Hoje é domingo. O Odair saiu de casa e já não voltou. Hoje a sua morada passará a ser o cemitério da Amadora.
Assim como ele, muitas pessoas dos bairros da Amadora, Lisboa, Oeiras e Cascais, saem de casa sem a certeza de voltarem. Todas as pessoas têm a certeza desde pequenos que podem estar impedidas de circular livremente no seu próprio bairro devido a constantes rusgas. Sabem que seus filhos, irmãos, primos, vizinhos serão possivelmente encostados à parede pela PSP que existe para proteger e fazer cumprir a lei. Nestes lugares sabemos que não conhecemos a sua proteção. Ser-se tolerado no teu próprio bairro, ser-se tolerado no teu próprio país, ser-se tolerado quando mesmo que trabalhes muito, muito, muito, ele nunca será suficiente.
Ontem no velório encontrei a Lieve do Moinho da Juventude e me disse “parece um ciclo e voltamos ao mesmo, a dor sempre do mesmo lado”.
O mais grave desta violência racial, xenófoba, porque não há volta: é a morte. Não podemos “rabidar”. Terminou. É menos um na luta de TODOS os DIAS.
Eu sou apenas uma mulher negra atenta, a viver em Portugal e que se preocupa em viver numa sociedade que seja cada vez mais justa. Um país que outras pessoas deram a sua vida para a liberdade. Mas não a liberdade que desrespeita o outro, a liberdade que ofende, a liberdade que viola a segurança das outras pessoas. A liberdade que não permite que outra pessoa tenha acesso aos meus direitos.
“Deixa mundo papia.. se eu também posso falar e manter o meu sorriso …,
Não estou preocupada com os votos. Não estou preocupada com as frases bonitas, mas, sim, estou preocupada com a nossa capacidade de resiliência enquanto comunidade negra. Não somos racistas. Não somos xenófobos. Queremos apenas viver em paz com os mesmos direitos que as outras pessoas têm. E por isso basta de uma lei especial para zonas urbanas sensíveis, basta de um observatório contra o racismo liderado por pessoas que não sofrem racismo, basta de falarem em nosso nome, coloquem pessoas da comunidade negra, cigana, migrante a falarem por si, basta de fingir colocar em prática comissões de combate ao racismo ficando a discutir questões técnicas, enquanto via pessoas a morrer.
Não aceitem que corpos negros sejam experiências…
Vivo constantemente neste sentido de obrigação às comunidades no terreno e com medo de ser utilizada pela política… porque somos os mais vigiados mas ainda assim nos matam… e essas câmeras não funcionam a nosso favor…
O Ângelo foi o meu primeiro mano de tão perto, mas vi muitas torturas da polícia e denunciei muitas, mas passado muitos anos, não houve justiça…
Odair que sejas tu o primeiro. Precisamos de justiça.
E por isso aos militantes do Bloco vos peço… sei que são anti racistas… deixem um lugar para também nós negros, ciganos, anti racistas falarmos, lutarmos em conjunto… este tema não pode desaparecer e as jornadas anti racistas começaram e precisam de apoio… mesmo que percamos votos por termos negros e ciganos nas listas. Para ajudar a evitar e que caso aconteça estejamos lá para ajudar com advogados, dinheiro, consolo. Acredito muito nas bases, no trabalho direto com as pessoas, porque ontem estive com uma mulher combatente do PAIGC viva que entrou na luta armada aos 7 anos por mão de Amílcar Cabral.
Vamos refletir, vamos agir!
Bom dia, boa semana
desculpem a escrita conturbada, mas acordei assim…
Intervenção na V Conferência Nacional do Bloco de Esquerda, 27 de outubro 2024