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Vales de compras para angariar trabalhadores na área da saúde são “insultuosos”

O Hospital Beatriz Ângelo e a Linha SNS24 estão a oferecer vales do Pingo Doce aos trabalhadores que façam mais de 40 horas semanais ou angariem outros profissionais de saúde. "O SNS e a saúde não são um esquema em pirâmide para angariação de novos membros", diz o Bloco de Esquerda.
Vales de compras para angariar trabalhadores na área da saúde são “insultuosos”, diz Bloco
Fotografia de Paulete Matos.

Para incentivar os profissionais a fazer mais de 40 horas semanais e angariar novos trabalhadores, o Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, e a linha SNS24 estão a oferecer vales de compras para os supermercados Pingo Doce.

A Linha SNS24 comunicou por email que está a oferecer "um prémio temporário, associado ao período da pandemia, mas que muito se justifica neste período de grande esforço e dedicação por parte de todos”, lê-se no documento a que a agência Lusa teve acesso.

A tabela que vem associada ao e-mail aponta para prémios aos enfermeiros que fizerem mais de 40 horas semanais, que se traduzem em vales com valores que variam entre os 25 aos 100 euros para gastar na cadeia de supermercados Pingo Doce.

"O valor dos vales varia de acordo com as premissas alcançadas por cada prestador no mês", refere o e-mail dirigido aos trabalhadores na área da saúde. Estes valores estão a ser oferecidos pela Altice, responsável pela gestão da linha.

Por sua vez, o Hospital Beatriz Ângelo, segundo denúncia do Bloco de Esquerda, está a oferecer “incentivos” que oscilam dos "100 aos 250 euros em vales de compras” e destinam-se a "quem consiga angariar outros profissionais para Unidades de Cuidados Intensivos, Enfermarias e Bloco Operatório”.

João Paulo Carvalho, presidente da secção Norte da Ordem dos Enfermeiros, considera estas ofertas "indignas e descabidas" por "faltarem ao respeito" dos profissionais de saúde.

"Ficamos estupefactos com estas duas situações. Nunca tínhamos visto tal. Não se pode tratar os enfermeiros como se estivessem a angariar pessoas para reuniões da 'tupperware'. A classe merece ser respeitada. Se querem reconhecer e fixar enfermeiros então que criem carreiras mais apetecíveis e melhores condições", disse João Paulo Carvalho à agência Lusa.

Este “atentado à dignidade”, explica o dirigente, "não garante qualidade ao Serviço Nacional de Saúde, nem recompensa o trabalho árduo de uma classe profissional”.

O Bloco de Esquerda quer que o Ministério da Saúde atue nestas duas situações que o partido qualifica como indignas e insultuosas. 

“Os profissionais de saúde desempenham um trabalho fundamental na sociedade (principalmente em tempo de pandemia) e devem ser remunerados condignamente por esse mesmo trabalho através de uma carreira e de uma tabela salarial justas” e não através de vales ou prémios, explica a pergunta feita pelos bloquistas (disponível para consulta aqui).

"O SNS e a saúde não são um esquema em pirâmide para angariação de novos membros e o trabalho dos profissionais de saúde merece bem mais do que um vale de compras e uma palmadinha nas costas”. Por isso, dizem, o Ministério da Saúde "deverá intervir face aos vários casos de precarização laboral”. O partido quer ainda saber "se o Governo irá combater a precariedade associada à covid-19, começando por transformar em permanentes todos os contratos de quatro meses para o SNS".

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