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Cândido de Oliveira – das torturas da PVDE ao Tarrafal

O nome de Cândido de Oliveira surge habitualmente ligado ao troféu que lhe presta homenagem como grande figura do futebol: jogador, treinador, selecionador nacional e jornalista. Muitos, porém, desconhecem a dimensão cívica da sua figura, na luta pela liberdade e contra a ditadura de Salazar, enfrentando as torturas da PVDE (antecessora da PIDE) e a prisão no Campo de Concentração do Tarrafal.
Candido Oliveira, foto na ficha da PVDE.

Cândido de Oliveira nasceu em Fronteira, distrito de Portalegre, a 24 de Setembro de 1896, e entrou para a Casa Pia de Lisboa em 1905, depois de ter ficado órfão. Bom aluno, vivia ainda na Casa Pia quando começou a demonstrar paixão pelo futebol e enorme aptidão para a prática desportiva. Começou a jogar no Benfica em 1914/15. Foi o primeiro capitão da Seleção Nacional, no jogo disputado com a Espanha (Madrid, 1921). Depois foi treinador, selecionador e jornalista.


Cândido de Oliveira, em 1921, capitão da seleção e jogador do Casa Pia.

Em 1938, como treinador do Belenenses e selecionador nacional teve uma primeira dissidência pública com o regime, quando três dos seus jogadores protagonizam um episódio de oposição à ditadura de Salazar. Estava-se então em plena guerra civil de Espanha, quando se disputa, em Lisboa, um jogo entre Portugal e uma seleção da Espanha franquista, apoiada por Salazar, pela Alemanha de Hitler e pela Itália de Mussolini. Dessa equipa estavam obviamente ausentes os jogadores da Espanha republicana (como os de Barcelona ou de Madrid).

O jogo decorreu a 30 de janeiro, no Estádio das Salésias e a teatralização do evento foi completa, com grandes faixas celebrando Salazar e Franco. Falangistas da Galiza, de Salamanca, de Badajoz e de Cáceres, vieram a Lisboa para assistir ao desafio, sendo, de acordo com o Diário de Lisboa de 1 de fevereiro, recebidos pela Legião Portuguesa, com direito a almoço no Casino Estoril e excursão a Sintra, terminando no Radio Clube Português, na Parede, cuja ação tinha sido decisiva no apoio radiofónico ao exército franquista.

Falangistas no jogo Portugal-Espanha. Diário de Lisboa 01.02.1938

Porém, nem tudo correu como esperado. No momento em que as duas equipas se perfilaram para fazer a saudação fascista, três dos jogadores treinados por Cândido de Oliveira, no Belenenses e na seleção, Artur Quaresma, José Simões e Mariano Amaro, protagonizaram um momento de contestação. Artur Quaresma permaneceu com os braços em baixo. José Simões e Mariano Amaro levantaram o braço com o punho cerrado.

Cândido de Oliveira, selecionador nacional

A seguir ao jogo todos eles foram detidos pela polícia política (a PVDE) para interrogatório. Como contou Quaresma anos mais tarde, ao jornal desportivo Record (em 20.01.2004):

-Fomos à Pide e eles ficaram. Eu, deixando o braço em baixo, disse que me esquecera de o levantar.

Se Quaresma foi libertado, José Simões e Mariano Amaro ficaram presos na PVDE que atribuiu ao seu gesto inspiração comunista.

Mas o episódio não acabava ali. A Censura obriga a revista Stadium de 2 de fevereiro de 1938 (então o principal órgão de imprensa desportiva), onde Cândido de Oliveira era jornalista, a publicar uma foto retocada. Na foto, podemos ver que Artur Quaresma não levanta o braço para a saudação fascista e que são pintados grosseiramente dedos, nos punhos cerrados de José Simões e Mariano Amaro.

Na foto, podemos ver que Artur Quaresma não levanta o braço para a saudação fascista e que são pintados grosseiramente dedos, nos punhos cerrados de José Simões e Mariano Amaro, por ordem da Censura. Revista STADIUM de 02.02.1938.

Resistir aos nazis

No ano seguinte eclode a Segunda Guerra Mundial. Salazar, apesar da proximidade do seu regime à Alemanha de Hitler e à Itália de Mussolini, face à situação geográfica do continente e ilhas, opta pela neutralidade, vendendo volfrâmio e conservas de peixe aos dois lados. Deseja ardentemente um acordo entre Hitler e os ingleses e uma Europa, controlada pela Alemanha, em guerra aberta com a União Soviética. A inesperada declaração de guerra de Hitler aos Estados Unidos (após Pearl Harbour) e o desembarque americano em Marrocos, em novembro de 1942, fazem Salazar perceber que a derrota da Alemanha era inevitável. 1943, a derrota alemã em Estalinegrado e o desembarque aliado na Sicília, força-o à neutralidade colaborante com os aliados.

É neste contexto que se desenrola em Portugal uma intensa luta entre os interesses alemães e ingleses, com redes de espionagem e propaganda particularmente ativas. Aos ingleses preocupa especialmente uma eventual invasão alemã da Península Ibérica (a chamada "Operação Félix").

A oposição democrática portuguesa encara a vitória aliada como a sua oportunidade de derrubar Salazar. Em dezembro de 1943 surge o MUNAF (Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista), agrupando todos os oposicionistas, sendo presidido por Norton de Matos. Ajudar os aliados era lutar pela democracia em Portugal.

Essa é a motivação de Cândido de Oliveira para dar a sua contribuição para a causa aliada.

Organizar uma rede de combate, a uma eventual invasão alemã de Portugal, é uma preocupação fundamental dos ingleses. Londres chega a propor a Salazar um plano oficial de destruição de vias de comunicação que impedisse os alemães de consumarem a sua estratégia. Na ausência de uma resposta concreta, os ingleses pensaram que Salazar, por razões de mesquinhez financeira, se recusasse a destruir património como pontes, depósitos de combustível, portos e estradas, para deter um avanço alemão.

Era necessário construir uma rede clandestina que o fizesse.

Cândido de Oliveira era o agente H. 204 e H. 700, da rede clandestina do “Special Operations Executive” (SOE), que tinha como principal missão organizar a resistência em Portugal em caso de invasão nazi

Cândido de Oliveira vai integrar essa rede. Era o agente H. 204 e H. 700, da rede clandestina do “Special Operations Executive” (SOE), que tinha como principal missão organizar a resistência em Portugal em caso de invasão nazi. O seu papel na rede clandestina aliada foi fundamental.

Desempenhava à data as funções de Inspetor dos Correios. Organizou uma rede de rádio-telegrafistas que, em caso de quebra das comunicações oficiais, poderiam funcionar como um sistema alternativo e secreto na transmissão de informações. Usando o seu estatuto nos correios, permitia que a correspondência alemã fosse retardada por uma noite, o tempo necessário para ser fotografada pelos serviços de contra-espionagem dos britânicos.

O processo de Cândido de Oliveira na PVDE (hoje guardado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo), revela como a sua atuação era atentamente seguida, sendo aliciadas e pagas como informadores, pessoas com quem contactava. Um informador da PVDE, provavelmente alguém ligado ao jornalismo desportivo do Porto, sob o pseudónimo de "Antonino", relata a atividade de Cândido de Oliveira na revista Stadium. Em documento datado de 19 de maio de 1941:

Informa que no domingo de manhã, recebeu um telegrama de Cândido Oliveira, de Lisboa, convidando-o a ir à Estação de S. Bento, esperá-lo ao rápido das 14 horas.

Que de facto, o Cândido, chegou nesse comboio e, tendo-se encontrado com o epigrafado, convidou este a trabalhar para os ingleses, acrescentando:

Que a revista STADIUM ia ser posta na rua, ao serviço dos ingleses, no sentido de infiltração dentro do desporto.

Que o epigrafado ficaria como delegado no Porto, mas obedecendo às ordens de alguém que lhe será apresentado.

Que está em estudo um código de fraseologia desportiva, para ser utilizado nas comunicações telegráficas e telefónicas entre Lisboa e Porto.

Tudo isto se passa em 1941 e nos inícios de 1942. O evoluir da guerra ainda era favorável à Alemanha. Isso dava grande força aos germanófilos, maioritários entre os adeptos de Salazar, designadamente na PVDE (a começar pelo seu diretor, o capitão Agostinho Lourenço). O investimento na perseguição à rede aliadófila (a rede Shell), deu os seus frutos e a repressão abateu-se sobre os agentes do SOE, sendo Cândido de Oliveira localizado e preso pela PVDE.

Revista Stadium, 9.12.1942. PVDE vigiava atividades de Cândido de Oliveira na revista.

Aos 46 anos, às 5 horas da manhã de 1 de março de 1942, Cândido de Oliveira foi preso e barbaramente espancado e torturado na polícia política, que lhe partiu dentes e lhe abriu uma brecha na cabeça (na foto de perfil da ficha da PVDE, vê-se uma ligadura entre a cabeça e o pescoço).

Cândido de Oliveira. Ficha na PVDE.

Tarrafal – O pântano da morte

A biografia prisional constante na ficha da PVDE, refere ter sido Cândido de Oliveira preso "em 1-3-1942 para averiguações, tendo recolhido ao Depósito de Presos de Caxias". Foi "transferido para a Colónia Penal de Cabo Verde embarcando em 20-6-1942. Regressou de Cabo Verde para esta Diretoria em 1-1-1944".

A "colónia penal" é, obviamente, o Campo de Concentração do Tarrafal.

Cândido de Oliveira vai deixar o seu testemunho e uma análise da ação da ditadura de Salazar, sobre este campo de concentração, no livro "Tarrafal – O Pântano da Morte", que só pode ser publicado depois de 25 de Abril de 1974, pela Editorial República.

Sobre o Tarrafal, diz-nos que é "o pior ponto do arquipélago. Não tem água potável; não tem comunicações com o interior da ilha". Fica "na zona de mais intenso paludismo de Cabo Verde», já que Salazar queria ter «a certeza de que a maioria dos deportados seria dizimada pela biliosa ou ficaria com a saúde abalada pelo paludismo crónico".(...)

Em Dachau, inoculou-se o paludismo, transformando-se os prisioneiros em cobaias – para campo de ensaios.

No Tarrafal – o objetivo era idêntico... Simplesmente o método era um pouco diferente. O médico-carcereiro, Esmeraldo Pais Prata, foi utilizado, não para inocular o paludismo, mas para assegurar, pela falta de assistência aos doentes o seu efeito devastador.

Tudo isto sobre o controle direto da "Polícia de Vigilância e Defesa do Estado – a Gestapo de Portugal".(...)

Dentro do Campo não se vive! Aguarda-se a morte! É a morte lenta, mas certa. Apenas uma questão de tempo… (…)

Até agora morreram 30 deportados, na sua quase totalidade abatidos pelo golpe brutal e final da biliosa.(...)

Uma visita ao Campo confrange. Não se esquece mais. Perdurará na memória como visão horrível – da horrível existência de seres humanos expiando o crime político".

Ao chegar ao Tarrafal, Cândido de Oliveira fica perturbado com o aspeto que os presos exibem dentro do campo:

Pareciam fantasmas, arrastando-se como autómatos articulados! Rapazes novos, na sua maioria à roda dos trinta anos, refletindo velhice precoce. Vincos de martírio cavados fundo nos rostos esquálidos de tom baço, da cor típica do paludismo como se os farrapos de caqui amarelo da vestimenta da ordem se espelhassem nas suas magras faces.

Com base nos testemunhos dos presos mais antigos, o livro relembra "que o Campo de Concentração do Tarrafal foi inaugurado em outubro de 1936 – em plena época do paludismo – sem haver médicos, nem medicamentos".

Os presos "foram forçados a dormir em barracas de lona, sem mosquiteiro de proteção.(...) Seis mortos numa semana é resultado bem expressivo".

No ano seguinte, 1937, a 20 de setembro, faleceram Pedro Matos Filipe e Francisco José Pereira; a 21, Augusto Costa, da Marinha Grande; a 22, Francisco Domingues Quintas e Rafael Tobias Pinto da Silva; no dia 24, Cândido Alves Barja. O 'médico' veio vê-los quando estavam prestes a morrer e mandou-os transportar para a enfermaria, onde não lhes prestou a mais ligeira assistência".

Um dos capítulos do descreve "a Câmara de Torturas – A FRIGIDEIRA", onde eram colocados os presos condenados ao isolamento:

É um cubo de cimento armado, sem janelas, nem luz interior(...) é um verdadeiro forno crematório. Das 10 às 16 horas, o sol ardentíssimo, batendo continuadamente as não muito espessas paredes de cimento, concentra no interior, com a ajuda da falta de ventilação e da renovação do ar, uma temperatura que deve oscilar entre os 40 e 60 graus.(..) No interior, como mobiliário, há apenas dois baldes: um para as dejeções, outro com água para beber. Mais nada! Nem cama , nem enxerga.(...) O preso só pode sentar-se ou deitar-se no chão – sobre o cimento.

Cândido de Oliveira defende que, ainda que encoberto por uma neutralidade simulada, Portugal era um país aliado da Alemanha nazi e tal como aconteceu em todos os países satélites, foram seguidas atividades similares e criados “Campos de Concentração, envolvidos pela típica teia de arame farpado, e neles os antifascistas expostos às mesmas torturas: fome, falta de assistência médica, trabalho-forçado – e a câmara de eliminação”.

Em 1 de janeiro de 1944 regressa a Lisboa. Depois de passar por Caxias e pelo Aljube, é finalmente libertado, em 27 de maio de 1944.

A violenta tortura a que é sujeito e a prisão no Tarrafal de alguém que era uma figura pública (como jogador foi capitão da seleção, treinador de grandes clubes, selecionador nacional), revela a verdadeira face da ditadura, a utilização da repressão protagonizada pela polícia política, como instrumento de terror para dissuadir quem se poderia opor ao regime e à oligarquia económica que ele servia.

A mensagem era clara. Quem manifestasse qualquer opinião política contrária ao regime, lutasse nas empresas (pela greve ou outros meios) pelos seus direitos como trabalhador ou como estudante, nas escolas e universidades, tinha como certa a possibilidade de ser preso, torturado ou enfrentar a morte.

A revolta da Mealhada

Como aconteceu com todos os antifascistas, Cândido de Oliveira no fim da guerra vive o momento de esperança na queda de Salazar e a frustração de ver a "traição das democracias ocidentais" (como refere Mário Soares, no livro Portugal Amordaçado), o apoio à continuação da ditadura.

Isso não constituíu, porém, motivo para abandonar a luta. Em 1946, Cândido de Oliveira está novamente ligado a mais uma revolta contra a ditadura, conhecida como “Revolta da Mealhada”.

A 10 de outubro de 1946, dá-se uma tentativa de insurreição militar, com a saída de uma única unidade, o Regimento de Cavalaria 6, do Porto, comandado pelo capitão Queiroga. Deveria ser secundada por outras movimentações, designadamente a de Mendes Cabeçadas, em Tomar. Tal não aconteceu e os revoltosos, em marcha para Lisboa, renderam-se na Mealhada.

José Magalhães Godinho (figura da resistência antifascista),testemunha o envolvimento de Cândido de Oliveira no movimento, no prefácio do livro, Tarrafal – O Pântano da Morte.

Regressado à liberdade, conseguiu reativar a rede dos CTT, colocando-a ao serviço do movimento revolucionário. Diz José Magalhães Godinho, ter Cândido de Oliveira, em 10 de outubro de 1946, passado "toda a noite a dar-me, através dos postos que tinha montado , de norte a sul do país, a indicação do momento exato em que a revolta eclodia no Porto e a marcha que a coluna ia tomando, até se render".

Conclui o seu prefácio, afirmando que Cândido de Oliveira "continuou, e assim se manteve até ao fim da sua vida, sempre a trabalhar, a lutar pelo desmembramento do fascismo e pela restauração da Democracia em Portugal".

Faleceu de pneumonia, em Estocolmo, quando fazia a cobertura jornalística do Campeonato do Mundo de Futebol de 1958, ao serviço do jornal “A Bola”, que tinha fundado, quando foi despedido dos CTT por motivos políticos.

Sobre o/a autor(a)

Professor e historiador.
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