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O outro aspeto do Maio de 68: a greve geral com ocupação dos locais de trabalho

“No princípio de junho [de 68], havia sete milhões de trabalhadores em greve, na França toda. Não havia gasolina, não havia restaurantes abertos” destaca José Mário Branco ao esquerda.net, no seu testemunho sobre o Maio de 68. Entrevista de Carlos Santos
A ocupação da fábrica LIP em Besançon durou anos - Imagem lesutopiques.org

Um processo com uma força social espantosa”

José Mário Branco viveu o Maio de 68 em Paris, em França e nele participou ativamente. Começa por destacar que o Maio de 68 não foi só uma “festa libertária”, foi também “um processo com uma força social espantosa”.

“O Maio de 68, se a gente olhar bem, não foi só essa festa libertária mais espetacular”, sublinha, lembrando os cartazes, as palavras de ordem, as fotografias, “espantosas... com a malta a rir-se para a polícia de choque”, as barricadas, “que em Paris tinham memórias históricas 1871 da Comuna de Paris e de 1840”.

O artista salienta então “um outro aspeto do Maio”, que conheceu bem: “foi haver sete ou oito milhões de operários, trabalhadores em greve com ocupação dos locais de trabalho”.

“Ou seja, tudo aquilo foi um bocado despoletado pelo movimento estudantil. Mas a partir do momento em que esse movimento teve a inteligência de ir para a porta da Renault convidar os operários a juntarem-se ao movimento”, então tornou-se “um processo com uma força social espantosa”, realça.

A partir do momento em que esse movimento [estudantil] teve a inteligência de ir para a porta da Renault convidar os operários a juntarem-se ao movimento”, então tornou-se “um processo com uma força social espantosa”, realça José Mário Branco
A partir do momento em que esse movimento [estudantil] teve a inteligência de ir para a porta da Renault convidar os operários a juntarem-se ao movimento”, então tornou-se “um processo com uma força social espantosa”, realça José Mário Branco

“As pessoas hoje não têm bem a noção do que isso possa ser, pensam que fazer greve é uma coisa fácil. Muita gente pensa que é fácil. Mas eu lembro e repito, eram greves com ocupação dos locais de trabalho. Sete milhões de trabalhadores. A França parou”, frisa.

O músico conta então que conheceu bem esse movimento, porque se integrou “em grupos de artistas que iam às empresas ocupadas ou aos bairros ocupados, às escolas ocupadas, aos sítios mais variados que possas imaginar”.

“Desde estações de caminho de ferro até pracetas de bairros, todo o género de situações onde estava sempre uma bandeira preta e uma bandeira vermelha, sem quaisquer símbolos, e as pessoas estavam ali a ocupar, dia e noite, e isto durou muito tempo. O nosso papel era ir lá com atores, músicos, declamadores, fazer pequenos espetáculos. Era por um lado para os distrair e, por outro lado, dar-lhes ânimo para continuarem a luta”, lembra.

A França parou

José Mário Branco recorda então que no início um pequeno movimento surgiu na faculdade de Nanterre, com um “líder natural”, Daniel Cohn-Bendit, e que esse pequeno movimento começou depois a alastrar.

“Os grandes acontecimentos começam nos primeiros dias de maio, a 6 de maio. No princípio de junho, havia sete milhões de trabalhadores em greve, na França toda. Não havia gasolina, não havia restaurantes abertos”, frisa José Mário Branco.

Lembra depois os acordos de Grenelle, assinados pelos sindicatos com o primeiro-ministro, Pompidou.

“E, então, vem da CGT a ordem: está tudo resolvido. Temos um acordo de 10% de aumento de salários indiscriminado na França toda e para todas as categorias profissionais. Portanto, está tudo resolvido, fazem favor parem a greve, voltem para casa e depois voltem para o trabalho. A situação está normalizada”, conta o músico, salientando que “não foi fácil”.

Recorda que o filho mais novo “andou na barriga da mãe nas barricadas”, pois “faz anos a 1 de julho”, e, por isso, tem bem presente que “em meados de julho ainda havia 3 milhões de operários e outros trabalhadores”, que estava em greve com ocupação.

A radicalidade é uma força motora da história”

“Houve ocupações que duraram anos. Algumas deram origem a filmes, como por exemplo a fábrica de relógios Lip em Besançon, em que era tudo mulheres. Há um filme lindíssimo sobre a experiência delas. Entraram em autogestão, não quiseram saber e continuaram a fabricar os relógios por sua conta. Foi um processo espantoso e houve vários casos destes”, sublinha ainda.

Em setembro, o custo de vida já tinha subido 12%, o aumento de salários de 10% já tinha sido perdido na carestia. “A situação estava calma para a classe dominante. Estava completamente recuperada. O que não foi recuperado foi essa ideia: se a malta se mexe as coisas complicam-se, salienta.

“O que é normal é perceber-se que a radicalidade é uma força motora da história. É isto que é preciso perceber, acho eu. Foi o que eu aprendi”, conclui José Mário Branco

Recordando um editorial do jornal Le Monde1, José Mário Branco salienta: “a pasmaceira que a gente vive não é a normalidade, não é normal. O editorial do Le Monde estava a falar de uma coisa que seria uma normalidade. Não, o que é normal é a malta não gostar disso”, sublinha.

E conclui: “O que é normal é perceber-se que a radicalidade é uma força motora da história. É isto que é preciso perceber, acho eu. Foi o que eu aprendi”.

Entrevista de Carlos Santos e Miguel Bordalo (vídeo)


1 Artigo de Pierre Viansson-Ponté, publicado em 15 de março de 1968, com o título “Quand la France s'ennuie…” https://www.lemonde.fr/le-monde-2/article/2008/04/30/quand-la-france-s-ennuie_1036662_1004868.html

 

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Resto dossier

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Vídeos de José Mário Branco

O Esquerda.net juntou uma entrevista exclusiva, a intervenção no Fórum Socialismo 2018 e várias canções de José Mário Branco.

Francisco Louçã sobre José Mário Branco

"Ouvi-o, então exilado em França, nos discos que aqui se distribuíam, era a força genial da música popular portuguesa contra a ditadura." Por Francisco Louçã.

José Mário Branco (1942-2019) - Foto do Fórum Socialismo 2018

Nota de pesar do Bloco sobre a morte de José Mário Branco

O Bloco de Esquerda divulgou uma nota de pesar onde “presta homenagem ao destacado artista, cantor e compositor” e apresenta condolências a Manuela de Freitas, à família e aos amigos.

José Mário Branco (1942-2019)

Morreu esta terça-feira José Mário Branco, músico que ao longo de meio século de carreira deixou a sua marca na cultura portuguesa e em várias gerações de artistas. O velório realiza-se esta quarta-feira a partir das 17h no salão nobre da Voz do Operário. O funeral sai deste local às 17h30 de quinta-feira para o cemitério do Alto de São João.

A ocupação da fábrica LIP em Besançon durou anos - Imagem lesutopiques.org

O outro aspeto do Maio de 68: a greve geral com ocupação dos locais de trabalho

“No princípio de junho [de 68], havia sete milhões de trabalhadores em greve, na França toda. Não havia gasolina, não havia restaurantes abertos” destaca José Mário Branco ao esquerda.net, no seu testemunho sobre o Maio de 68. Entrevista de Carlos Santos

"No canto não há neutralidade", por José Mário Branco

Transmissão na íntegra da sessão "No canto não há neutralidade", no Fórum Socialismo 2018.

José Mário Branco (1942-2019) - Fotos do arquivo de José Mário Branco http://arquivojosemariobranco

A oficina da canção

Texto de José Mário Branco, sobre o processo de produção das canções, desde a sua invenção até que chegam aos ouvidos e às mãos das pessoas. Foi publicado originalmente em passapalavra.info, em quatro partes (disponível também no dossier Fórum Socialismo 2018 do esquerda.net)

Maio de 68 por José Mário Branco

José Mário Branco viveu de perto o Maio de 68 e fala sobre esses tempos em conversa com Carlos Santos.

Entrevista a José Mário Branco

Entrevista de Carlos Santos a José Mário Branco em julho de 2018 sobre a disponibilização online do arquivo da sua obra, a publicação do álbum 'Inéditos 1967-1999' e a perseguição aos imigrantes nos EUA e na Europa.

“Não vejo grandes hipóteses de uma força política proteger os desgraçados que querem fugir do inferno se não tiver uma visão de classe no seu sítio”, afirma José Mário Branco

“Uma saída positiva para as grandes massas, nunca está na moderação, está na radicalidade”

Ao esquerda.net, José Mário Branco fala da disponibilização pública do seu arquivo, do seu último álbum, dá-nos um importante testemunho sobre o Maio de 68 e afirma que “é terrível” a perseguição aos imigrantes. Entrevista de Carlos Santos.

José Mário Branco - Foto publicada no site da FCSH

Inéditos 1967-1999, de José Mário Branco

Uma viagem a três décadas de trabalhos essenciais e uma oportunidade para registar estilos diferentes, canções em diversos tons e línguas, documentando uma história do pensamento, das intervenções e da música de José Mário Branco. Por Francisco Louçã

Arquivo de José Mário Branco disponível na internet a partir desta terça-feira

A apresentação do arquivo digital, que resulta de um trabalho de investigação do Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical da Universidade Nova de Lisboa, está agendada para esta terça-feira, às 17h, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. A iniciativa conta com a presença de José Mário Branco.