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Hospitais começam a suspender cirurgias não prioritárias para responder à covid-19

Com o aumento da sobrecarga criada pela segunda vaga da pandemia do novo coronavírus, os hospitais começaram a recorrer à transferência inter-hospitalar de doentes e a atividade cirúrgica não prioritária começa a estar em causa.
Fotografia de Paulete Matos.

O impacto da segunda vaga da pandemia de covid-19 já se nota nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde e estes começam a preparar-se para pôr em prática medidas de contingência mais adequadas à atual sobrecarga dos serviços.

Em notícia publicada na sua edição de hoje, o jornal Público dá conta de planos para suspender a atividade cirúrgica não programada, reforço da capacidade de transporte inter-hospitalar de doentes, aumento da resposta em todas as Administrações Regionais de Saúde (ARS) e a defesa da aplicação de medidas mais apertadas de confinamento social.

Para Artur Paiva, presidente do Colégio de Medicina Intensiva da Ordem dos Médicos e também presidente da Comissão de Acompanhamento da Resposta Nacional em Medicina Intensiva, é preciso “fortalecer” o transporte entre hospitais de doentes em estado crítico.

“É natural que esse transporte de doentes entre hospitais e até entre regiões, que é um sinal da ‘bondade’ do sistema, possa aumentar. Logo, é preciso que a capacidade de transporte de doentes seja redimensionada para responder ao aumento da procura”, defendeu em declarações ao Público.

Para o profissional, o SNS deveria estar já a ativar todas as camas possíveis de modo a ampliar a capacidade da medicina intensiva.

“É absolutamente fundamental que seja diminuída, ou até suspensa, a atividade cirúrgica eletiva não prioritária, isto é, aquela em que o cidadão não vê o resultado clínico prejudicado pelo diferimento da intervenção, em favor da capacitação da medicina intensiva”.

E se o confinamento nas tardes de fim-de-semana ainda levará algum tempo a fazer-se sentir nas taxas de novos diagnósticos, Artur Paiva defende que o Governo vá ainda mais longe nas medidas de confinamento social.

“O confinamento ficou muito centrado no fim-de-semana, e compreensivelmente para tentar salvaguardar a atividade económica, mas creio que o período dos cinco dias da semana ainda favorece muitos contactos sociais que podem tornar as medidas adotadas insuficientes. Na minha opinião dever-se-ia ir mais longe, com toda a gente que pode a fazer teletrabalho, por exemplo”, argumenta.

No Centro Hospitalar e Universitário de Lisboa Norte, a que pertence o Hospital de Santa Maria, a capacidade do serviço está entre os 90% e os 95%. Os doentes com covid-19 ficam internados em média cerca de três semanas nos cuidados intensivos. E “a proporção de doentes com covid está a aumentar”, refere João Ribeiro, diretor de medicina intensiva. “É uma situação que caracterizo de emergência sanitária”.

“Santa Maria ainda não está no limite da capacidade de medicina intensiva, mas só vai ser possível à custa do abrandamento ou até da suspensão de atividade não prioritária”, acrescenta, para adiantar que será necessário “mobilizar profissionais de outras áreas” para este serviço.

Este hospital, tal como o Hospital de São José, em Lisboa, e o São João, no Porto, são referência para o tratamento de doentes com ECMO, um dispositivo de circulação extracorporal. Em Santa Maria, este serviço tem 14 aparelhos e a taxa de utilização está perto dos 90%. Esta tem sido a solução de recurso para doentes covid mais graves, a quem a ventilação mecânica não tem dado resposta. “É um recurso muito complexo. Só médicos muito treinados conseguem aplicar esta técnica de forma segura. O nosso drama é que nos estamos a aproximar do limite de capacidade de intervenção nesse nível”, explica o médico. Só este fim de semana, o hospital de São José recebeu quatro doentes com covid-19 da região Norte que necessitaram de ECMO.

Os relatos de sobrelotação de serviços surgem um pouco por todo o país. O Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra tem 17 doentes internados nos cuidados intensivos e apenas duas camas disponíveis - no nível máximo são 49 camas. Mas a atividade programada não urgente já está a ser afetada.

“Por motivos de recursos de espaço físico e de recursos humanos ficou comprometida a atividade cirúrgica no pólo Hospital Geral e a atividade da Unidade de Cirurgia de Ambulatório”, que se localiza no mesmo hospital.

Também o Hospital de Loures tem ocupadas sete das oito camas de cuidados intensivos e avisa que a atividade programada “começa a ser afetada”.

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