As reportagens junto dos manifestantes realizadas por vários meios de comunicação social norte-americanos e europeus revelam a heterogeneidade deste movimento de cidadãos iniciado quase sem visibilidade na semana passada e que, aos poucos, vai conquistando audiência. Vários jornais coincidem registando as semelhanças com os protestos na Praça Tahrir do Cairo e, sobretudo, dos “indignados” em Espanha.
As redes sociais são o principal factor de mobilização e de surgimento de palavras de ordem. O presidente da Câmara de Nova York, Michael Bloomberg, ajudou a chamar a atenção dos órgãos de comunicação social para o assunto quando no domingo ordenou uma operação policial de caça aos manifestantes encurralando-os na Ponte de Brooklyn para os espancar e depois prender cerca de 700, libertados algumas horas depois para voltarem à concentração então já com muito mais companheiros. Foram acusados de “desordem na via pública, entrave à circulação e obstrução à autoridade”. Deslocavam-se sem qualquer perturbação no tabuleiro da ponte quando foram encurralados assaltados pelo contingente policial. Perante os acontecimentos, a estação de televisão Fox, identificada com as correntes republicanas, acabou por fazer subir a indignação de muitos jovens ao chamar “bando de preguiçosos” aos manifestantes.
Nas últimas horas foram detectadas concentrações de manifestantes, a maioria jovens, nas zonas financeiras de várias cidades, entre elas Nova Iorque, Chicago, Filadélfia, São Francisco e Boston, onde o movimento se expressa junto à Reserva Federal, o banco central norte-americano.
Segundo fontes dos manifestantes, as acções de protesto e debate atingem já mais de 100 cidades.
Em Nova Iorque, muito perto da Bolsa em Wall Street, os jovens criaram a “Praça da Liberdade”, onde se reúnem duas vezes por dia em assembleia geral para debaterem temas sociais como o desemprego, a falta de saídas para jovens licenciados, a precariedade, o controlo do Estado pelas grandes corporações e o domínio que um por cento da população, os ricos, exerce sobre o país.
Daí o aparecimento da designação de “Nós somos os 99%”, simbolizando a quase totalidade da população sem poder exercer de facto os seus direitos democráticos perante a “ditadura dos ricos”. Na “Praça da Liberdade” em Nova Iorque, onde o número de presenças foi bastante mais elevado segunda-feira do que domingo, segundo jornalistas no local, os activistas organizaram-se em comissões temáticas como por exemplo as finanças e as relações com os movimentos nas outras cidades. Na internet desenvolvem-se a grande ritmo blogues e sites relacionados com o movimento, além da intensa actividade de mensagens no Facebook e, sobretudo, no Twitter. Os activistas lançaram igualmente um jornal com quatro páginas intitulado The Ocupied Wall Street Journal.
O diário francês Le monde cita declarações de um jovem captadas no domingo e que se deslocou de Buffalo a Nova York – 650 quilómetros de distância. Estudante de engenharia, comentou que “o que se passa aqui é maravilhoso” e comungou da denúncia dos “lobbies que se apropriaram da democracia” e do poder da minoria de ricos. “Eles sentem-se invencíveis”, disse. “Tudo lhes serve para obterem lucros enquanto o dia-a-dia dos outros 99 por cento se deteriora desesperadamente”.
Por iniciativa própria ou a convite dos activistas para debaterem os problemas da sociedade norte-americana têm-se deslocado às concentrações algumas figuras públicas identificadas com o pensamento progressista ou alternativo em relação à crise económica e social. O cineasta Michael Moore e o professor de Filosofia Princeton Cornel estiveram com os manifestantes em Boston; em Nova Iorque foram convidados a fazer intervenções na “Praça da Liberdade” o prémio Nobel da Economia Joseph Stiglitz e o economista Jeff Madrick, autor de The Age of Greed, A Era da Cobiça, que rapidamente se transformou num best-seller.
Artigo publicado no portal do Bloco no Parlamento Europeu.