Wirecard: ligações perigosas entre auditores, grandes empresas e elites políticas

08 de outubro 2020 - 12:26

No dia em que o escândalo financeiro da Wirecard foi tema de debate no Parlamento Europeu, o grupo parlamentar GUE/NGL defende neste artigo que a fraude não seria possível sem cumplicidades políticas e económicas ao mais alto nível.

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Sede da Wirecard em Aschheim.
Sede da Wirecard em Aschheim, perto de Munique. Foto de Leo Molatore/Flickr.

A insolvência do processador de pagamentos e empresa fintech alemã Wirecard AG já foi chamada de "a Enron da Europa", e é de longe o maior caso de fraude contabilística na história da Alemanha do pós-guerra. Com 3,5 mil milhões de euros de dívida e 1,9 mil milhões de euros em dinheiro desaparecido, a Wirecard é suspeita de ter praticado fraude contabilística para inflacionar os lucros antes do seu colapso no Verão. Grandes partes dos balanços da empresa foram também deturpados durante anos.

No seu âmago, o escândalo da Wirecard vai além da fraude sistemática; a elite política é cúmplice, tal como a conhecida firma de auditoria EY. Depois há a questão de saber porque é que a Alemanha está no centro de outro escândalo financeiro gigantesco. Depois de Luxleaks, cum-ex, Wirecard e FinCen, o sistema alemão parece extremamente suscetível ao crime financeiro e de colarinho branco, permitindo que as atividades criminosas prosperem.

Os contribuintes e os acionistas comuns ficaram a contar as suas perdas.

1) As falhas sistemáticas eram bem conhecidas

A Wirecard pode ter falido apenas este Verão, mas os seus balanços obscuros e as suas atividades menos transparentes há muito que deixaram de ser um segredo, com um lançador de alerta nos seus quadros a revelar irregularidades financeiras na empresa sediada em Munique ainda em 2016.

Desde inflacionar os seus próprios lucros, até deliberadamente não manter as contas e registos transparentes, o governo alemão e a autoridade federal de supervisão bancária do país, BaFin, sempre souberam que a Wirecard estava a conduzir atividades fraudulentas em grande escala.

O BaFin não só não fez quase nada, como até tomou medidas legais contra o Financial Times pela sua investigação sobre as atividades da Wirecard. Além disso, o Ministro das Finanças alemão Olaf Scholz defendeu o BaFin, dizendo que tinha sempre agido em conformidade com a lei. O que ele não mencionou é que o próprio sistema legal é deficiente e a supervisão adequada das atividades empresariais é praticamente impossível.

Contudo, não foi apenas o BaFin: o Gabinete Alemão de Auditoria de Contas (DPR) também assobiou para o lado. Isto não deveria ser uma surpresa, dado que só tinha um funcionário a trabalhar no ficheiro Wirecard, e que a maioria dos membros associados representa bancos, indústrias, câmaras de comércio e companhias de seguros. Do mesmo modo, a Unidade de Informação Financeira (FIU), que é supostamente responsável pelo combate à fraude financeira, ficou de braços cruzados, apesar das provas evidentes de delitos criminais.

2) Amigos em altos cargos...

Quem julga que supervisiona o BaFin e a FIU? Nada mais nada menos que o ministro das finanças alemão Olaf Scholz.

Mesmo antes do colapso da Wirecard, Scholz debatia-se contra as alegações de irregularidades por causa dos seus laços como presidente da câmara de Hamburgo com um banqueiro ligado ao esquema de fraude fiscal multibilionário cum-ex.

Também se soube que Scholz tinha conhecimento de que a Wirecard estava a ser investigada por alegada manipulação do mercado já em Fevereiro de 2019.

Ele não era o único ministro chamado a responder no Bundestag. O Ministro da Economia alemão Peter Altmaier também foi questionado sobre o escândalo Wirecard durante o Verão, tal como o Ministro da Justiça e outros da Chancelaria Federal. Uma vez que a Wirecard tinha sede perto de Munique, o Ministério do Estado da Baviera também foi chamado a responder. Representantes do Bundesbank, da Bolsa de Valores DAX e de uma série de organismos de supervisão também foram ouvidos perante o parlamento alemão.

Como foi permitido o crime financeiro sistémico por todos os níveis de governo na Alemanha? Que sinal envia aos cidadãos cumpridores da lei, e aos potenciais perpetradores de amanhã?

Um pouco tardiamente, Scholz apontou o dedo na outra direcção: empresa de auditoria, EY.

3) Uma mão lava a outra...

Sim, fulcral para o descalabro do Wirecard foi o papel desempenhado pela firma de auditoria, EY, e sublinha mais uma vez como os conflitos de interesses podem ser tão devastadores no setor financeiro.

A EY tinha auditado os balanços da Wirecard de 2011 a 2018, e de acordo com o Financial Times, realizou auditorias sem reservas ao longo deste período sem levantar o alarme. Agora, com o desaparecimento da Wirecard, a presidência do EY vangloria-se mesmo de que a auditora acabou por "ser bem sucedida na descoberta da fraude".

Contudo, sabemos o que estava a acontecer na Wirecard em 2016, porque um dos próprios funcionários da EY denunciou a fraude, e revelou num relatório da auditora rival KPMG que os gestores de topo da Wirecard "podem ter cometido fraude enquanto um outro tinha tentado subornar um auditor".

Apesar de a KPMG ter atenuado o relatório no final, as alegações eram contundentes. No entanto, não foi tomada qualquer medida na Wirecard: Jan Marsalek, então chefe adjunto da empresa e agora um fugitivo de colarinho branco procurado pela Interpol, certificou-se disso, e impediu qualquer tentativa do EY de investigar as alegações.

Todo este escândalo sublinha a relação íntima, lucrativa e simbiótica entre empresas de auditoria, grandes empresas e a elite política. O mantra é simples: não mordas a mão que te alimenta. De acordo com Fabio De Masi, deputado do Die Linke no Bundestag e antigo deputado europeu, o governo alemão pagou 400 milhões de euros em missões aos auditores das "Big Four" só nos últimos cinco anos.

Após o crash financeiro de 2008, quase nenhum auditor foi multado ou punido por não ter avisado o público. Essa cultura secreta e evasiva permanece endémica até hoje.

As empresas de auditoria raramente são responsabilizadas. Isto tem de mudar.

4) Vingança corporativa

Em 2008, quando o vice-presidente da Associação Alemã para a Proteção dos Investidores de Capital (SdK) alegou que a Wirecard estava a manipular os seus balanços, a empresa fintech intentou uma ação judicial contra ele. Em 2015, quando o Financial Times publicou uma série de reportagens de investigação intituladas "House of Wirecard", a Wirecard denegriu os seus repórteres Dan McCrum e Stefania Palma. Em 2016, um analista financeiro chamado Matthew Earl publicou online o "Relatório Zatarra" de 100 páginas sobre a Wirecard, mas fê-lo anonimamente por receio de represálias da Wirecard.

Como já foi referido, não só o órgão de supervisão da Alemanha não tomou qualquer medida, como a BaFin chegou mesmo a tomar partido pela empresa e apresentou queixas criminais contra aqueles que "difamaram" a Wirecard.

Esta cultura de medo, processos judiciais, aliados nos lugares certos e domínio empresarial deram à Wirecard o músculo não só para silenciar críticos e denunciantes, mas também para continuar a defraudar investidores, os mercados e muitos outros durante anos.

5) História de sucesso

No seu blogue, Nicolas Véron escreveu que muito do escândalo poderia ser imputado ao nacionalismo económico da Alemanha, que desencorajava qualquer tentativa de diminuir uma história de sucesso doméstica, como o Wirecard.

Véron acusou os políticos nacionais e os líderes da indústria pelo seu "impulso de proteger e promover os campeões empresariais nacionais cujo sucesso é de alguma forma considerado alinhado com o interesse nacional". Tal nacionalismo e atitude protecionista, escreveu ele, dissuadiu as autoridades reguladoras do país de fazer o que é suposto fazerem: proteger os investidores e assegurar a integridade do mercado de valores mobiliários alemão.

6) Pólo de criminalidade de colarinho branco

Com o escândalo Wirecard a dominar as manchetes na Alemanha, e as recentes histórias FinCen e cum-ex ainda frescas na mente das pessoas, deve questionar-se se o governo alemão é brando com o crime empresarial.

O Wall Street Journal pensa seguramente que sim, lembrando que foi a Califórnia que primeiro descobriu o escândalo da Volkswagen, o gigante dos automóveis que manipulava as emissões. Além disso, os EUA tinham imposto mais multas de lavagem de dinheiro ao Deutsche Bank do que a Alemanha. A lista de empresas que violaram o direito societário inclui todas as marcas alemãs mais conhecidas: Siemens, Deutsche Telekom e Daimler.

Não é de admirar que a Transparência Internacional Alemanha exija uma "reforma fundamental da supervisão financeira e uma lei abrangente de proteção de lançadores de alerta". O escândalo Wirecard, argumenta, não é apenas uma questão de danos de reputação, mas "revela problemas estruturais no sistema jurídico alemão".

 7) Respeito pelo dinheiro público?

Logo após o colapso da Wirecard, a Comissão Europeia afirmou que são necessárias alterações às regras  comunitárias sobre "requisitos de transparência para empresas cotadas na bolsa, normas contabilísticas e regulamentação existente destinada a eliminar os abusos de mercado".

No entanto, o nível de supervisão pelos reguladores também precisa de ser examinado. Uma preocupação mais imediata é que com a flexibilização das regras da UE sobre auxílios estatais devido à Covid-19, as empresas privadas receberam um total de 3 biliões de euros em dinheiro público desde o início da pandemia, incluindo o problemático Commerzbank da Alemanha, que mais tarde revelou ter sido muito exposto ao colapso da Wirecard.

Uma maior flexibilidade nos auxílios estatais exige, portanto, um maior escrutínio dos balanços das empresas privadas.

8) Enganados em milhões

Talvez um dos resquícios mais nefastos do escândalo do Wirecard seja o prejuízo para a confiança no sistema político.

Existe agora um dever moral de investigar como tais crimes empresariais puderam ser tão comuns e permanecer inquestionáveis durante tanto tempo.

Os pequenos aforradores suportaram o peso do colapso da Wirecard e da sua subsequente retirada da bolsa de valores alemã. Grandes mudanças regulamentares e legais são necessárias com urgência.


Artigo publicado no site do GUE/NGL. Traduzido por Luís Branco para o esquerda.net