Uma investigação do jornal El Diário mostra como o partido de extrema-direita espanhol Vox desviou sete milhões de euros em quatro anos para uma fundação dirigida pelo seu presidente Santiago Abascal, não havendo pormenores sobre como grande parte deste dinheiro foi gasto.
A Fundação Disenso foi criada em 2020 pelo Vox a partir de um capital inicial de 30.000 euros. Agora gasta um milhão de euros por ano em “pessoal” e 1,3 milhões em “outros gastos de atividade” que, sublinha o jornal espanhol, não estão especificados. Isto apesar de, por ser considerada uma instituição sem fins lucrativos e ter benefícios fiscais, com obrigação de apresentar balanços.
O dinheiro que passa do Vox para esta fundação está livre de impostos e é uma fatia significativa do bolo total das contas do partido. O partido de extrema-direita declara receber dez milhões em subvenções públicas e cinco milhões de euros por ano em donativos.
A organização dedica-se a organizar congressos, colóquios e difundir notícias na página La Gaceta de la Iberosfera, cedida por Julio Ariza, que também detém o grupo de comunicação social ultra-conservador Intereconomía que inclui uma rádio e um canal de televisão. Declara poucas receitas e muitos gastos. Em 2022, arrecadou apenas 285 euros de “atividades mercantis” e 20.000 de “outros tipo de receita”. Ao nível da despesa, a empresa empregou, nesse ano, 12 pessoas para divulgarem notícias na La Gaceta de la Iberosfera (num total de 25 funcionários). Ao todo gastou com a página, em 2022, 704.000 euros, 250.000 em formação, 339.000 em colóquios e outras atividades do género. Isto para além da outra rubrica que chama a atenção, os “outros gastos de atividade” que somam 1,3 milhões de euros em despesas. Um grau de opacidade grande que faz o meio de comunicação social que fez a investigação escrever que não se sabe “que atividades concretas ou que empresas ou pessoas receberam”.
Como noticia ainda o El Diario, Abascal defendeu esta semana o trabalho da fundação. Numa intervenção pública numa reunião do partido, gabou a “relevância internacional” da que considera ser “hoje provavelmente a fundação mais respeitada em todo o âmbito da Hispanoamérica. Sem se referir a uma carta que foi enviada aos militantes para justificar as contestadas transferências de dinheiro para a fundação e à demissão do tesoureiro do partido, o deputado Juan José Aizcorbe.
Este abandonou o posto de chefe encarregado pelas contas do Vox depois da notícia das transferências para a Disenso e outra de que o Tribunal de Contas dizia haver “incerteza” sobre o destino dado a 332.548,09 euros recebidos pelo partido através de caixas multibanco. Porque se foram “doações” e não “venda de produtos”, como justificou o Vox, haveria infração da lei de financiamento dos partidos por “não terem sido identificados os possíveis doadores”. Outra das advertências ao partido de extrema-direita era que o dinheiro recolhido para atacar rivais políticos pode constituir uma “irregularidade sancionável”. Apontavam-se ainda gastos não justificados de 41.812,24 euros em cartões de crédito.
Esta quinta-feira, outro órgão de comunicação social, o Huffington Post, analisa mais uma peça do puzzle das contas do Vox, a Tizona Comunicación SL, propriedade de Gabriel Ariza, filho de Julio, e de Kiko Méndez Monasterio, ex-assessor parlamentar do Vox, atual secretário da Fundação Disenso e amigo íntimo de Abascal, que faz trabalho de consultoria e comunicação para o partido.
Entre 2018 e 2022, esta ganhou 3,7 milhões de euros e gastou mais de 2,7 milhões de euros em serviços e “outros gastos de exploração” que não são especificados. 99% dos ganhos terão sido gastos em “serviços externos” em 2022; no anterior tinham sido 63%, dois anos antes 58%, em 2019 foram 92%. Em 2018 tinha tido um volume de negócios de apenas 13.700 mas gastou 42.050 em serviços externos.
A empresa é identificada como “o cérebro do partido”: dá formações a porta-vozes, elabora e prepara discursos, segundo o jornal, “em exclusivo ao Vox e aos seus satélites”. E as fontes do HuffPost asseguram que a Disenso serve como “veículo e instrumento” para “desviar dinheiro para terceiros”, ou seja, financiar as vários “componentes do seu ‘universo’ empresarial”. Como é uma empresa privada, as suas contas não passam pelo crivo do Tribunal de Contas.
Mas o inverso acontece e o relatório do Tribunal de Contas já citado, referente a 2018 e 2019, contabilizava faturas no valor de 516.670 euros só no último destes anos, realçando que estas “indicam conceitos de carácter genérico” e avaliando que “seria conveniente que recolhessem um maior detalhe sobre as unidades faturadas, a natureza dos serviços prestados e as datas de prestação dos mesmos, dados o elevado volume faturado”.
Cruzando esta informação com as contas comunicadas pela Tizona fica-se a saber que mais de 75% dos seus negócios diziam então respeito a contratos diretos com o Vox. Mais, a sede atual da empresa está registada onde existia a sede do Vox até 2019 e onde a Disenso organiza as suas ações.
Conclui-se assim que “é cada vez mais complicado saber onde começa a Tizona e acaba a Disenso ou, o que é o mesmo, onde estão os limites entre os negócios da familia Ariza e os de Abascal”.