No início de maio, as sondagens para as eleições europeias em França dão a vitória ao Rassemblement National (RN), partido de Le Pen agora liderado por Jordan Bardella, com 31,1% dos votos. Segue-se o partido de Macron, Renascimento, com 17,5% e o Partido Socialista com 12,2%. A França Insubmissa tem vindo a ganhar terreno, passando para quinta força política com 7,4%.
Os resultados em França terão particular impacto na composição do próximo Parlamento e das possíveis coligações, especialmente com a perda de eurodeputados do partido de Macron, o qual tem assumido um papel de liderança entre os liberais europeus (Renew), e o crescimento do RN. Espera-se que a atual coligação entre o Partido Popular Europeu (PPE), os sociais-democratas (S&D) e os liberais seja substituída por uma coligação com a extrema-direita.
Eleições europeias vistas como oportunidade para derrotar Macron
Há uma tendência transversal aos vários países para que as campanhas se foquem em temas nacionais. No caso francês é particularmente verdade por servirem como eleições intercalares até às eleições presidenciais de 2027, nas quais Macron poderá ser derrotado.
Depois de várias polémicas, como a reforma das pensões que levou a uma onda de protestos, o partido Renascimento tem vindo a perder popularidade. Mais recentemente, a gestão orçamental tem estado no centro do debate. Em fevereiro, Gabriel Attal anunciou cortes orçamentais na ordem dos 10 mil milhões de euros, prejudicando especialmente as áreas da transição ecológica, política ambiental e educação. O anúncio veio no seguimento da apresentação de um défice orçamental maior do que o esperado e já em linha com a revisão das regras da governação económica.
Tanto os Republicanos, partido de direita tradicional que tem vindo a perder importância, como o RN têm criticado as escolhas orçamentais de Macron, acusando-o de gastos públicos excessivos. Le Pen, por exemplo, mudou a sua retórica e passou agora a defender uma postura de “contas certas”, alimentando a fraqueza política de Macron através desta alegada crise orçamental.
Já a França Insubmissa, que tem sido bastante crítica da reforma das regras europeias pelo viés de austeridade que aplicam, defendeu que se fizesse um referendo nacional sobre estes cortes orçamentais, o que acabou por não ter adesão política.
Defesa, Pacto Ecológico e política migratória no centro do debate
O primeiro debate entre os candidatos foi marcado pela discussão sobre a criação de um exército europeu; a política climática europeia, em particular a proibição de veículos poluentes a partir de 2035; o novo pacto migratório e a China enquanto desafio económico.
Parece haver um consenso entre os partidos, excetuando o Reconquête, partido de extrema-direita liderado por Éric Zemmour, e o Rassemblement National, em repensar a política de defesa da UE, e de França em particular, independentemente da NATO, especialmente tendo em vista a possível eleição de Trump. Uma das opções apresentadas seria a criação de um exército europeu.
No entanto, apenas a França Insubmissa coloca a paz como prioridade, desagravando a escalada armamentista da UE, incluindo através da recusa de compra conjunta de armamento. No primeiro comício do partido, Mélenchon, antigo líder do partido e agora também candidato às europeias em lugar não elegível, defendeu três condições necessárias para uma paz duradoura: cessar-fogo imediato e permanente na Palestina, um referendo de entendimento entre a Ucrânia e a Rússia quando as negociações de paz terminarem, e a criação de zonas desmilitarizadas em torno de centrais nucleares.
Quanto à política migratória, Manon Aubry, atual líder da FI e cabeça de lista às europeias, criticou o novo pacto aprovado recentemente, chamando-lhe de “desumano e ineficaz porque transformou o nosso Mar Mediterrâneo num cemitério a céu aberto”, e acusando a Frontex de ser “uma agência de morte nas fronteiras da União”.
No início deste ano, foi promulgada a lei de imigração “mais dura de sempre”, permitindo deportar imigrantes mesmo que estejam em França há 20 anos, caso sejam considerados uma “ameaça grave à ordem pública”. A extrema-direita não conseguiu ver incluídas as suas propostas, mas batalha para que sejam adotadas em legislação futura. Inclui medidas como a instauração de quotas anuais de imigrantes, atraso do acesso aos benefícios da segurança social, criar entraves à atribuição da nacionalidade aos filhos de imigrantes ou criminalizar a permanência irregular em França.
Em entrevista, Fabrice Leggeri, ex-diretor executivo da Frontex e terceiro na lista da RN, apontou como principais preocupações a migração ilegal e as metas do Green Deal europeu, bem como o baixo crescimento económico, a burocracia da UE e a abertura do mercado único aos países terceiros. Defendeu expressamente que “somos muito generosos como europeus e consideramos que isso é ingénuo, nomeadamente em termos comerciais”.
Por fim, o descontentamento dos agricultores, cujos protestos têm enorme adesão em França, tem sido um dos temas principais. Enquanto Bardella o aproveita para criticar a política ambiental europeia, apelidando-a de “punitiva”, Aubry salienta a concorrência desleal do grande agronegócio e da necessidade de redesenhar a PAC.