No final de tarde de 6 de maio, entramos no Pavilhão Casal Vistoso, na zona do Areeiro, para encontrar um espaço em reboliço. De um lado, uma exposição a ser montada com dezenas de pinturas de Jaime Rentería, artista colombiano de 63 anos que passou as últimas semanas acolhido naquelas instalações da Câmara Municipal. Na ponta oposta da sala, dezenas de pessoas estão concentradas num filme qualquer do canal Hollywood, vista estranha mas normal quando pensamos que estas pessoas não têm casa, e portanto não têm televisão.
Mas no centro está aquilo que mais chama a atenção. Vários voluntários trabalham com os utentes do centro, pessoas que moram ou passaram recentemente a morar na rua, para compor o espaço amplo com dezenas de cadeiras em círculo. Num dos pilares de entrada, lê-se “Reunião geral entre todos, 17h30 na entrada”.
No total, são mais de 200 pessoas acolhidas em respostas de emergência e que o vereador Manuel Grilojá indicou pretender direcionar para respostas habitacionais, acompanhadas de emprego
Depois da inauguração da exposição, pouco depois das 17h30, dá-se início à assembleia-geral do Pavilhão Casal Vistoso. O centro que desde meados de Março dá abrigo a uma centena de pessoas que não têm casa para se proteger do vírus, é um dos quatro centros abertos pelo vereador do Bloco de Esquerda na Câmara Municipal de Lisboa, Manuel Grilo. No total, são mais de 200 pessoas acolhidas em respostas de emergência e que o vereador já indicou pretender direcionar para respostas habitacionais, acompanhadas de emprego.
Estão presentes na reunião mais de 50 pessoas, na sua grande maioria utentes do centro, que ouvem atentamente as intervenções umas das outras. Os primeiros pedem a palavra para louvar a resposta social dada, mas instados pelas coordenadoras do espaço, Dina Nunes e Teresa Bispo, as intervenções passam a incluir críticas e propostas concretas de trabalho, atividades e divisão de tarefas. Sentimos que estamos a viver algo diferente das respostas habituais para quem mora na rua.
João, que trabalhou toda a vida com técnico de som, perdeu o emprego e até há semanas arrumava carros no Parque das Nações. Agora não há carros para arrumar e é ele quem coordena as limpezas das casas de banho e do espaço ao redor do pavilhão. “Isto é como se fosse a casa que queremos. Todos precisam de dar uma mão para garantir que o espaço onde estamos seja bem tratado”, refere João, apelando à inscrição de todos nos turnos de limpeza. Recebe uma salva de palmas. Todos os dias às 18h, podemos ver o João e muitos outros a fazer uma ronda pelo bairro a recolher lixo. João ri-se quando diz que “nos primeiros dias encontrámos seringas e pratas, mas agora já quase só recolhemos lixo que estava por aí há anos, até ferros de engomar enterrados!”.
Tiago, depois de ter estado compenetrado nas notas que tomou no telemóvel, mostra que tudo pode ser melhorado. “Esta resposta é ótima, sobretudo para quem veio do nada, quem dormia na rua. Mas não vale a pena dizer que tudo é maravilhoso. A partir das 22h estamos todos cá dentro, pelo que temos todos de ter direito ao descanso. Apelo a que não façam barulho a essa hora, há pessoas que tomam medicação e precisam de descansar. Há cães que ficam exaltados. Precisamos de respeitar as regras”.
Um dos grandes problemas de muitas pessoas que vivem na rua é a dependência do álcool
Um dos grandes problemas de muitas pessoas que vivem na rua é a dependência do álcool. A resposta dos centros de acolhimento envolve a Unidade de Alcoologia de Lisboa, que garante uma ação que salva vidas: um tratamento farmacológico que limita os riscos da abstinência, contribuindo para uma redução dos perigos que a privação pode trazer.
O vereador Manuel Grilo afirma “quem é dependente do álcool e quer aproveitar este momento consegue assim reduzir ou até parar o consumo problemático.” Neste âmbito, também existe a resposta da distribuição de metadona, que já assegurou que várias pessoas que frequentam o centro trocassem usos problemáticos de drogas por aquela alternativa.
Sílvia, uma mãe de 56 anos que perdeu o emprego e a casa por causa da pandemia, faz a intervenção mais aplaudida da tarde. “Este espaço não só é uma casa, como é a casa que todos merecemos. Sem discriminação, sem xenofobia, sem transfobia! Provamos aqui que mesmo sendo esta pandemia terrível, com esta resposta ela conseguiu unir-nos, sem preconceitos”, apela Sílvia. “Mesmo numa situação complicada, conseguimos ouvir-nos e respeitar-nos. Esta é a prova de que vamos lutar pelos nossos direitos, que ninguém vai sair daqui sem solução, que ninguém aqui merece estar na rua!”, afirma Sílvia, saindo do centro da roda com o punho no ar e sob ovação.
Desde que o vereador Manuel Grilo abriu os centros, já 35 pessoas foram encaminhadas para casas e 26 encontraram emprego. O seu objetivo é “que ninguém fique para trás e que sejam encontradas casas e empregos para todos os que queiram”. Uma resposta social que devolva às pessoas as rédeas do seu destino terá em Julho já 100 casas no âmbito do programa “Housing First” (“Casas Primeiro”), da CML. Em Setembro, contam que sejam adicionadas mais 200 casas ao programa.