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A vacina não é um bem comum

Os Estados não se comportaram de forma a criar um bem comum global. Mesmo com uma pandemia ameaçando toda a humanidade, o espírito de concorrência supera o espírito de cooperação. A economia de mercado não tem sentimentos. Por Christian Chavagneux.
Ainda não está claro como e a que preço os países mais pobres poderão ter acesso às vacinas - Foto Agência Brasil
Ainda não está claro como e a que preço os países mais pobres poderão ter acesso às vacinas - Foto Agência Brasil

Não é difícil saber agora quem será a personalidade do ano 2021: a vacina anti-Covid! Estávamos à espera de alguém simpático, de algum tipo de benfeitor da humanidade. Acabou por se revelar o resultado de segundas intenções e de lutas económicas, juntamente com alguns pais gananciosos.

No entanto, no início de maio, quando a Europa ainda estava presa no seu primeiro confinamento, os seus dirigentes prometeram-nos um mundo maravilhoso. Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, Charles Michel, presidente do Conselho Europeu, e Giuseppe Conte, Emmanuel Macron, Angela Merkel e a norueguesa Erna Solberg assinaram um texto conjunto cheio de esperanças nas vacinas que virão: “Tratar-se-á de um bem público global único do século XXI”. E o presidente francês acrescentou que seria “um bem global da humanidade, e não propriedade de um ou de outro”. Oito meses depois, uma realidade totalmente diferente se impõe.

Instintos gananciosos

Um número poderia resumir o que está a acontecer agora: de acordo com o último relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), de 6 de janeiro, nada menos que 235 vacinas estão a ser investigadas. E não apenas pelas belezas da ciência!

Um grande desperdício de dinheiro porque não haverá espaço para tantos produtos, com os primeiros laboratórios a vencer nos primeiros meses deste ano. Mas muitos candidatos se lançaram na corrida: inventar um bem de que todo o planeta precisa e pago em parte com dinheiro público, a economia de mercado não pode fazer melhor!

O exemplo mais flagrante é dado por Stéphane Bancel, CEO da Moderna, quando, na sua recente entrevista ao Express, tenta justificar o motivo pelo qual o preço da sua vacina é muito maior do que o da BioNtech, na ordem de 20-30 dólares a dose segundo diferentes estimativas: “Nós não queremos maximizar o lucro nem o preço de venda, mas eu quero tornar a empresa Moderna sustentável”. Dito claramente: não reclame, eu poderia ter pedido mais, mas ainda assim tem que valer a pena!

O modelo de negócios dessas empresas de biotecnologia é investir enquanto esperam pelo produto milagroso que lhes fará ganhar muito dinheiro. Como explica Stéphane Bancel: “Desde a criação da empresa há dez anos, investimos quase 3 mil milhões de dólares e nunca vendemos um único produto nem obtivemos um único centavo de lucro. Era importante gerar caixa para continuar a investir e desenvolver outras vacinas, outros tratamentos”.

Mesmo quando se trata de responder a uma pandemia global, e inclusive, como sublinha esta informação da BBC, quando o trabalho da Moderna foi pago com dinheiro público: rentabilidade máxima!

Mesmo que ainda haja áreas cinzentas a serem removidas, a estratégia de preços da AstraZeneca, baseada nas descobertas do Instituto Jenner da Universidade de Oxford, visa vendas a preço de custo, de alguns dólares a dose, mas em um grande volume. Um comportamento menos ganancioso a priori.

A guerra dos Estados

Os Estados não se comportaram de forma a criar um bem comum global. Em vez disso, cada um queria ter certeza de que a vacina seria produzida primeiro no seu território. A China desenvolveu a sua própria vacina e a Rússia também. Os Estados Unidos deram a maior parte dos seus subsídios públicos à Moderna, uma empresa americana. De acordo com analistas do Deutsche Bank, os americanos também pagaram à Pfizer e fizeram um seguro com pedidos da Sanofi.

Os europeus, por sua vez, deram prioridade aos laboratórios e start-ups locais: 300 milhões de doses encomendadas no final de agosto à AstraZeneca (produção na Alemanha, nos Países Baixos e Reino Unido), 300 milhões de doses em meados de setembro à Sanofi (França e Europa), 200 milhões no início de outubro à filial europeia da Janssen, 200 milhões em 11 de novembro à vacina alemã da BioNTech (mais 200 milhões neste mês de janeiro), e somente no final de novembro e meados de dezembro para pedidos, menores, para os americanos Moderna e Novavax. Sob as ternas palavras dos bens comuns, os dirigentes europeus entenderam que estavam comprometidos com uma guerra económica!

Considerações puramente políticas também estiveram presentes em alguns países: a Hungria, tentando obter suprimentos dos russos para não depender dos procedimentos de uma União Europeia que denuncia os seus ataques ao Estado de direito; ou o Irão, o que prefere usar a vacina desenvolvida em Cuba.

Depois da iniciativa da Covax a seu favor, ainda não está claro como e a que preço os países mais pobres poderão ter acesso às vacinas.

Mesmo com uma pandemia ameaçando toda a humanidade, o espírito de concorrência supera o espírito de cooperação. Depois de economias paralisadas, centenas de milhões de empregos perdidos, desigualdades crescentes e dois milhões de mortes, a hubris vence. A economia de mercado não tem sentimentos.

Artigo de Christian Chavagneux, publicada por Alternatives Économiques, a 14 de janeiro de 2021. Tradução para português de André Langer, para IHU Unisinos.

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