliada ao Partido Nacionalista Canário (PNC), também tem razões para festejar, pois, ao arrepio das sondagens, melhorou a sua votação, obtendo 0,5% dos votos a nível nacional e dois lugares, quando, nas últimas eleições, se tinha ficado por 0,3% e um mandato.

A sua política traduz-se no apoio aos governos nacionais, sejam eles de direita ou de esquerda, em troca de contrapartidas para o arquipélago, em especial num contexto de fragmentação parlamentar. Ao contrário do que se pensava, esse posicionamento permitiu-lhe granjear apoios em vários setores da sociedade canária.

A lista conservou cerca de 70% dos seus eleitores, tendo a sua subida resultado, em grande parte, do aumento da participação eleitoral, tendo ido buscar cerca de 2% à abstenção e a novos eleitores, a que se somam valores residuais de outras forças políticas. As perdas foram, especialmente, na direção de pequenas formações (em especial, a Nueva Canarias, que, em 2016, concorrera nas listas do PSOE), dos socialistas e, em menor grau, da abstenção, mas têm pouco significado numérico.

Nas Canárias, obteve 13,0% dos votos e foi a quinta força política. Contudo, o seu desempenho é diferente nas duas províncias: é forte na de Santa Cruz de Tenerife (as quatro ilhas ocidentais), onde foi segunda, com 19,9% e conseguiu os seus dois eleitos, e fraco na de Las Palmas (as três ilhas orientais), onde se ficou por 6,4% e nenhum mandato.

Apesar disso, do ponto de vista evolutivo, melhorou mais nesta última, onde partia de uma base numérica mais baixa (+77,8%) que na primeira (+57,9%).

Compromís: ir isolado foi aposta falhada

O Compromís, coligação que junta várias formações de esquerda e ecologistas da Comunidade Valenciana, liderada por Joan Baldoví, obteve 0,7% dos votos a nível nacional e apenas elegeu um deputado. Em 2016, integrara a confluência regional do UP, sob a designação de “A la valénciana”, mas, agora, resolveu concorrer sozinho, uma opção que viria a revelar-se pouco lucrativa, já que foi vítima do “voto útil” no PSOE e no UP.

Na altura, na referida comunidade, aquela recebeu 25,4% dos sufrágios e elegeu nove representantes, dois dos quais desta formação. Agora, quedou-se pelos 6,4% e perdeu um lugar no Congresso.

Ao nível provincial, obteve o melhor resultado em Valência (8,6%), onde conseguiu o seu eleito, seguido de Castellón e Alicante.

PRC: a surpresa

Por fim, destaque para a entrada no Congresso do Partido Regionalista Cantábrico (PRC), com 0,2% dos votos a nível nacional e um deputado, fruto dos 14,6% obtidos na comunidade uniprovincial da Cantábria.

O partido, liderado por Miguel Ángel Revilla, costuma concorrer nas eleições autonómicas e é um importante ator no Parlamento cantábrico. Porém, nunca tinha concorrido às eleições gerais.

Afluência às urnas: subida foi resposta da esquerda e das periferias à extrema-direita

A participação eleitoral foi bastante elevada, atingindo uma taxa de 75,8%, quando, em 2016, se quedara pelos 66,5%, mostrando que o eleitorado espanhol percebeu bem a importância destas eleições para o futuro do país.

A irrupção da extrema-direita levou às urnas muitos eleitores, uns nostálgicos do franquismo e outros descrentes no sistema democrático, que, muitas vezes, não votavam. Mas foi o seu temor que originou uma mobilização sem precedentes do eleitorado da esquerda e, em especial, dos simpatizantes independentistas, que tendem a participar pouco nas eleições gerais espanholas, mas que entenderam ser necessário evitar uma maioria do que podemos designar por tripartido espanholista (PP, C’s e Vox).

Nas comunidades, a maior afluência às urnas registou-se em Madrid (79,8%), seguida por Castela-Leão (78,2%), Rioja e Cantábria (ambas com 78,1%) e Castela-Mancha (78,0%). A menor ocorreu nas regiões insulares, onde é tradicionalmente mais baixa, cifrando-se em 67,6% nas Baleares e 68,1% nas Canárias.

Os maiores acréscimos percentuais ocorreram na Galiza (+26,5%), na Catalunha (+22,4%) e nas Astúrias (+20,1%). A alguma distância, mas também acima da média nacional, as Canárias (+15,0%) e Euskadi (+14,3%). Estes dados demonstram, claramente, que foi graças à mobilização do eleitorado independentista ou regionalista e da esquerda que a abstenção sofreu uma enorme quebra. Em contraste, Comunidade Valenciana (+5,4%), Castela-Mancha (+8,6%) e Múrcia (+8,8%) registaram os menores acréscimos. Na primeira, é de estranhar, já que, no mesmo dia, se realizavam aí eleições autonómicas. Já nas outras duas, este dado não será estranho à mais forte votação do Vox nessas áreas, pois os eleitores de esquerda não se mobilizaram tanto.

A nível nacional, foi nas praças norte-africanas de Ceuta (63,0%) e Melilla (64,0%) que se registaram os índices de participação mais fracos, o que não surpreende, já que as populações árabes dessas cidades autónomas pouco votam nas eleições gerais espanholas. Contudo, foi também aí que a afluência mais cresceu: +32,4% na segunda, o que pode também ser devido à participação da CpM, e +26,5% na primeira.

Por províncias, as maiores participações ocorreram em três de Castela-Leão: Valladolid (80,9%, aquela onde mais se votou), Segóvia e Ávila. Seguiu-se Madrid e, depois, a também castelhana-leonesa Palência, as manchegas Cuenca, Guadalajara, Toledo e Albacete, com Burgos, também de Castela-Leão, atrás das duas primeiras e à frente destas últimas. Depois, vêm Barcelona, Rioja, Cantábria e Saragoça, todas acima dos 78%. Ou seja, foi nas principais cidades, onde a politização é maior, e na chamada “Espanha vazia”, com uma população mais envelhecida, em geral com mais tendência a ir votar (ao contrário do que, por vezes, se pensa) que a afluência foi maior.

Por seu turno, onde menos se votou foi, para além dos enclaves norte-africanos, na canária Las Palmas (67,6%) e depois, por esta ordem, nas Baleares, em Huelva (Andaluzia ocidental), na outra canária, Santa Cruz de Tenerife, e na também andaluza ocidental Cádiz. Em todas elas, a participação ficou abaixo dos 70%. Seguiram-se a basca Araba/Álava, onde algum eleitorado da direita terá ficado em casa, as andaluzas orientais de Almeria e Málaga, onde a extrema-direita obteve elevadas percentagens de votos, e a galega Lugo.

Na segunda parte, farei uma análise das perspetivas de formação do novo governo e das lideranças partidárias.

Sobre o/a autor(a)

Professor. Mestre em Geografia Humana e pós-graduado em Ciência Política. Membro da coordenadora concelhia de Coimbra do Bloco de Esquerda
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