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Xi Jinping promove na Europa a rota da seda desejada e temida

O líder chinês visita a partir de hoje a Itália, que vai integrar o seu megaprojeto de construção de infraestruturas de transporte entre a China e a Europa. A nova rota da seda traz grandes investimentos, mas incomoda as elites políticas da Europa e EUA.
Mapa da iniciativa rota da seda. Gráfico de Lommes/Wikimedia Commons.
Mapa da iniciativa rota da seda. Gráfico de Lommes/Wikimedia Commons.

A Itália será o primeiro país do G7 e do núcleo duro europeu a apoiar o projeto chinês da chamada nova rota da seda. Esta sexta-feira, o líder chinês Xi Jinping visita Roma para assinar uma série de acordos comerciais com o primeiro-ministro Giuseppe Conte, iniciando um périplo de uma semana que o levará também a França.

A nova rota da seda (Belt and Road Initiative) é um megaprojeto chinês de investimento em infraestruturas de transporte para modernizar as ligações entre a China e a Europa por via terrestre e marítima. Constitui uma prioridade da política externa chinesa, através da qual bancos chineses estão a conceder grandes empréstimos para a construção e modernização de portos, aeroportos, autoestradas, linhas ferroviárias e parques industriais ao longo de toda a massa continental eurasiática.

Treze países europeu já se associaram à rota da seda, nomeadamente na Europa de leste, seduzidos pela perspetiva de modernização de infraestruturas e criação de emprego. A falta de investimento ao longo de uma década, agravado pelas políticas austeritárias da UE, cria um vazio de estagnação económica que torna o investimento chinês altamente apetecível. Portugal também apoia formalmente o projeto: o governo quer integrar Sines como porto de ligação entre as rotas do extremo oriente e as rotas atlânticas para as Américas. A última visita de Xi Jinping à Europa passou por Portugal em dezembro passado, ocasião em que se firmou uma série de acordos.

A entrada da Itália na nova rota da seda constitui um salto qualitativo, pela importância e peso político do país na Europa, e está a suscitar desagrado entre as elites políticas europeias e norte-americanas. Estas veem na crescente influência económica chinesa o prelúdio de uma maior influência política. Com a administração Trump, esse desconforto traduziu-se numa linha política por vezes abertamente hostil, com o escalar de medidas protecionistas contra importações chinesas, ou a pressão atual sobre vários países para banir a Huawei das redes móveis 5G de última geração, por alegadas suspeitas sobre riscos de segurança.

Na Europa, apesar do distanciamento face a Trump, o desconforto com a influência chinesa, e a forma como esta tem conseguido aproveitar os falhanços políticos e económicos da UE, também está a ganhar expressão política. No passado dia 12 de março, a Comissão Europeia classificou pela primeira vez a China como um "rival sistémico que promove outros modelos de governação" diferentes dos europeus, e elaborou um programa de dez pontos que visa uma atitude mais dura nas relações UE-China. O programa fala em enfrentar os "efeitos de distorção da propriedade estatal estrangeira" ̣— referência às aquisições por capital chinês de empresas europeias cada vez mais importantes, como é o caso entre nós da EDP — e uma "relação económica mais equilibrada e recíproca". Será discutido esta sexta-feira na cimeira da UE em Bruxelas, onde o Brexit é o prato forte.

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