A Zero defende que “uma aceleração maciça da economia de energia e das energias renováveis exige uma mobilização em grande escala de todos os fundos da UE para enfrentar a crise climática, proteger os consumidores dos aumentos de preços e alcançar a independência energética das regiões instáveis”.
A associação ambientalista destaca ainda que “não podemos substituir combustíveis fósseis por outras fontes de combustíveis fósseis”. Ora, de acordo com a Zero, o plano da Comissão Europeia “assenta, em certa medida, na aposta nas importações de gás natural fóssil e em fontes cuja sustentabilidade é discutível, como a produção de biometano a partir de culturas agrícolas e não de resíduos”.
Os ambientalistas consideram, neste sentido, que “esta proposta não dá o sinal certo na emergência climática em que estamos”.
“Já sabemos que mais apoio à economia de energia e energias renováveis libertar-nos-ia do gás fóssil russo e de outras dependências para um sistema de energia totalmente renovável. Não devemos perder um único euro público em mais gás, petróleo ou carvão”, enfatizam.
No comunicado divulgado terça-feira, a Zero lamenta que a CE não preveja “reformas substanciais nos fundos da UE para acelerar os investimentos em economia de energia, energia renovável, armazenamento e infraestruturas de apoio mais amplas ou medidas de flexibilidade”.
No seu entender, uma das urgências, a curto prazo, passa por “antecipar os investimentos em energia limpa nos planos de recuperação, substituindo os investimentos planeados em infraestruturas relacionadas com o gás fóssil por alternativas de energia limpa”.
E, neste contexto, “a antecipação de investimentos em energia renovável através dos fundos da União Europeia é uma obrigação para minimizar a dependência de gás fóssil no curto prazo, ao mesmo tempo em que catalisa uma transformação de longo prazo”.
“Precisamos da UE para mobilizar os fundos em grande escala. Qualquer coisa menor estará condenada ao fracasso e perpetuará a dependência da UE das importações de combustíveis fósseis da Rússia e de combustíveis fósseis em geral”, vinca a associação ambientalista.
Fazendo referência aos alertas dramáticos do novo relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC), a Zero assinala que a UE deve valorizar e aumentar a ambição do pacote legislativo “Fit for 55” (Objetivo 55), de acordo com a limitação do aumento da temperatura a 1,5°C.
“Reduzir as emissões é fundamental para se afastar dos combustíveis fósseis e da dependência da exportação, ao mesmo tempo em que é crucial para enfrentar a crise climática, garantir a segurança energética e proteger as pessoas dos aumentos de preços”, remata.
UE quer reduzir importações de gás russo em dois terços dentro de um ano
O plano elaborado pela UE prevê a redução das importações de gás russo em dois terços dentro de um ano, apostando na redução da sua dependência do abastecimento de combustível do país.
Frans Timmermans, comissário europeu do Green Deal, citado pelo Financial Times, disse que o bloco pode importar mais gás natural liquefeito, aumentar rapidamente a produção de energia renovável e reduzir a procura mediante medidas de eficiência.
Timmermans reconheceu que os países podem ter que queimar carvão por um maior período para evitar a alteração para o gás. O responsável sustentou que a UE ainda pode cumprir os seus objetivos de limitar o aquecimento global cortando as emissões de gases de efeito estufa em pelo menos 55% até 2030, e mantendo uma meta de zero líquido até 2050, desde que as energias renováveis também aumentem rapidamente.
A Rússia fornece 40% do gás da UE, com a Itália, Alemanha e vários países da Europa Central particularmente dependentes. Acresce que também fornece cerca de 25% do petróleo bruto.
A economia proposta pela comissão é o dobro da sugerida pela Agência Internacional de Energia na semana passada, e ocorre quando os preços do gás atingem níveis recordes com o aumento da procura global e a possibilidade de a Rússia cortar o fornecimento. A proposta também se baseia na redução do uso de energia, diminuindo os termostatos e melhorando o isolamento doméstico.
“[Se] aumentarmos a velocidade com que transitamos para as energias renováveis, combinado com o aumento de nossa eficiência energética, e com a diversificação dos nossos recursos energéticos, até o final deste ano já poderemos ter diminuído a nossa dependência do gás russo em dois terços”, afirmou Timmermans.
“Criar os seus próprios recursos energéticos é a escolha mais inteligente e urgente” para garantir a segurança do abastecimento, vincou. No entanto, alguns países podem repensar os planos de usar o gás como uma “ponte” entre a queima de carvão e a sua substituição por energia eólica e solar, estendendo o recurso à queima de carvão.
O comissário europeu do Green Deal referiu que a UE poderia aumentar as importações de gás de outras fontes, incluindo 10 mil milhões de metros cúbicos (bcm) de gás canalizado de países como o Azerbaijão, bem como gás natural liquefeito do Qatar, Egito e até da Austrália, em 50 mil milhões de metros cúbicos.
Timmermans afirmou também que a UE poderia dobrar a produção de biogás, usando agricultura e resíduos alimentares, de 17 mil milhões de metros cúbicos para 35 mil milhões de metros cúbicos até 2030, e quadruplicar o uso de hidrogénio para 20 milhões de toneladas, o que reduziria o gás em 50 mil milhões de metros cúbicos.