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Wirecard: o escândalo financeiro na estrela das fintechs europeias

Há pouco mais de duas semanas, a Wirecard era considerada uma das empresas financeiras mais bem-sucedidas na Alemanha. Agora, está envolvida num escândalo de enormes proporções, que implicaram a falência da empresa, a detenção do CEO e o repúdio do país. O que explica a ascensão e queda deste gigante do sistema financeiro?
Wirecard. Foto: Slush - additional/Flickr

Há pouco mais de duas semanas, a Wirecard era considerada uma das empresas financeiras mais bem-sucedidas na Alemanha e poucos colocariam em causa a sua credibilidade. Agora, está envolvida num escândalo de enormes proporções, que a levou à falência e a tornou uma vergonha para o país. O que explica a ascensão e queda deste gigante do sistema financeiro?

Vale a pena olhar para a história da empresa. A Wirecard foi fundada em 1999, num contexto em que a bolha do dotcom atravessava os seus melhores dias. Começou por funcionar como um processador de pagamentos online, permitindo aos sites recolher o pagamento dos consumidores. Em 2005, entrou na Bolsa de Frankfurt e, um ano mais tarde, adquiriu o banco online XCOM e expandiu-se para o setor bancário, passando a poder emitir cartões de crédito e gerir fundos.

Em 2008, após uma queixa sobre irregularidades nos balanços, a empresa foi alvo de uma auditoria realizada pela consultora EY, que passou a ser a sua auditora. Contudo, é em 2015 que os problemas começam a tornar-se mais claros. Nesse ano, o Financial Times publicou uma série de artigos intitulada “House of Wirecard”, na qual levantava várias dúvidas sobre a solidez das contas da empresa. A investigação jornalística levou o FT a suspeitar que pudesse haver um buraco de 250 milhões no balanço da empresa, o que não a impediu de continuar a adquirir empresas concorrentes e expandir o seu negócio (sobretudo, na Ásia). Os lucros avultados permitiam à Wirecard financiar estas operações de expansão, já que as ações e obrigações que emitia eram bastante procuradas pelos investidores. Markus Braun, o CEO da Wirecard, foi construindo a sua fortuna e tornou-se multimilionário. Chegou a contribuir com €70 000 euros para a campanha do chanceler austríaco Sebastian Kurz, que governou o país em coligação com a extrema-direita.

Em 2016, após novas denúncias anónimas de ilegalidades e de associação a esquemas de lavagem de dinheiro, a Wirecard recusou as acusações. Ao mesmo tempo, vários jornalistas, investigadores e investidores começaram a ser alvo de uma campanha de hacking, embora a sua origem não seja conhecida. Certo é que, no ano seguinte, uma nova auditoria da EY confirmou a saúde financeira da empresa e entusiasmou os investidores, com o valor das ações da empresa a disparar. Ao mesmo tempo que a Wirecard se tornava a maior fintech da Europa, o seu CEO, Braun, garantia em setembro de 2018 que os lucros não deixariam de aumentar. Faltavam poucos meses para o início do colapso.

Depois de uma denúncia de fraude nas operações da empresa em Singapura, as investigações começaram a revelar os seus problemas profundos: metade dos lucros reportados pela Wirecard era gerada por empresas subcontratadas (que geriam os pagamentos e pagavam uma comissão à gigante alemã, em regime de outsourcing), algumas sedes da empresa eram na verdade edifícios abandonados ou pertencentes a famílias pobres nas Filipinas, e nova auditoria da KPMG levanta dúvidas sobre os lucros que a empresa reportava em Singapura e na Irlanda. Em junho deste ano, a Wirecard acabou por ser forçada a admitir que há 1,9 mil milhões de euros “desaparecidos” e que as contas apresentadas no passado podem não ser fiáveis. Markus Braun, que se demitira, foi entretanto detido sob suspeita de envolvimento em falsos registos contabilísticos e manipulação de mercado, e a empresa anunciou que vai declarar insolvência.

Ascensão e queda da Wirecard. Gráfico publicado no Financial Times.

Além do buraco de 1,9 mil milhões de euros, que podem nunca ter existido, a empresa deixa ainda 3,5 mil milhões em dívidas que os credores poderão não recuperar. A EY reconhece agora ter encontrado “indicações claras de fraude sofisticada e elaborada, envolvendo várias partes em diversas instituições um pouco por todo o mundo”. A manipulação das contas, feita para aumentar artificialmente o valor das ações e garantir investidores, pode agora significar a ruína para quem apostou na gigante financeira. Ainda assim, há quem sorria com este colapso: alguns fundos de investimento, que apostaram na queda da empresa, lucraram 1,5 mil milhões numa semana.

Mariana Mortágua: "Há um normal funcionamento do capitalismo financeiro que não inclua a fraude constante?"

O escândalo da Wirecard expõe alguns problemas de fundo no que toca à ascensão das fintech, empresas tecnológicas que, não sendo bancos, desenvolvem operações financeiras e de gestão de créditos. A “finança sombra”, como foi apelidada, desenvolve este tipo de atividades à margem da regulação bancária. Há quem olhe para este escândalo como um ponto de viragem no que toca à regulação – o ministro das Finanças alemão, Olaf Scholz, disse que é preciso “repensar as estruturas de supervisão”. A BaFin (a Autoridade Federal de Supervisão Financeira alemã) tem estado sob fogo cerrado, com vários comentadores a criticarem a complacência da instituição perante a estrela das fintechs alemãs.

No entanto, o problema parece ser estrutural. Prova disso é a relação entre as empresas e as auditoras (particularmente, as Big Four, onde se inclui a EY), que são pagas para verificar as contas e, não raras vezes, fornecem outros serviços de consultoria e planeamento fiscal às mesmas empresas que auditam. Não surpreende, por isso, que a EY tenha passado vários anos sem reconhecer os problemas da Wirecard. Ao mesmo tempo, a indefinição em torno de quem tem o poder e os meios para supervisionar as fintechs abre espaço para as ilegalidades. Talvez por isso o crescimento da finança sombra nos últimos anos seja encarado como um dos maiores riscos para a economia global.

A economista e deputada do Bloco de Esquerda Mariana Mortágua lembrou ao Jornal de Notícias que práticas como estas não são novas: “Os métodos da Wirecard foram também os de outras empresas que, tal como esta, fizeram sucesso nos mercados financeiros. E se não forem estes, muitos outros casos acabam a levar-nos sempre à mesma pergunta: há um normal funcionamento do capitalismo financeiro que não inclua a fraude constante e ao mais alto nível?”. Mais de uma década depois do colapso financeiro de 2007-08, confrontamo-nos com a mesma questão.

 

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