A 22 de fevereiro de 1980, Valerio Verbano, militante de dezanove anos da Autonomia Operaia, movimento da esquerda radical italiana, foi assassinado no seu apartamento, em Roma, por um comando neofascista composto por três pessoas, na presença dos pais, que haviam sido amarrados e amordaçados. Apesar dos numerosos indícios reunidos ao longo das décadas, os responsáveis nunca foram identificados e nenhum processo judicial foi instaurado. Todos os anos, no dia 22 de fevereiro, milhares de pessoas reúnem-se nos bairros de Monte Sacro e do Tufello, zonas populares da área nordeste de Roma, para lembrar o assassinato, que se tornou um dos símbolos da memória antifascista ligada aos militantes de esquerda mortos durante o conflito político e social daquele período. Este ano o cortejo realizou-se no sábado, véspera da efeméride, e voltou a juntar milhares de pessoas.
Contexto histórico
Entre o final dos anos 1960 e o início dos anos 1980, a Itália viveu o período conhecido como anos de chumbo, marcado por terrorismo, repressão e forte conflito político. A partir de uma perspectiva interpretativa ligada à esquerda antagonista, a chamada estratégia da tensão indica o uso sistemático de atentados, violências neofascistas e setores dos aparelhos do Estado para produzir medo social, desestabilizar os movimentos e bloquear qualquer transformação política.
O assassinato
Na tarde de 22 de fevereiro de 1980, os integrantes do comando entraram no apartamento da família Verbano fingindo ser amigos do filho e imobilizaram os pais, amarrando-os e amordaçando-os em um cômodo. Em seguida, permaneceram à espera de seu retorno. Quando Verbano chegou em casa, encontrou imediatamente os três agressores. Seguiu-se uma breve, porém violenta, luta, durante a qual ele conseguiu inclusive desarmar um deles. No decorrer do confronto, foi atingido por um disparo nas costas: o projétil perfurou seu intestino e provocou uma hemorragia interna que o levou à morte em poucos minutos. Após atirar, os autores fugiram, deixando no apartamento uma balaclava, uma pistola calibre .38 com silenciador e outros objetos. Anos depois, no encerramento das investigações, esses vestígios foram destruídos por decisão judicial, comprometendo de forma definitiva a possibilidade de novos exames técnicos.
O arquivo de Verbano
Segundo os pais, os autores do ataque começaram imediatamente a procurar algo dentro da casa. O principal objetivo do grupo não teria sido apenas o assassinato, mas a recuperação do material que Verbano vinha reunindo há anos sobre a extrema-direita romana. Grande parte de sua atividade política estava voltada sobretudo para a contra-informação, isto é, para a recolha de informações sobre integrantes da extrema-direita da capital.
Verbano dividia a sua militância entre os coletivos estudantis e os coletivos territoriais da Autonomia Operaia, entre eles o Comité de Luta de Valmelaina, coletivo político de bairro da região onde morava. O trabalho de arquivo consistia na recolha sistemática de nomes, sobrenomes, apelidos, funções, vínculos pessoais e políticos, bem como de ações das quais as pessoas citadas teriam participado. Em muitos casos, eram anotados também endereços e números de telefone. As informações provinham de diferentes fontes: artigos de jornal, contactos indiretos, redes militantes, amigos de amigos. Em outros casos, eram recolhidas diretamente. Verbano, junto com outros companheiros, posicionava-se nas proximidades de manifestações ou de locais frequentados por militantes da extrema-direita e, utilizando uma lente teleobjetiva, tirava fotografias que depois eram associadas aos nomes inseridos no dossiê. Apesar da pouca idade e dos meios limitados empregados, esse trabalho de contra-informação se ampliou ao longo do tempo e tornou-se extremamente detalhado, a ponto de permitir a reconstrução de um quadro quase completo da galáxia da direita radical romana. Esse material — fotografias, perfis individuais e anotações — constituía a parte mais sensível do arquivo, pois tornava reconhecíveis militantes e quadros dirigentes da extrema-direita ativos em Roma.
Apesar da idade de Verbano e dos recursos limitados à disposição, o trabalho tornou-se muito detalhado, chegando a delinear um quadro quase completo da direita radical romana, em particular dos Nuclei Armati Rivoluzionari (grupo armado neofascista), da Terza Posizione (organização neofascista) e do Movimento Sociale Italiano (partido político de extrema-direita). O material incluía ainda referências a assaltos, homicídios, agressões, apoio logístico, financiamento por meio do tráfico de heroína e à existência de campos de treinamento paramilitar em diversas regiões da Itália. Num contexto marcado por atentados e tentativas de golpe de Estado, a posse de informações detalhadas sobre estruturas e militantes da extrema-direita era considerada, no interior dos movimentos, um instrumento de autodefesa política. No arquivo aparecia também o nome de um agente do Servizio Informazioni Difesa, o serviço secreto militar italiano da época, indicado como próximo a ambientes neofascistas.
Prisão e apreensão do material
A partir de abril de 1978, Verbano passou alguns meses na prisão de Regina Coeli, após ter sido detido enquanto fabricava um cocktail molotov num edifício abandonado de um bairro periférico de Roma. Durante a busca `a sua residência, a polícia apreendeu uma pistola e todo o arquivo. Esse material nunca foi devolvido nem tornado público, determinando a perda definitiva de anos de trabalho de contra-informação. Nos dias seguintes, a existência do arquivo foi divulgada pela imprensa nacional — entre eles o jornal Il Messaggero, um dos principais diários de Roma — expondo ainda mais Verbano. Após sair da prisão, em novembro de 1979, manteve um perfil mais discreto, afastando-se dos confrontos de rua. No entanto, já recebia ameaças telefónicas.
A hipótese de vingança
Em setembro de 1978 ocorreu uma rixa entre militantes de esquerda e um grupo da Terza Posizione na Piazza Annibaliano, uma praça localizada na área central de Roma. Durante o confronto, um militante de direita ficou levemente ferido e Verbano perdeu os seus documentos, permitindo que os adversários chegassem ao seu endereço. Essa hipótese de vingança direta foi posteriormente considerada pouco consistente pelo próprio pai de Verbano.
Investigações e memória
A destruição de uma parte significativa das provas e a ausência de um processo judicial comprometeram de forma duradoura a possibilidade de identificação dos responsáveis. Hoje, na ausência de um processo judicial, a principal reconstrução do assassinato de Verbano baseia-se em investigações independentes e em trabalhos de pesquisa histórica e jornalística. Em particular, dois livros contribuíram de maneira decisiva para a reconstrução do caso: Valerio Verbano. Uma ferida ainda aberta. Paixão e morte de um militante comunista, de Marco Capoccetti Boccia, e sobretudo Valerio Verbano: morto por quem, como e por quê, de Valerio Lazzaretti. Por meio de uma reconstrução detalhada dos ambientes da extrema-direita romana entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980, o trabalho de Lazzaretti relaciona pessoas, siglas, armas, modos de atuação e retratos-falados, oferecendo um conjunto coerente de indícios sobre o contexto e as responsabilidades do assassinato.
Sebastiano Palamara é jornalista freelance e colaborador do Spazio70, DinamoPress e de outras publicações.