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É longa a tradição aforística e humorística em torno das previsões económicas. O melhor desses aforismos é talvez o do economista político norte-americano John Kenneth Galbraith, para quem “a função das previsões económicas é fazerem a astrologia parecer respeitável”. Podemos também citar Paul Samuelson, que terá assinalado que “os economistas previram corretamente nove das últimas cinco crises”, ou o aforismo de autoria desconhecida segundo o qual “as previsões são a arte de dizer aquilo que vai acontecer… e depois explicar porque é que isso não aconteceu”.
O desempenho da bola de cristal dos economistas costuma efetivamente ser medíocre, como também sublinhou a Rainha Isabel II de Inglaterra quando, já não em registo aforístico ou deliberadamente humorístico, perguntou em plena crise financeira internacional de 2008 “porque é que ninguém deu conta do que aí vinha?”. Quando tratamos sistemas sociais complexos e conflituais, sujeitos a turbulências e reflexividades de diferentes tipos, é preciso ser bastante otimista, para não dizer ingénuo, para fazer fé na capacidade preditiva de modelos lineares e deterministas. Em geral, o melhor que podemos fazer é identificar algumas das principais tendências do presente, antecipar as suas implicações para o futuro próximo – e depois preparar-nos para explicar porque é que não aconteceram.
Neste final de 2022, é certo que as perspetivas pela frente, para pedir emprestada uma imagem de outra ciência preocupada com as previsões, são de céu nublado com possibilidade de trovoada. Para os trabalhadores e classes populares, em Portugal e não só, o risco que se apresenta é o de um triplo embate: inflação, subida dos juros e risco de recessão.
O aumento dos preços tem vindo a instalar-se gradualmente já desde a segunda metade de 2021, inicialmente em resultado de perturbações das cadeias internacionais de produção no contexto da pandemia. Somaram-se depois os efeitos da guerra na Ucrânia, especialmente ao nível da restrição da oferta e aumento dos preços dos combustíveis, cereais e fertilizantes, e finalmente o aproveitamento do poder de mercado por parte de muitas empresas de diferentes setores para aumentarem extraordinariamente as suas margens e consequentemente os seus lucros. As previsões sobre o caráter temporário do surto inflacionista revelaram-se assim excessivamente otimistas, à medida que novos fatores de aumento dos preços se foram sucessivamente somando uns aos outros.
Chegamos ao final de 2022 com taxas de inflação anuais próximas ou superiores a 10% em Portugal e na maior parte das economias industrializadas, com consequências especialmente negativas na medida em que os salários e pensões não têm sido, nem se prevê que venham a ser, atualizados de forma a evitar fortes perdas de poder de compra. O processo inflacionista não é neutro do ponto de vista distributivo, transferindo rendimento do trabalho para o capital – especialmente quando os governos apostam em contê-lo através da moderação salarial e pouco fazem para limitar as margens de lucro ou para controlar diretamente os próprios preços. Alguns economistas têm sugerido nas últimas semanas que podemos ter já atingido o pico deste processo inflacionista, apontando para a desaceleração da inflação nos Estados Unidos em novembro e para a tendência de diminuição do preço do petróleo desde meados do ano de 2022, mas a experiência recente desaconselha que se conte demasiado depressa com a transitoriedade da inflação.
Entretanto, a permanência das tendências inflacionistas levou a maior parte dos bancos centrais a iniciarem em 2022 a típica resposta ortodoxa à inflação, adotando uma política monetária contracionista através da subida das taxas de juro. O objetivo declarado é combater a inflação refreando o investimento e o consumo e, consequentemente, gerando uma tendência recessiva na economia, aliás de forma semelhante à resposta adotada tanto no final da década de 1970 como na segunda metade da década de 2000 – em ambas as ocasiões dando origem a recessões globais. Por isso mesmo, são cada vez maiores os receios de que, precisamente em resultado das políticas monetárias simultaneamente restritivas da Reserva Federal norte-americana, do BCE e do Banco de Inglaterra, entre outros, as economias europeias e norte-americana – e possivelmente mesmo a economia global no seu conjunto – entrem em recessão em 2023.
Se a inflação não compensada por aumentos correspondentes de salários e pensões tem vindo a fazer deteriorar consideravelmente a situação dos trabalhadores e pensionistas, o remédio ortodoxo acrescenta dois problemas adicionais, sem oferecer garantias de resolver o primeiro. Por um lado, o aumento dos juros reduzirá ainda mais o rendimento à disposição das famílias endividadas, nomeadamente as que contraíram empréstimos a taxas variáveis para aquisição de habitação. Em Portugal, segundo o Banco de Portugal, perto de um terço das famílias têm dívida com taxa de juro variável. Por outro lado, o risco de recessão pode voltar a fazer aumentar o desemprego, colocando ainda mais pessoas em situação muito difícil. Ainda assim, na medida em que este surto inflacionista teve origem em fatores do lado da oferta que não estão ultrapassados nem serão resolvidos pela recessão, é bem possível que em 2023 demos por nós na situação descrita por um palavrão antes reservado às discussões sobre os anos ’70 do século passado: a estagflação, conjugando estagnação económica e inflação.
Entretanto, estas tendências recessivas podem por sua vez originar uma crise generalizada, dependendo de se verificarem ou não vulnerabilidades sistémicas que são especialmente difíceis de avaliar antecipadamente. O aumento dos juros ao longo do ano de 2022 desencadeou já processos de deflação nos últimos meses na maior parte dos mercados de ativos financeiros, das bolsas de todo o mundo às criptomoedas, e irá provavelmente continuar a fazê-lo em 2023. É também provável que a mesma dinâmica alastre aos mercados de habitação de todo o mundo (já começou a fazê-lo, na verdade), incluindo em Portugal. Desta forma, uma das eventuais consequências benignas do atual ambiente de alto risco poderá ser a moderação da bolha especulativa no mercado da habitação no nosso país.
O que é muito difícil de avaliar é o risco de a eclosão de alguma destas bolhas a nível internacional desencadear uma espiral de deflação e falências em cadeia e uma crise financeira de dimensão global. A esse respeito, os mais otimistas assinalam que os rácios de liquidez e solvabilidade das instituições financeiras de muitos países foram reforçados na sequência da crise de 2007-2008; os mais pessimistas apontam para os níveis recorde de endividamento global (cerca de 250% do PIB global, que comparam com 195% em 2007) e olham com especial preocupação para a forma como o endividamento total tem disparado na China.
São mais fáceis de antecipar as dificuldades por que passará em 2023 a maior parte das economias periféricas do Sul global, também elas previsivelmente atingidas por um triplo embate: a possibilidade de uma recessão global, a fuga de capitais para norte em busca dos juros mais altos praticados nas economias centrais e a crescente insustentabilidade da dívida em resultado desse mesmo aumento dos juros e da apreciação do dólar em que se encontra expressa a maior parte da dívida destes países (apreciação essa que é também consequência do afluxo de capitais para a economia norte-americana). Depois de terem visto a sua dívida disparar em 2020 em resultado da quebra de receitas fiscais e das despesas extraordinárias incorridas no contexto da pandemia, muitos países do Sul global enfrentam agora um elevado risco de bancarrota em virtude do contexto de juros elevados – mais uma vez, de forma muito semelhante ao que ocorreu no final da década de 1970 e início dos anos 1980. Depois dos retrocessos no combate à pobreza global provocados pela pandemia de Covid-19, são agora generalizados os receios de que uma nova crise da dívida afete de forma especialmente grave as economias periféricas: segundo algumas estimativas recentes, serão mais de cinquenta os países pobres atualmente em risco de bancarrota, havendo quem anteveja já uma nova vaga de programas de ajustamento estrutural.
Por fim, se as perspetivas de curto prazo são sombrias, as tendências de mais longo prazo não o são menos, com destaque para o contínuo agravamento da crise climática e ambiental, principal ameaça existencial do nosso tempo, e para os sintomas mórbidos do neoliberalismo tardio, como a hipertrofia da finança, a explosão das desigualdades e as derivas autoritárias e fascizantes na esfera política.
Em suma, entramos em 2023 com especial necessidade de reforçarmos os laços que nos unem uns aos outros e que nos animam a lutar para contrariar as tendências mais sombrias, já que o pessimismo da razão tem muito com que se alimentar.