“As palavras que aqui estão não são só as palavras da Anabela, são também as palavras da concelhia da Amadora”. Foi assim que Anabela Rodrigues começou a sua intervenção na apresentação da sua candidatura, este sábado no Restaurante dos Bombeiro Voluntários da Amadora.
A ativista anti-racista e pelos direitos dos imigrantes escolhida pelo Bloco de Esquerda para disputar a Câmara Municipal da Amadora escolheu o tema da “unidade na Amadora” para lançar a sua campanha. “Nós não somos todos iguais na Amadora. Somos seis freguesias, todas diferentes”, tanto a nível da “sua naturalidade, da sua situação económica, das culturas diferentes, dos pensamentos políticos diferentes e religião diferente”.
“Mas isso não deve significar que somos uma Amadora dividida, de uns e de outros”, disse Anabela. “Somos a Amadora com tudo isto”. A candidata do Bloco de Esquerda lembrou que existe uma Amadora visível e uma Amadora invisível, referindo-se em concreto às “centenas de mulheres migrantes e racializadas” que saem entre as quatro e as sete da manhã para trabalhar nas limpezas às “centenas de homens que saem para construir em Lisboa”.
Entre essa Amadora invisível estão também as pessoas que “tentam ter um número para terem acesso à saúde, aos serviços públicos” e que “já sentiram na pelo o frio da madrugada e a desconsideração pelas suas tarefas, por serem de um tom de melanina diferente, por serem pobres”.
Anabela Rodrigues apontou que a própria Amadora está dividida pela linha da estação de comboio que é “também uma metáfora desta divisão de pessoas” e lembra a Amadora da Cova da Moura, “que ainda resiste”, mas também dos bairros “da Azinhaga, das Estradas Militares, das Fontainhas, do 6 de Maio, do Estrela de África, da Venda Nova, do Sucupira, do Santa Filomena”, que “não foram alvo de procura de uma melhoria continua da qualidade de vida”. A essas pessoas e a todas as que vivem na Amadora, a candidata do Bloco de Esquerda à Câmara Municipal da Amadora, deixa o compromisso do partido com “garantir o direito à habitação”.
“Hoje neste sala temos as gentes da Amadora. As que lutam por serviços de saúde de qualidade, que insistem, como nós, no Amadora-Sintra”, disse Anabela. “Temos gente que limpa e cuida, que continua na luta por melhores condições de trabalho”.
E dedicou também uma palavra ao debate sobre racismo e xenofobia, que impede que “determinadas comunidades”, devido “ao seu passado de imigração ou tom de melanina”, continuam a ser impedidas do acesso “a bens, serviços e oportunidades”. Mas relembrou também a violência policial que matou Angelo, Kuku, PTB e Odair Moniz. “Vivemos na cidade em que as polícias andam armadas com shotgun para patrulhar”, disse. “O Bloco não vai parar de falar de imigração e racismo nas assembleias de freguesia, na Câmara e na Assembleia Municipal”.
Anabela Rodrigues foi a primeira mulher negra portuguesa a ocupar o cargo de deputada no Parlamento Europeu, eleita pelo Bloco de Esquerda, em 2024, após décadas de trabalho no terreno. Filha de pais cabo-verdianos, viveu sempre no Bairro da Cova da Moura. Tem atuado como mediadora social e cultural, junto das populações mais desfavorecidas da área metropolitana de Lisboa. Foi também um rosto da campanha “Por outra Lei da Nacionalidade”
“Belinha”, como é conhecida nos meios associativos, apresenta-se como “filha da Maria, mulher de uma ex-colónia portuguesa, empregada doméstica e de limpeza durante a sua vida em Portugal” e considera-se inspirada na sua atividade política pelo pensamento de Amílcar Cabral.
“Bloco representa interesses maioritários e é por isso que a Anabela nos representa”
Mariana Mortágua também falou na apresentação da candidatura, aproveitando a oportunidade para falar de “interesses e conflito de interesses”, que “começam na habitação”. A coordenadora do Bloco de Esquerda referiu-se à polémica relativa à nova Lei dos Solos que envolveu Hernâni Dias, Castro Almeida e Luís Montenegro.
“Como é que um governo que vê um mundo a partir dos seus interesses e da sua carteira pode olhar para Portugal e trazer respostas para o povo?”, questionou a dirigente bloquista. Mariana Mortágua disse que a política em si é um “conflito entre diferentes interesses” e deixou uma declaração dos interesses do Bloco de Esquerda.
“Estamos do lado de quem não consegue pagar a renda com o seu salário”, afirmou. “Nós fazemos uma escolha todos os dias. Cada vez que votamos, cada vez que falamos, cada vez que nos candidatamos a um cargo. Nós escolhemos representar um país que trabalhar e uma maioria que sofre e que merece uma vida boa”.
O Bloco “escolhe o mundo real, o país de verdade, e é por isso que a Anabela nos escolheu a nós. O Bloco representa os interesses maioritários e é por isso que a Anabela nos representa nas eleições autárquicas”.