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Uma viagem pelo mundo em 2019 (8): o Médio Oriente

A luta pela hegemonia entre a Arábia Saudita e o Irão tem-se refletido nas mortíferas guerras “por procuração” da Síria e do Iémen, remetendo para segundo plano o eterno drama do povo palestiniano. Por Jorge Martins.
Refinarias da Arábia Saudita foram atacadas com drones em setembro de 2019, o ataque foi reivindicado por rebeldes Huthis do Iémen - Foto: NASA Worldview/EPA/Lusa
Refinarias da Arábia Saudita foram atacadas com drones em setembro de 2019, o ataque foi reivindicado por rebeldes Huthis do Iémen - Foto: NASA Worldview/EPA/Lusa

Luta pela hegemonia, guerras por procuração e o drama palestiniano

A especificidade identitária desta região, onde se situa a maioria do mundo árabe e alguns dos mais importantes países islâmicos do mundo, como a Turquia e o Irão, leva-me a considerá-la em separado relativamente ao resto do continente asiático.

É aí que se encontram as maiores riquezas petrolíferas do mundo e é também, desde há muito, uma das regiões mais conturbadas do planeta. A luta pela hegemonia entre a Arábia Saudita e o Irão tem-se refletido nas mortíferas guerras “por procuração” da Síria e do Iémen, remetendo para segundo plano o eterno drama do povo palestiniano. Simultaneamente, a Turquia assume-se como ator importante da região, em especial combatendo as pretensões dos curdos. O povo curdo viu-se dividido entre turcos, sírios, iraquianos e iranianos e pretende libertar-se dos diversos jugos a que se encontra submetido.

A Turquia, candidata à adesão à CEE/UE desde 1963, fartou-se de (des)esperar por uma resposta positiva dos europeus e virou-se para o Médio Oriente. Em 2015, uma intentona militar falhada, de contornos pouco esclarecidos, tentou depor o então primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdoğan. Este, que já vinha ensaiando uma via tendencialmente autoritária, intensificou a repressão sobre os seus opositores e sobre os curdos, na sua maioria concentrados no Sudeste do país. A nível internacional, rompeu a aliança informal com Israel e passou a apoiar as formações associadas à Irmandade Muçulmana. Em junho de 2018, após ter obtido, um ano antes, uma vitória tangencial e duvidosa num referendo constitucional que lhe permitiu passar do parlamentarismo para o presidencialismo, Erdoğan foi eleito presidente, com o apoio do seu Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP), islamita moderado, e do Partido de Ação Nacionalista (MHP), da extrema-direita nacionalista. Nas legislativas que se seguiram, concorreram juntos, na chamada Aliança Popular, e obtiveram a maioria no Parlamento. Apesar do autoritarismo crescente, expresso nos grandes poderes que o novo texto constitucional lhe confere, o apoio popular a Erdoğan já foi maior. Nas autárquicas de abril, a oposição, unida na Aliança Nacional, obteve importantes vitórias, tendo o laico Partido Republicano do Povo (CHP), a maior formação oposicionista, ganho cinco das seis maiores cidades do país. O triunfo em Istambul foi particularmente simbólico, não apenas porque foi à frente do seu município que o atual presidente iniciou a sua caminhada para o poder, mas também porque, após um triunfo tangencial da oposição, um protesto do AKP levou à repetição das eleições, que o candidato do CHP venceu de forma mais confortável. Na guerra civil síria, Erdoğan apoiou, praticamente desde o início, a oposição sunita a Assad. Após a vitória dos curdos sobre o Daesh, em Kobane, junto à fronteira com a Turquia, em 2015, estes foram ocupando grande parte da área setentrional da Síria, onde constituem a maioria da população, criando uma entidade autónoma, denominada Rojava. Ankara decidiu, então, intervir militarmente, ocupando o enclave curdo de Afrin. Em outubro passado, a retirada das forças estadunidenses da Síria, ordenada por Trump, levou a uma nova ofensiva turca, cujas tropas ocuparam grande parte da zona fronteiriça antes na posse dos curdos. Estas permitiram que as tropas governamentais se instalassem na restante área da fronteira setentrional, ficando, assim, Rojava reduzida ao extremo nordeste sírio.

Na Síria, a guerra civil que se seguiu às manifestações da oposição contra Assad, em 2011, na sequência das “primaveras árabes”, continua a fazer vítimas. Nela se encontram diferentes atores: o governo de Assad, apoiado internamente pela minoria alauita (uma corrente do xiismo) e outras minorias religiosas e, externamente, pela Rússia, o Irão e o Hezbollah libanês; a oposição sunita, constituída por laicos e islamitas moderados, federada no chamado Exército Livre da Síria, com o apoio da Turquia, da Arábia Saudita e das monarquias do Golfo, a que se juntam os salafistas do Tahir-al-Sham, antiga Frente Al-Nusra, face da Al-Qaeda no país, também apoiada pelos sauditas e seus aliados; as milícias curdas das Unidades de Proteção Popular (YPG), entretanto integradas nas Forças Democráticas da Síria, que incluem outros grupos étnicos, com o apoio dos EUA e, até agora, não hostilizadas pelo exército sírio e pelos russos; por fim, o Daesh, financiado secretamente por importantes círculos sauditas e de outros países do Golfo. Atualmente, as tropas sírias controlam quase 70% do país (o Oeste, o Centro e o Sul), as forças curdas e aliados cerca de 20% (o Rojava, no Nordeste), a oposição sunita e a Turquia, à volta de 10% (parte da província de Idlib, no Noroeste, e a maioria da fronteira Norte, ocupada por tropas turcas para evitar a existência de uma entidade curda junto à sua fronteira), enquanto o Daesh está, para já, reduzido a pequenas bolsas, correspondentes a 0,5% do território. Em resumo, a guerra tem corrido bem a Assad e seus aliados e tudo indica que a sua vitória sobre a oposição sunita será uma questão de tempo. Resta saber o que acontecerá aos curdos da Síria, em especial depois de Trump ter retirado do terreno as tropas que apoiavam as suas forças, naquilo que foi visto como mais uma traição aquele martirizado povo, e se o Daesh conseguirá ou não reagrupar as suas forças e voltar a constituir uma ameaça, agora que os curdos, os seus mais eficazes adversários, estão enfraquecidos.

No Líbano, um país dividido constitucionalmente por linhas étnico-religiosas, a guerra na vizinha Síria constituiu um fator de instabilidade, com os xiitas (e o seu principal partido e braço armado, o Hezbollah) e a maioria dos cristãos ao lado de Assad e os sunitas e outros cristãos apoiando a oposição. Além do mais, o país recebeu um enorme número de refugiados em relação à sua população. As eleições gerais de 2018, onde, pela primeira vez, foi utilizado um sistema de representação proporcional, deram uma vitória clara à aliança constituída pelos primeiros. O problema é que, de acordo com o Constituição, os três principais cargos do Estado estão consignados, obrigatoriamente, às três principais comunidades: o PR tem de ser um cristão maronita, o PM um muçulmano sunita e o presidente do Parlamento um muçulmano xiita. Essa disposição e a necessidade de amplas maiorias, de forma a manter o equilíbrio entre os diferentes grupos, geram impasses sucessivos. Após meses de negociações, lá surgiu um novo governo. Contudo, a débil situação económica do país levou-o a pedir a intervenção do FMI, que aplicou a sua habitual receita austeritária. As medidas governamentais geraram grandes protestos populares, de natureza multiétnica, que levaram à demissão do primeiro-ministro Saad Hariri. A nomeação, em sua substituição, de Hassan Diab, ex-ministro da Educação, não aplacou a contestação. Este formou, recentemente, um novo executivo, com apoio da aliança maioritária. Aguardam-se as cenas dos próximos capítulos!...

Ao contrário de outros atores regionais, a Jordânia tem-se pautado por algum “low profile” na crise síria, embora tenha manifestado o seu apoio à oposição a Assad. Num regime em que existe um Parlamento eleito, mas onde o poder reside no rei, registaram-se, em 2011-12, grandes protestos populares, originados pela repercussão das “primaveras árabes” e pela crise económica, que gerou crescente insatisfação da população de origem palestiniana, em geral mais pobre, face à monarquia e à elite beduína que a sustenta. Para aplacar a rua, o rei Abdullah efetuou reformas no sentido da democratização do regime, em especial a alteração do sistema eleitoral, que favorecia as áreas rurais, onde reside a maioria dos beduínos, em detrimento das urbanas, onde se concentram os palestinianos. Nas eleições gerais de 2016 verificou-se o avanço da esquerda laica e dos islamitas. Em setembro, haverá novo ato eleitoral. A relação com Israel mantém-se num clima de “paz fria” e assim se deverá manter, sem grandes alterações.

O Iraque, após a criminosa invasão levada a efeito pelos EUA, em 2003, a guerra civil que se seguiu nos anos seguintes e a ocupação de grande parte do seu território pelo Daesh, entre o início de 2014 e o final de 2017, continua no “fio da navalha”. Bush e os seus cúmplices na administração estadunidense de então, que foram para a guerra sob o falso pretexto das armas de destruição maciça, acabaram por oferecer uma prenda a dois dos seus principais inimigos: o Irão e a Al-Qaeda. O derrube de Saddam Hussein, um ditador sanguinário, mas laico e pertencente à minoria sunita, permitiu a ascensão ao poder da maioria xiita, próxima de Teerão, que passou a exercer uma inédita influência no país vizinho. Ao contrário do que afirmou Bush, a Al-Qaeda era inexistente no país e só lá se instalou quando Saddam foi derrubado. Foi a partir de um grupo de militantes radicais do seu ramo iraquiano que nasceu o Daesh. O regime “baathista” era maioritariamente dominado pela minoria sunita, que controlava os imensos recursos petrolíferos do país, enquanto a maioria xiita e os curdos eram pobres, marginalizados e reprimidos. Após a guerra, tudo se inverteu: os xiitas tomaram o poder, os curdos reforçaram a autonomia, enquanto os sunitas passaram a ser marginalizados. A ideia de uma federação tricomunitária, cara aos curdos, é descartada pelas outras duas comunidades: os xiitas, porque são maioritários no país e detém o poder central; os sunitas, porque os territórios habitados maioritariamente por xiitas (que vivem, em grande parte, no Sul e no Centro) e curdos (que ocupam o Norte e Nordeste) são dotados de grande número de poços de petróleo, mas o mesmo não se passa com aqueles onde eles são a esmagadora maioria (o Oeste e o Noroeste), sendo a exceção a zona de Mossul. Não foi por acaso que a sua conquista foi fulcral para a estratégia do Daesh. A marginalização dos sunitas conduziu muitos destes a apoiar a organização islamita radical e, por isso, só ao fim de quase quatro anos de guerra, e com o apoio dos EUA, as tropas iraquianas conseguiram reconquistar os territórios perdidos. Nas eleições gerais de 2018, o partido de Moqtada Al-Sadr, um radical xiita próximo do Irão, foi o mais votado, mas, num quadro partidário muito fragmentado, acabou por ser formado um executivo abrangente, com membros dos três grandes grupos étnico-religiosos, embora com maioria xiita. Em outubro passado, eclodiram grandes protestos antigovernamentais em muitas áreas do país. Os manifestantes protestavam contra a corrupção endémica, o desemprego, a degradação dos serviços públicos, a violência sectária e a crescente influência iraniana no país. Apesar de duramente reprimidos, levaram à demissão do primeiro-ministro, Adil Abdul-Mahdi. Contudo, no final de 2019, os ataques de milícias xiitas a tropas estadunidenses aí estacionadas, a que estas responderam com bombardeamentos, seguido do ataque à embaixada dos EUA, motivaram uma resposta brutal da administração Trump, traduzida no assassínio, em pleno aeroporto de Bagdad, do general iraniano Qassem Suleimani e de Abu Mahdi Al-Muhandis, líder do Comité de Mobilização Popular, que alberga as principais milícias xiitas iraquianas. Esse acontecimento acabou apenas por contribuir para reforçar a influência de Teerão no país, onde a instabilidade permanece.

Por sua vez, no ultraconservador reino da Arábia Saudita, a sucessão do rei Salman está na ordem do dia, com o jovem príncipe Mohammad Bin Salman (MBS) a surgir como principal favorito a ocupar o seu lugar. Cultivou uma imagem de reformador, sendo da sua autoria a medida de acabar com a absurda proibição de as mulheres poderem conduzir. Contudo, essa imagem ficou manchada com o bárbaro assassinato do jornalista e opositor Jamal Khashoggi, em 2018, no consulado saudita em Istambul. Entretanto, no plano externo, o país trava, desde há muito, uma luta pela hegemonia regional com o Irão, que o príncipe tem intensificado. Depois da intervenção militar contra os xiitas do Bahrain, o apoio ao golpe que depôs Morsi no Egito, o envolvimento na guerra civil na Síria, a Arábia Saudita resolveu intervir militarmente no vizinho Iémen, contra os rebeldes “houtis”, xiitas, apoiados pelo Irão, sob a capa de uma coligação internacional de estados sunitas da zona e do Paquistão. Porém, esta não teve os efeitos planeados: o país vizinho mergulhou numa cruenta guerra civil sem fim à vista e o reino tem sido alvo de ataques com mísseis daí provenientes, um dos quais destruiu uma importante refinaria. Entretanto, MBS contribuiu para o isolamento regional do Qatar, acusando a monarquia vizinha de fomentar o terrorismo, devido ao apoio qatari à Irmandade Muçulmana. O facto de ser um dos maiores produtores mundiais de petróleo, com a facilidade de o poder extrair a baixos custos e, portanto, ser capaz de aguentar preços do barril mais baixos, torna o país um aliado vital para os EUA e para o Ocidente em geral, levando este a fechar os olhos à natureza medieval do regime saudita e às suas constantes violações dos direitos humanos. Contudo, e de forma muito lenta, o reino move-se!

As restantes monarquias absolutas do Golfo Pérsico, embora um pouco mais abertas que a saudita, possuem características semelhantes. Assentes na riqueza petrolífera dos seus territórios, asseguram um bom nível de vida à maioria da sua população, deixando os papeis menos qualificados para os imigrantes pobres vindos do subcontinente indiano e das Filipinas. Assim, o Kuwait, após a invasão iraquiana de 1991 e a guerra subsequente, recuperou bem e tem-se mantido estável. Apesar de algum crescimento da oposição (tanto liberal como islamita) nas últimas eleições, o poder dos Al-Sabah não parece ameaçado. Já o Bahrain, onde a monarquia é sunita, mas a maioria da população é xiita, viveu momentos de instabilidade na sequência das “primaveras árabes”, em 2011. A exigência de reformas levou a grandes protestos populares, que, apesar de duramente reprimidos, não abrandaram. Temendo o derrube da família Al-Khalifa e a sua substituição por um regime pró-iraniano, a Arábia Saudita e os seus aliados resolveram intervir, a pedido dos EUA (que aí detém a maior base naval da região), abafando a revolta, cujos principais líderes foram encarcerados. Por sua vez, os Emiratos Árabes Unidos continuam a exibir o seu novo-riquismo para os turistas ocidentais, em especial no Dubai. Apesar de serem um aliado fiel dos sauditas, surgiram algumas tensões com estes no Iémen, pois apoiam duas fações diferentes no conflito que dilacera o país. No Oman, o sultão Qaboos faleceu já este mês, após 50 anos no poder. Modernizou a economia do país, aproveitando as receitas petrolíferas, e acabou com o seu isolamento internacional, mas manteve o essencial da monarquia absoluta, apesar de algumas reformas cosméticas levadas a efeito após breves protestos, na sequência das “primaveras árabes” de 2011. Sucedeu-lhe o seu primo, Haitham bin-Tariq Al-Said.

O Qatar encontra-se desalinhado face às restantes petromonarquias, pois a sua ambição de ganhar protagonismo na região suscitou a desconfiança dos sauditas, que se consideram os líderes da península arábica e da resistência contra o que consideram ser o expansionismo iraniano. A família real qatari, os Al-Thani, aproveita a riqueza petrolífera para conseguir uma influência no mundo muitíssimo superior à dimensão do país. Na política regional, o seu apoio aos grupos ligados à Irmandade Muçulmana enfureceu os sauditas. As divergências com estes intensificaram-se e as tropas qataris acabaram por retirar-se da coligação que invadiu o Iémen, sob o comando de Riad. Em 2017, a Arábia Saudita e os seus aliados mais próximos decretaram um embargo económico ao país, acusando-o de apoiar terroristas. Para o seu levantamento, entregaram-lhe um ultimato, que incluía condições inaceitáveis, como o encerramento da cadeia televisiva global Al-Jazira (a primeira do mundo árabe), que, devido à sua informação relativamente independente, acusavam de interferir nos seus assuntos internos. O emirato recusou-o e, em resposta, estreitou relações com a Turquia e também com o Irão. A crise escalou, com outros países islâmicos alinhados com os sauditas a aderir ao boicote, apesar das tentativas dos EUA, que mantém aí uma importante base aérea, para obter um entendimento. Entretanto, as eleições para a assembleia parlamentar consultiva, prometidas inicialmente para 2013, têm sido sucessivamente adiadas.

Para terminar a ronda pela península arábica, falta falar do martirizado Iémen, vítima de uma “guerra por procuração” entre sauditas e iranianos. É o país mais pobre da região, sem os recursos petrolíferos que fazem as riquezas dos seus vizinhos, mas possui uma invejável posição estratégica, junto do golfo de Aden e do estreito de Bab-el-mandeb, que dão entrada para o mar Vermelho, rota por onde passa grande parte do comércio mundial. Por isso, o seu controlo é considerado fulcral por parte das grandes potências. Em 2011, na sequência da “primavera árabe”, estalou uma revolta popular, exigindo a saída do presidente Saleh, há 32 anos no poder. Desde então, o país entrou em convulsão e rapidamente se dividiu: no Noroeste, os zaiditas (uma seita xiita), há muito marginalizados, exigiam uma mudança efetiva de regime e criaram a milícia houthi; no Sudoeste, existe um movimento separatista, que quer restabelecer o Iémen do Sul, antiga república pró-soviética, com capital em Aden, o maior porto do país, que existiu até à reunificação iemenita, em 1990, e que tem o apoio dos Emiratos Árabes Unidos; por fim, no desértico Sueste, pontificavam grupos salafistas, entre os quais se contava a temível Al-Qaeda da Península Arábica (AQPA), e milícias tribais. A guerra civil teve início em maio de 2015, quando os rebeldes houthis tomaram a capital, Sana’a, e avançaram em direção a Aden, onde se refugiaram o presidente Hadi, que substituíra Saleh, e o seu governo. Foi então que, com o apoio dos EUA, a Arábia Saudita e outros estados sunitas seus aliados lançaram uma intervenção militar contra os rebeldes, que passaram, então, a receber apoio iraniano. Ao mesmo tempo, a AQPA e o Daesh, que, entretanto, fizera a sua aparição no terreno, aproveitaram para lançar novos ataques e controlar novos territórios. Até ao momento, a situação no terreno é de impasse. A guerra já provocou milhares de mortos e a fome ameaça grande parte da população, em grande parte devido aos bombardeamentos sauditas sobre áreas civis e ao bloqueio por estes imposto às importações de bens alimentares. No verão passado, os rebeldes atacaram território saudita com mísseis de longo alcance, causando estragos importantes em instalações petrolíferas do país vizinho.

Como já vimos, o Irão é outro ator fundamental na região. País não árabe e maioritariamente xiita, ganhou importância no mundo islâmico, após a revolução que depôs o xá e transformou a Pérsia numa república islâmica, sob a direção do ayatollah Khomeini, e tornou-se um inimigo figadal dos EUA e de Israel O regime é, na essência, tecnocrático e autoritário, onde o chamado Guia Supremo (o ayatollah Ali Khamenei) é a principal autoridade e instâncias clericais controlam o poder judicial e decidem quem pode ou não ser candidato às eleições. Existe, porém, um espaço democrático de pequeno espectro, que, dentro dos condicionalismos referidos, permite a eleição direta do presidente da República e do Parlamento. Nestas, a luta trava-se entre a linha dura e a moderada do regime. Os primeiros (conhecidos por “principialistas”), mais rígidos na defesa dos princípios religiosos, são ultraconservadores em questões de costumes, hostis ao Ocidente em geral e aos EUA em particular e tendem a restringir mais as liberdades cívicas. Já os segundos (os “reformistas”), se são, igualmente, conservadores, são um pouco menos rígidos nos costumese defendem uma política externa menos hostil face ao mundo ocidental, bem como uma maior abertura política. O atual presidente, Hassan Rouhani, eleito em 2013 e reeleito em 2017, é um reformista e foi um dos obreiros do acordo sobre o nuclear iraniano, assinado com os EUA. A rutura daquele por parte da administração Trump e a imposição de sanções às empresas que negoceiem com Teerão ou invistam no país foi um rude golpe para o seu campo político, que apostou as “fichas” todas nesse entendimento. A economia iraniana foi duramente atingida por aquelas, o que agravou o descontentamento. O aumento do preço dos combustíveis foi o rastilho dos violentos protestos populares que estalaram em várias cidades do país, em meados de novembro. O regime reagiu com uma violenta repressão, que causou centenas de mortos. Porém, o assassínio do general Qassem Suleimani, comandante da Al-Quds, força de elite dos Guardas da Revolução, por parte dos EUA, no início deste ano, criou um ambiente de grande comoção nacional e de revolta nacionalista contra o “grande Satã” estadunidense, o que favoreceu os conservadores. Contudo, o abate acidental de um avião civil ucraniano, quando levantava voo do aeroporto de Teerão, por parte de mísseis disparados por uma bateria antiaérea do exército do Irão, alterou o cenário. A reação do regime, que durante três dias negou qualquer responsabilidade no sucedido, enfureceu a população, pois no aparelho atingido viajavam dezenas de cidadãos iranianos. Se, antes, as manifestações se dirigiam contra os EUA, passaram a visar, igualmente, o governo, os altos comandos militares e o próprio Guia Supremo. Por isso, as próximas eleições legislativas, a realizar em 21 de fevereiro, são uma incógnita. Contudo, é muito provável que uma parte significativa dos setores oposicionistas não vote, até porque os reformistas mais radicais foram impedidos de se candidatar, pelo que não me surpreenderia que elas se saldassem por uma maioria parlamentar dos “duros”. Já na frente externa regional, em que disputa a hegemonia com a Arábia Saudita, a liderança iraniana tem razões para sorrir, com a manutenção de Assad no poder na Síria, as dificuldades sauditas no Iémen e a oportunidade que esta lhe forneceu de ter no Qatar um amigo do outro lado do Golfo, após o esmagamento da revolta xiita no Bahrain. A isso, há a acrescentar o reforço da sua influência no vizinho Iraque, após o assassinato de Suleimani pelos EUA.

O drama palestiniano: Uma relação de forças muito favorável para os israelitas

Deixei para o fim o drama da Palestina. Nos últimos anos, após a retirada dos seus colonatos de Gaza, o estado judaico tem intensificado a colonização da Cisjordânia. Apesar da retirada das suas forças, os israelitas transformaram o primeiro daqueles territórios numa autêntica prisão a céu aberto, cercando-o por terra, mar e ar. A única saída, a fronteira com o Egito, foi fechada pelo governo de Al-Sissi, com o pretexto de combater a infiltração de terroristas que operam na vizinha península do Sinai. A verdade é que, após a vitória nas únicas eleições democráticas realizadas para a Autoridade Palestiniana (AP), em 2006, o Hamas domina Gaza, que passou a controlar em definitivo no ano seguinte, após expulsar a secular Fatah numa breve guerra civil. Sempre que os palestinianos lançam mísseis artesanais para território israelita, mesmo sem causar danos pessoais, lá vem uma reação punitiva e desproporcionada por parte de Israel, causando numerosas vítimas civis. Na Cisjordânia, a ocupação prossegue, com todo o seu cotejo de repressão e humilhações. Aqui, a Fatah domina desde 2007, após o presidente Mahmoud Abbas ter demitido o governo do Hamas, na sequência dos confrontos em Gaza. Porém, o líder da AP encontra-se doente e enfraquecido: a corrupção da sua administração e a sua incapacidade de fazer frente aos israelitas desacreditaram-no quase totalmente aos olhos do seu povo. Os territórios que, de acordo com os moribundos acordos de Oslo, ficaram sob administração da AP estão rodeados, quase todos, por colonatos e/ou “check-points” militares israelitas, num verdadeiro “apartheid”, que torna a vida daqueles num verdadeiro inferno. Acrescem, ainda, as expedições punitivas sempre que há um atentado em Israel ou um ataque a colonos judeus. Há, ainda, a referir a construção de um muro de separação entre o território do estado judaico e a Cisjordânia ocupada e que anexa, na prática, uma franja de território desta, a que acresce o cerco de Jerusalém Oriental por colonatos israelitas. Entre os palestinianos, após o fim do breve executivo de unidade nacional entre a Fatah e o Hamas, em 2015, mantém-se, na prática, há dois governos: um em Gaza, liderado pelo Hamas, e outro na Cisjordânia, dirigido pela Fatah, que goza do reconhecimento internacional.

Entretanto, em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, acossado pela justiça, que investiga casos de corrupção em negócios onde esteve envolvido, convocou eleições gerais para abril. Num quadro partidário sempre muito mutável e fragmentado, devido a um sistema de proporcionalidade pura a nível nacional, e marcado por grandes índices de personalização das lideranças políticas, surgiram novos realinhamentos partidários. Contudo, apesar de o bloco direitista ter obtido a maioria de lugares no Parlamento, não conseguiu formar governo, dadas as divergências entre os partidos religiosos (que defendem a isenção do serviço militar para os judeus ultraortodoxos) e o Yisrael Beiteinu, de Avidgor Liebremann, laico, que se opõe aquela medida. Em setembro, novo ato eleitoral pouco alterou o quadro parlamentar e, após terem falhado as negociações para a constituição de um governo de unidade nacional entre as duas maiores forças políticas, nova ida às urnas foi marcada para março deste ano. Para já, as sondagens dão à aliança centrista Azul e Branco (Kahol Lavan), do ex-general Benny Gantz, um ligeiro avanço sobre o direitista Likud, de Netanyahu, mas o conjunto dos partidos da direita conserva uma pequena vantagem sobre a soma do bloco de centro-esquerda e da Lista Conjunta, uma aliança de quatro formações árabes. Entretanto, o chefe do governo vê o cerco judicial apertar-se e tenta refugiar-se na imunidade parlamentar. Com o “campo da paz” bastante enfraquecido, é difícil que do ato eleitoral saiam grandes avanços para uma solução justa e satisfatória do drama palestiniano. As políticas israelitas dos últimos anos têm contribuído para tornar cada vez mais difícil a solução de dois estados, defendida pela ONU e pela maioria da comunidade internacional. No que se refere à política regional, Israel não interveio no conflito na Síria, preferindo assistir, no “camarote”, à destruição de um dos seus mais encarniçados inimigos, embora preferisse a queda de Assad, dado o apoio deste ao Hezbollah. Por isso, neste momento, os interesses do estado judaico na região coincidem com os da Arábia Saudita e seus aliados, já que o Irão é, para ambos, o inimigo a abater. Para os palestinianos, a relação de forças a nível internacional é bastante desfavorável, já que as maiores potências mundiais apoiam ou não hostilizam Israel. As coisas não estão fáceis para eles e, infelizmente, não parece que 2020 traga grandes melhorias!

O próximo artigo incidirá sobre “O Norte de África”.

Artigo de Jorge Martins

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