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22 de dezembro de 1970: Conferência de imprensa contra a Guerra Colonial em Bruxelas

Um grupo de três oficiais desertores do Exército Colonial dava uma conferência de imprensa em Bruxelas. Uma semana depois, juntamente com outros sete que haviam desertado para a Suécia, seriam acusados de "traidores à pátria" pelo ministro fascista Sá Viana Rebelo. Por Fernando Mariano Cardeira.
Imagem de arquivo de Fernando Mariano Cardeira.

No início do ano de 1970 um grupo restrito de oficiais do exército, ex-alunos da Academia Militar, perante a iminência da mobilização para a guerra em África começou a reunir-se no quartel RI 5 das Caldas da Rainha. Metade dos cerca de 25 tenentes-milicianos colocados nesta unidade iniciou conversas informais sobre o que fazer perante o embarque para as colónias. Ao fim de algum tempo o grupo ficou reduzido a 12 elementos, dos quais viriam a desertar 10. Embora o projecto inicial fosse o de uma deserção conjunta, dificuldades relacionadas com as diferentes datas de embarque paras as diferentes colónias africanas levaram a que o grupo se dividisse, desertando 6 elementos em Agosto de 1970 e 3 outros em Outubro. Um décimo elemento, não incluído no grupo inicial, chegaria à Suécia em fins de Outubro.

O grupo de seis desertores que pediu asilo em Uppsala, na Suécia, deu uma conferência de imprensa em Estocolmo no dia 16 de Setembro. Nesse dia, ainda os três oficiais que iriam pedir asilo em Bruxelas estavam a preparar a sua partida para Paris. Só chegarão a Bruxelas muito mais tarde. Como relata Albino Nascimento Costa no testemunho que escreveu para o livro “Exílios.2, Testemunhos de exilados e desertores portugueses (1961-1974)”, publicado em 2017 pela Associação de Exilados Políticos Portugueses (AEP61/74), chegar a Bruxelas não tinha sida nada fácil:

No dia seguinte, 14 de Setembro de 1970, o meu contacto e o irmão passaram a fronteira de Vilar Formoso na carrinha, com os seus passaportes. Eu iria, acompanhado de um outro passador, atravessar a fronteira a pé até Fuentes de Oñoro onde nos encontraríamos. Mas antes disso, subitamente, e para minha surpresa, eles pediram-me para lhes entregar, por razões de segurança, todo o dinheiro que tinha e o saco que levava comigo. Fiquei preocupado mas neste momento já não podia voltar para trás e tive que aceitar as condições que me impunham. A passagem da fronteira decorreu sem problemas e reencontrámos os sujeitos da carrinha em Fuentes de Oñoro, como previsto. Fomos passear a Ciudad Rodrigo, a cerca de 30 km da fronteira, com o propósito de beber umas cervejas para arranjar um alibi se fosse necessário. No regresso à estação de comboio de Fuentes de Oñoro o irmão deu-me o bilhete para Paris, devolveu-me o saco e parte do dinheiro. Faltavam 9 contos! Ainda protestei mas vi que não havia nada a fazer pois estava sozinho, indefeso e sem qualquer saída alternativa…

Albino Costa teria que esperar, sozinho em Paris, quase um mês pela chegada dos seus companheiros Victor Bray e Victor Pires:

Tinha corrido tudo bem, no fim de contas, à parte o autêntico roubo que me foi feito pelo passador. Finalmente só por volta do dia 10 de Outubro é que chegaram a Paris o Victor Pires e o Victor Bray…

Repare-se que o “grupo da Suécia” já havia chegado a Uppsala no dia 9 de Setembro, um mês antes!

Chegados a Bruxelas, os três desertores vão enfrentar as dificuldades que se deparavam a todos os refugiados, tanto na Bélgica como em França. Por essa razão, só em 22 de Dezembro, dois meses depois de terem chegado, é que se sentem à vontade para exprimir publicamente o seu repúdio pelo fascismo e pela Guerra Colonial, sem terem que temer represálias da polícia belga.

Primeira página do texto distribuído no decorrer da conferência de imprensa de 22 de Dezembro de 1970 em Bruxelas.

As notícias sobre esta conferência de imprensa têm grande repercussão a nível internacional. A razão é destacada pelo jornal “La Cité”, que publica a notícia no dia 23 de Dezembro de 1970. Escreve o jornal:

É assim que, pela primeira vez desde o início da guerra na Guiné-Bissau, em Angola e em Moçambique, uma deserção colectiva de dez tenentes portugueses teve lugar recentemente. Sete destes oficiais foram acolhidos pela Suécia onde fizeram declarações políticas que foram reproduzidas pela imprensa. Os três restantes, Albino Costa, Victor Bray e Victor Pires, que vivem na Bélgica, onde pediram o estatuto de refugiado político da ONU, participaram na terça-feira numa conferência de imprensa em Bruxelas para testemunharem perante a opinião pública belga sobre a desafeição acentuada do povo português relativamente às guerras de opressão e da crescente recusa dos jovens em associar-se à aventura militar que destrói o seu país, onde 50% do Orçamento do Estado é dedicado às guerras coloniais.

Foi sem dúvida esta conferência de imprensa em Bruxelas a gota de água que fez transbordar o copo que já tinha ficado bem cheio após a conferência de imprensa de 16 de Setembro em Estocolmo.

É assim que uma semana depois, a 30 de Dezembro, o general Sá Viana rebelo, Ministro da Defesa, faz um discurso em que ataca nominalmente os tenentes desertores. Quando os jornais portugueses publicam, em 31 de Dezembro de 1970, o discurso do Ministro da Defesa, a nossa deserção passa a ser, ainda mais, do domínio público. O jornal “O Século” destaca mesmo, em subtítulo, “Deserção de tenentes milicianos para a Suécia”. No parágrafo que nos é dedicado, o general fascista afirma:

Tão nefasta é esta acção (a contaminação da juventude por ideias subversivas, por sentimentos antipatrióticos…) que ainda há alguns meses desertaram para a Suécia 6 tenentes milicianos, antigos alunos de engenharia da Academia Militar que, nos termos da legislação até há pouco vigente, tiveram de frequentar os 3 últimos anos numa escola de engenharia civil de Lisboa e que, neste estabelecimento receberam a inspiração suficiente para trair a Pátria e fazer no estrangeiro uma torpe campanha contra o seu país e contra os camaradas do Exército, onde nunca efectivamente serviram.

Notícia do jornal “Le Monde” de 2 de Janeiro de 1971 sobre o discurso de Sá Viana Rebelo com destaque para a referência à “traição” dos seis tenentes desertores.

Mas o ministro mentia descaradamente, pois sabia bem nesta data que eram já dez, e não seis, os ex-alunos da Academia Militar que haviam entretanto desertado, 7 para a Suécia e 3 para a Bélgica. Ficávamos também a saber que os nove anos que até então havíamos feito de serviço militar não eram considerados como “servir o Exército”! Apesar das ofensas pessoais contidas na mensagem do general fascista, poucas coisas nos terão dado tanta satisfação como ver assim materializada a importância política da nossa deserção.


* Fernando Mariano Cardeira é um dos fundadores da Associação de Exilados Políticos Portugueses (AEP61/74). É atualmente Presidente da Direção da Associação Movimento Cívico Não Apaguem a Memória-NAM.

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