Está aqui

Uma viagem pelo mundo em 2019 (5): A Ásia Central e do Sul

Na quinta parte da sua viagem pelo mundo, Jorge Martins leva-nos à Ásia Central e do Sul. Uma oportunidade para saber mais sobre o Sri Lanka, Maldivas, Bangladesh, Cazaquistão, Turquemenistão, Tajiquistão, Quirguistão, Afeganistão, Paquistão, Nepal, Butão.
Lago Almaty, Cazaquistão. Foto de Kirk Siang/Flickr

Tal como o continente africano, também grande parte da Ásia esteve submetida aos diferentes poderes coloniais, na sua esmagadora maioria europeus. Contudo, ao contrário do que sucedeu em África, houve aqui alguns espaços que escaparam à colonização. Assim, o Japão, o primeiro país não branco a aceder á industrialização, tornou-se, a partir de finais do séc. XIX e até ao final da 2ª guerra mundial, uma potência colonial, ocupando e explorando a Coreia e Taiwan e ocupando algumas partes da China. Esta, apesar de nunca ter sido colonizada (salvo os casos especiais de Hong Kong e Macau), foi objeto de diversas agressões da parte de potências europeias e dos vizinhos japoneses, algumas das quais culminadas com ocupações de parte do seu território. O mesmo sucedeu com o Afeganistão, que, no séc. XIX, foi três vezes invadido pelos britânicos e, se escapou ao seu jugo colonial puro e duro, acabou por se tornar num seu protetorado. Já os cinco estados da Ásia Central, embora não submetidos a um regime colonial típico, estiveram integrados, durante mais de um século, na Rússia czarista e, mais tarde, na ex-URSS. Assim, apenas a Tailândia e os pequenos países himalaicos (Nepal e Butão) não foram nem colonizados nem colonizadores, embora estes últimos tenham sofrido algumas invasões britânicas a partir das suas possessões indianas. Por outro lado, a grande extensão do continente e as grandes cadeias montanhosas existentes nas suas zonas centrais criaram alguma separação entre diferentes regiões, que assumiram formas culturais diferenciadas. Aqui, há que distinguir entre as áreas desérticas, semidesérticas e montanhosas do interior e as zonas litorais da chamada Ásia das Monções, situadas no Sul, Sudeste e Este, sobrepovoadas, onde vive mais de metade da população mundial. Nesta última região, alguns países conseguiram, em poucos anos, alcandorar-se aos patamares dos países desenvolvidos, inspirando-se no modelo de desenvolvimento japonês e de algumas especificidades das suas culturas milenares, que possibilitaram o êxito de um modelo de acumulação capitalista difícil de aplicar noutras latitudes. Contudo, aqueles que sofreram uma colonização europeia mais longa têm tido mais dificuldades em progredir e alguns (especialmente os que serviram de campos de batalha em guerras imperialistas) não conseguem, mesmo, sair da pobreza e do subdesenvolvimento.

Ásia Central: Autocracias dirigidas por antigos “apparatchiks”

Esta região, situada no interior da grande massa continental euroasiática é, em geral desértica ou subdesértica e plana, exceto a Sudeste, onde se situam as altas montanhas da cordilheira do Pamir. Os cinco estados que dela fazem parte estão, desde há séculos, na área de influência da Rússia, tendo pertencido ao império czarista e à ex-URSS, até à desagregação desta última, em 1991. Apesar da sua posição geográfica, que os condena a um certo isolamento, alguns possuem grandes riquezas energéticas, com destaque para as reservas de gás natural, enquanto outros se encontram em localizações estratégicas importantes, dada a sua proximidade à Rússia, à China, ao Irão e ao Afeganistão. Nos últimos tempos, russos e chineses têm tentado alargar a sua influência política e económica na região, através da Organização de Cooperação de Xangai, enquanto a Turquia procura aproveitar a sua proximidade linguística com estes países. Já os EUA, mesmo sem serem a potência dominante na região, não deixam de marcar aí a sua presença. Praticamente todos eles são dirigidos por antigos “apparatchiks” soviéticos, que rapidamente se reciclaram em nacionalistas e capitalistas. Estes passaram a gerir os novos países independentes de forma autocrática, reprimindo, de forma mais ou menos feroz, todas as oposições. Apesar de as suas populações serem, maioritariamente, muçulmanas, estamos em presença de regimes laicos, alguns dos quais enfrentem, em áreas mais remotas, grupos islamitas radicais.

O Cazaquistão é o maior estado da região, ocupando um extenso território, mas árido e pouco povoado. O presidente Nursultan Nazarbayev, um antigo “apparatchik” soviético, governa o país desde a independência em 1991. Liderou a transição para o capitalismo e estabeleceu um regime autoritário, com uma oposição parlamentar débil e domesticada. O país tem beneficiado das suas grandes reservas de petróleo e gás natural para conseguir elevadas taxas de crescimento económico, embora a descida nos preços ocorrida nos últimos anos tenha contribuído para a sua travagem. Foram as receitas provenientes dos hidrocarbonetos que permitiram a construção de raiz da nova capital, Astana, inaugurada em 1997. Na política externa, mantém boas relações com Rússia, China e EUA. Na crise ucraniana tem mantido uma posição de equilíbrio, dada a presença de uma maioria de população russa na parte setentrional do país (mesmo que esta tenha diminuído muito, após a independência).

O Turquemenistão é um país em grande parte desértico, possuidor de enormes reservas de gás natural e algumas de petróleo. Para além do autoritarismo predominante na zona, o regime de partido único instalado, após a independência, em 1991, por Saparmurat Niyazov, outro antigo “apparatchik” soviético, assumiu aspetos caricatos. Declarado presidente vitalício e intitulando-se “turkemenbashi” (pai dos turquemenos), instituiu um culto da personalidade ao estilo norte-coreano, em que se destacam a construção de uma estátua da sua pessoa que rodava com o movimento de rotação da Terra ou a institucionalização do seu dia de aniversário e de sua mãe como feriados nacionais, a que se podem juntar a proibição da ópera e do circo por não serem culturalmente turquemenos ou, mais grave, a centralização de todos os cuidados de saúde na capital, Ashgabat. Após a sua morte, em 2006, sucedeu-lhe Gurbanguly Berdimuhamedow, que instituiu, no papel, o multipartidarismo, reverteu algumas medidas do seu antecessor e abriu mais o país ao exterior, mas a verdade é que, no essencial, pouco mudou. A família presidencial controla a política e os recursos do país e as eleições não passam de farsas eleitorais.

No Uzbequistão, Islam Karimov, mais um ex-“apparatchik” soviético, instalou um regime autoritário, que se caracterizou por uma feroz repressão sobre os seus opositores. Apesar de existirem vários partidos e eleições aparentemente competitivas, estas não passam de uma fachada, já que aqueles são todos controlados pelo governo. Em 1998, surgiram no vale de Fergana, no Leste do país, dois grupos islamitas radicais, o Movimento Islâmico do Uzbequistão e o jihadista Hizb ut-Tahrir, responsáveis por alguns atentados no país, o que levou à intensificação da repressão. Para além das reservas de gás natural, a sua situação estratégica, a norte do Afeganistão, país em cuja zona setentrional existe uma minoria uzbeque, torna-o alvo do interesse das principais potências, com destaque para a Rússia e os EUA. Estes últimos instalaram, mesmo, uma base militar no seu território, entre 2001 e 2005, que serviu para as operações estadunidenses em território afegão. Após a morte de Karimov, em 2016, o seu “vice”, Shavkat Mirziyoyev, ascendeu à presidência, mas, apesar de alguma distensão e de se afirmar como reformador, o autoritarismo mantém-se. O país é um dos maiores produtores mundiais de algodão, mas esta vive da exploração intensiva dos seus trabalhadores, que vivem em situação de semiescravatura. Este aspeto negativo junta-se aos danos ambientais irreparáveis causados pelos megalómanos planos de irrigação soviéticos, responsáveis pela morte do lago Aral.

Também o Tajiquistão, um estado montanhoso, possui uma importante posição estratégica. Está situado, igualmente, a norte do território afegão e conta com uma importante minoria na zona setentrional do Afeganistão. É o mais pequeno e mais pobre dos estados da região e, ao contrário dos idiomas daqueles, o tajique é uma língua da família iraniana e não turco-tártara. Após a contestada vitória de Rahmon Nabiyev, logo após a independência, em 1991, verificaram-se grandes confrontos, que levaram à sua demissão e substituição por Emomali Rahmonov. O país entrou, no ano seguinte, numa sangrenta guerra civil, que opôs o governo, formado por antigos “apparatchiks” e apoiado pela Rússia e pelos vizinhos centro-asiáticos, à união da oposição liberal e islamita, com apoio de alguns grupos da guerrilha afegã, que só terminaria em 1997. Contudo, a aparente clivagem ideológica escondia a luta pelo poder entre diferentes clãs. Contudo, Rahmonov manteve o controlo do país, consolidando o seu regime, para o que muito contribuíram os atentados do “11 de setembro” e a subsequente intervenção dos EUA e da NATO no Afeganistão, já que o governo de Dushanbe permitiu que algumas forças ocidentais usassem o seu território para apoiar as suas ações no país vizinho, juntando-se às tropas russas estacionadas na fronteira afegã. Desde 2010, os islamitas do Hizb ut-Tahrir, infiltrados a partir do Uzbequistão, começaram a atuar no Leste do país. Entretanto, Emomali Rahmon (que acabou com o patronímico “ov” no país, em 2007) emendou a Constituição para acabar com a limitação de mandatos e continua na presidência. A repressão e a censura são grandes e, nas eleições, apenas participa uma oposição tolerada e débil. A economia do país continua frágil e a corrupção do presidente e do seu círculo é enorme.

Igualmente montanhoso e pobre, o Quirguistão é, de todos estes países, o único que possui um regime que podemos considerar semidemocrático. Tal como nos restantes, após a independência, foi um antigo “apparatchik” soviético, Askar Akayev, que se tornou presidente. Estabeleceu um regime que, de início, foi menos autoritário que o dos seus vizinhos. Contudo, após a sua primeira reeleição, em 1995, o autoritarismo foi emergindo e, em 2000, foi reeleito quase sem oposição. Após o “11 de setembro”, permitiu que os EUA se instalassem na base militar de Manas, de onde apenas sairiam em 2014. Em 2005, estalou a chamada “revolução das tulipas”, após a repressão massiva dos protestos populares contra a fraude eleitoral nas legislativas e a corrupção da sua família e do seu círculo próximo. Após a partida de Akayev para o exílio, realizaram-se as presidenciais, que deram um triunfo esmagador a Kurmanbek Bakiyev, com apoio de uma ampla aliança eleitoral. Contudo, este rapidamente se revelou uma desilusão, mostrando os mesmos pecados do seu antecessor, acrescidos da perseguição às minorias uzbeque (15% da população) e russa. A crise económica e, em especial, a subida dos preços da energia, acabaram por originar nova revolta popular, em 2010, e Bakiyev acabou por ter o mesmo destino do seu antecessor, abandonando o país. Roza Otunbayeva, do Partido Social Democrata (SDPK), pró-russo, foi escolhida para presidente interina, prometendo não se apresentar nas eleições seguintes. Entretanto, em Osh, no sul do país, quirguizes partidários do anterior presidente atacaram a minoria uzbeque, originando milhares de mortos. Uma nova Constituição, que reduziu os poderes presidenciais, foi aprovada em referendo. No ano seguinte, o primeiro-ministro Almazbek Atambayev, foi eleito presidente e, em 2017, a escolha recaiu em Sooronbay Jeenbekov, também chefe do executivo. Ambos pertencem ao SDPK, que lidera a coligação governamental, após ter vencido as legislativas de 2015, com apenas 27,4% dos votos. Veremos qual a evolução futura do país, sabendo que a sua posição estratégica o torna apetecível para as grandes potências, cujos interesses explicam, em parte, a agitação política que este tem vivido.

Ásia do Sul: Despertar da Índia, instabilidade política e o “vespeiro” afegão

À exceção do árido e montanhoso Afeganistão, esta região corresponde, grosso modo, ao subcontinente indiano. Zona tropical, sujeita às monções, possui áreas bastante férteis, onde se fixa uma população extremamente numerosa, que origina aí algumas das maiores densidades populacionais do planeta. Do ponto de vista da macropolítica, é marcada pela grande rivalidade entre a Índia e o Paquistão, atualmente duas potências nucleares. Por seu turno, as enormes desigualdades sociais e a pobreza de grande parte da sua numerosa população originam uma grande instabilidade política e/ou social na maioria dos países da região, a que acresce o seu valor estratégico, tanto para indianos e paquistaneses como para os grandes poderes globais, em especial os EUA e a China. A Índia mantem, igualmente, uma rivalidade surda com esta última pela influência na região, vital para o controlo do oceano Índico.

O Afeganistão é um país interior, montanhoso, árido e sem grandes recursos naturais. Porém, possui algo que sempre o colocou “no radar” das grandes potências: a sua posição estratégica. No séc. XIX, a sua conquista fazia parte do chamado “grande jogo” entre os impérios russo e britânico. Por três vezes, este último tentou conquistá-lo e falhou, embora o tenha transformado num protetorado, que terminou em 1919. A instabilidade política nunca se deixou de fazer sentir e, em 1973, a monarquia foi derrubada em 1973, num golpe palaciano que levado a cabo por Mohammed Daud, primo do rei, que assumiu a presidência. Em 1978, um novo golpe de Estado resulta na morte do presidente e na tomado do poder pelo partido comunista afegão. Com o apoio financeiro soviético, procura pôr em prática um rápido programa de modernização da sociedade, estabelecendo a laicidade, direitos iguais para as mulheres e uma aposta na saúde e na educação, para além de um programa de coletivização da terra. Na maioria das províncias, surgem rapidamente grupos contrarrevolucionários de inspiração islâmica. Entretanto, lutas pelo poder entre duas fações rivais no seio do partido levaram, no ano seguinte, a um golpe palaciano, liderado pelo radical Hafizullah Amin, que intensifica a repressão sobre os adversários políticos. Em dezembro, tropas soviéticas invadem o país, derrubando Amin e colocando no poder Babrak Karmal, da fação mais pragmática. A rebelião adquire, então, o caráter de luta nacional contra o invasor. No contexto da “guerra fria”, os mujahidin (combatentes) passam a contar com o apoio dos EUA e dos seus aliados paquistaneses e sauditas, que lhes fornecem armamento, dinheiro e treino. Num terreno montanhoso e de difícil acesso, propenso a emboscadas, rapidamente os soviéticos se veem em grandes dificuldades e, em 1989, Gorbachev retira as tropas do país, embora mantenha o apoio ao regime do presidente Mohammad Najibullah, que substituíra Karmal, em 1986. Com o fim da URSS, esse apoio desaparece e, em 1992, os mujahidin entram em Cabul. No entanto, desaparecido o inimigo comum, rapidamente as ambições dos vários “senhores da guerra” de base tribal vêm ao de cima. Desencadeia-se, então, uma violenta guerra civil, com seis diferentes fações a ser apoiadas por um dos países vizinhos (Paquistão, Tajiquistão, Uzbequistão e Irão) e pela Arábia Saudita. No mosaico étnico afegão, os pashtuns, maioritários no Sul e no Leste, pontificam, igualmente, no vizinho Paquistão, na porosa fronteira entre os dois países. Os outros grupos importantes são os tajiques (no Nordeste), os uzbeques (no Noroeste) e os hazaras, xiitas, de origem iraniana (no Centro). Com o apoio dos EUA, o Paquistão, que considera de interesse estratégico fundamental ter em Cabul um governo com ele alinhado, coloca as suas “fichas” nos pashtuns e aposta no islamita Gulbuddin Hekmatyar. Como este não conseguiu impor-se, os serviços secretos paquistaneses criam a milícia dos taliban (estudantes), a partir de um grupo de jovens radicalizados nas escolas corânicas do país vizinho, em 1995. Rapidamente conquistam o Sul e o Leste, vencem os hazaras e Hekmatyar e vão progredindo até à capital, que ocupam no ano seguinte. Impõem um regime islamita radical e intolerante nas áreas conquistadas, de que o uso obrigatório da burka por parte das mulheres foi paradigma. Apenas as áreas setentrionais de maioria uzbeque e tajique e respetivas milícias resistem, formando a Aliança do Norte, apoiada pela Rússia, Índia, Uzbequistão, Tajiquistão e Irão. Porém, os uzbeques são derrotados pelos taliban, ficando os tajiques do comandante Ahmad Shah Massoud, herói da guerra contra os soviéticos, sós na resistência e confinados ao Nordeste. Este será assassinado pela Al-Qaeda dois dias antes do “11 de setembro”. Na sequência deste, os EUA e a NATO invadem o país e, com o apoio dos líderes nortistas, expulsam os taliban e colocam no poder Hamid Karzai. Mas também estes perceberiam, à sua custa, que o território afegão, pelas suas características físicas e pela resistência dos seus habitantes a quaisquer invasores, é quase impossível de conquistar. Entretanto, os taliban, reagrupados do outro lado da fronteira paquistanesa e com algum apoio popular entre os pashtuns no Sul e no Leste do país, passaram à guerrilha, atacando as tropas ocidentais e levando a efeito atentados em vários pontos do país. Entretanto, Karzai, eleito por uma assembleia de anciãos como presidente interino, foi reeleito em 2004 e 2009, em eleições marcadas por numerosas fraudes. Nas presidenciais de 2014, o independente Ashraf Ghani, pró-ocidental, venceu na 2ª volta, Abdullah Abdullah, da Coligação Nacional e ex-membro da Aliança do Norte, em eleições que, apesar de mais transparentes, levaram a uma recontagem por parte da missão da ONU, a pedido do candidato vencido. Após a sua conclusão, os dois assinaram um acordo de partilha do poder, em que o novo presidente lhe assegurou o cargo de primeiro-ministro. Nesse ano, os EUA retiraram as suas tropas de combate, mas a NATO continua a manter vários efetivos no país, com missão de treino e apoio logístico às forças governamentais. Nova eleição presidencial está prevista para julho. Porém, independentemente do resultado, uma coisa parece, infelizmente, certa: tão cedo o Afeganistão não terá paz!

Passemos, agora, para a península do Hindustão, marcada pela rivalidade indo-paquistanesa.

O Paquistão atravessa um momento de instabilidade, em muito devido ao conflito que dilacera o seu vizinho ocidental. A isso se junta a tradicional rivalidade com a Índia, com quem travou quatro guerras no século passado, em grande parte devido à disputa sobre Caxemira. Os períodos democráticos têm sido breves, intervalados por golpes de Estados e ditaduras militares. A verdade, porém, é que as cúpulas militares e os poderosos serviços secretos (ISI) constituem um verdadeiro “Estado subterrâneo”, onde reside o essencial do poder. Como vimos, foram estes que tiveram um papel essencial no suporte à guerrilha afegã e, após a saída dos soviéticos, na criação dos taliban, que continuam a apoiar na sombra. Porém, isso levou a que as chamadas áreas tribais, fronteiriças com o território afegão, sejam hoje um viveiro de islamitas radicais, que, muitas vezes, realizam atentados noutras zonas do país, num dos quais pereceu a ex-primeira ministra Benazir Bhutto. A esses se somam outros grupos semelhantes em Caxemira, igualmente apadrinhados pelo ISI. Se, durante a “guerra fria”, os EUA eram o seu grande aliado, a par com a China, estando a Índia mais próxima da ex-URSS, atualmente verifica-se uma grande desconfiança face aos norte-americanos. Para além dos chineses, que mantém a aliança tradicional com o país, já que os indianos são o adversário comum, os dirigentes paquistaneses estão bastante alinhados com os sauditas e seus aliados, participando na intervenção no Iémen ao lado daqueles. Tradicionalmente, as duas maiores forças políticas são a conservadora Liga Muçulmana (PML-N), da família Sharif, e o social-democrata Partido do Povo Paquistanês (PPP), da família Bhutto, o primeiro dominante no Punjab, o segundo em Sindh. Porém, a sua incapacidade para resolver os grandes problemas do país, em especial a instabilidade política, a corrupção endémica, as desigualdades sociais e a pobreza levaram o eleitorado a virar-se para o populista Movimento Paquistanês pela Justiça (PTI), de Imran Khan, antiga estrela do críquete, o desporto mais popular do país, que venceu as legislativas de julho e se tornou primeiro-ministro.

A Índia, o segundo país mais populoso do mundo, é uma potência em ascensão, embora tenha ainda problemas que dificultam essa ambição, como as enormes desigualdades sociais e a pobreza de grande parte da população. Na verdade, coincidem, no país, a tecnologia mais avançada e a mais abjeta miséria. Para isso, muito contribui a tradicional sociedade de castas, que, apesar de terem sido constitucionalmente abolidas, continuam a existir no quotidiano. Por outro lado, está a braços, desde a independência, em 1947, com o conflito de Caxemira, o único estado do país de maioria muçulmana, cuja posse foi causa de três das quatro guerras que travou com o vizinho Paquistão. Aí existem vários grupos de guerrilha separatista, alguns dos quais de inspiração islamita, como o Lashkar-e-Taiba, responsáveis por vários atentados, como os de Mumbai, em 2008. Também nas áreas rurais do Centro-Leste existe a guerrilha maiosta dos naxalistas e, no Nordeste, atuam, igualmente, vários grupos armados. Se, durante a “guerra fria”, a Índia alinhava quase sempre com a ex-URSS, atualmente é o grande aliado dos EUA na região, algo que se explica pelo desejo mútuo de contenção da China e do fundamentalismo islâmico. A nível interno, as eleições de 2014 deram um triunfo esmagador à aliança da direita nacionalista hindu, liderada pelo BJP, sobre a coligação de centro-esquerda, centrada no laico e secular partido do Congresso (INC), e Narendra Modi tornou-se primeiro-ministro. O seu partido, cujo apoio vem, essencialmente, das castas mais altas, tem posições radicais, pretendendo tornar o país num estado hindu, onde se aplicariam os princípios do hinduísmo a todos os cidadãos. É hostil às minorias religiosas, em especial a muçulmana (14% da população), sendo também bastante conservador e intolerante em matéria de costumes. Apesar de tudo, o seu governo caracterizou-se por alguma moderação nesse campo, o que deixou descontentes os setores mais radicais da sua coligação. Ao mesmo tempo, desenvolveu uma política externa mais agressiva e mais afirmativa na região. No plano económico, acentuou a agenda neoliberal, acelerando as privatizações e reduzindo direitos laborais e sindicais, sob o pretexto de atrair o investimento das multinacionais, o que gerou alguns protestos. No último ano, a sua popularidade diminuiu e, apesar de as sondagens continuarem a dar vantagem ao BJP sobre o INC, indicam que Modi poderá perder a maioria absoluta, o que deixa muitas incógnitas sobre o próximo governo, que poderá vir a depender de vários partidos regionais.

O Bangladesh, localizado nas férteis planícies do delta do Ganges, é um dos estados mais populosos do mundo, onde mais de 165 milhões de pessoas vivem em menos de 145 mil Km2. Porém, é um país pobre, com grandes carências infraestruturais, que o tornam particularmente vulnerável às mais variadas catástrofes naturais. Antigo Paquistão Oriental, tornou-se independente em 1971, com o apoio indiano, o qual originou mais uma guerra indo-paquistanesa. Contudo, desde então, a sua vida política tem sido bastante agitada. Até 1990, houve uma série de golpes de Estado, com destaque para os de 1975, que terminou com o assassinato do “pai” da independência Sheikh Mujibar Rahman, líder da Liga Awami (AL), formação de esquerda que liderou a luta pela independência, e o de 1981, em que foi morto o general Ziaur Rahman, fundador do conservador Partido Nacionalista do Bangladesh (BNP). A partir daí, não voltou a haver nenhum golpe, embora, em 2007, o governo de gestão tenha, sob pressão dos militares, declarado o estado de emergência, levantado no ano seguinte. As crises políticas foram recorrentes e quase sempre acompanhadas de episódios de violência política. Por outro lado, desde 2004 que o país tem sido atingido por atentados levados a efeito por grupos islamitas. A responsabilidade cabe às líderes dos dois principais partidos - Sheikh Hasina (AL), filha do primeiro, e Khaleda Zia (BNP), viúva do segundo – que se foram alterando no poder entre 1991 e 2008, naquilo que ficou popularmente conhecido como a “guerra das viúvas”. Após o triunfo da primeira, em 2008, a AL tem-se mantido no poder, já que, em 2013, o BNP boicotou as legislativas e, em dezembro, com Khaleda Zia condenada e presa sob acusações de corrupção, novo ato eleitoral deu uma vitória esmagadora à Liga Awami perante acusações de fraude eleitoral massiva por parte da oposição. Sheikh Hasina mantem-se, assim, como primeira-ministra, mas tudo indica que também a instabilidade se mantenha.

A norte da Índia, existem dois estados situados na encosta meridional dos Himalaias: o Nepal e o Butão. Contudo, as respetivas situações políticas são, atualmente diferentes.

O Nepal é um país bastante pobre, que foi regido por uma monarquia até 2008 e é hoje democraticamente governado pelos comunistas. Nos últimos anos do regime monárquico, o país foi sacudido por uma violenta guerrilha maoísta, com apoio entre os camponeses das áreas rurais mais pobres. Um acordo de paz permitiu a sua integração na nova república democrática, com a sua face legal, o Partido Comunista (Maoísta). Este venceu as eleições constituintes de 2008 com maioria relativa e o seu líder, Pushpa Kamal Dahal, conhecido pelo nome de guerra “Prachandra”, tornou-se primeiro-ministro, mas foi obrigado a demitir-se um ano depois devido a divergências com outras forças políticas sobre a nova Constituição. A Constituinte terminou sem conseguir elaborar um novo texto constitucional e novo ato eleitoral decorreu em 2013, com o conservador Congresso Nepalês (NC) a ser o mais votado e a formar um governo com o moderado Partido Comunista (Unificado Marxista-Leninista). Finalmente, a nova Constituição foi aprovada em 2015. Nas eleições de 2017, esta último derrotou o NC e o seu líder, Khadga Prasad Oil, assumiu o cargo de primeiro-ministro, após se ter coligado com os maoistas. Em maio, as duas formações comunistas fundiram-se, dando lugar ao Partido Comunista do Nepal (NCP), que dirige, atualmente, o país.

Já o Butão mantém o regime monárquico, mas, também em 2008, este transformou-se numa monarquia constitucional. Nas legislativas de maio, o centrista Partido Popular Democrático (PDP), no governo, foi derrotado pelo social-democrata Partido Unido do Butão (DNT), mantendo-se o conservador Partido da Paz e da Prosperidade (DPT) na oposição.

Falta falar dos dois estados insulares da área, o Sri Lanka e as Maldivas. Embora pequenos, são mais prósperos que os seus vizinhos do continente, devido ao turismo, embora o primeiro tenha também na exportação do chá uma grande fonte de receita. A sua situação estratégica torna-os peões na luta surda pela influência que a Índia e a China travam na região.

O Sri Lanka, antigo Ceilão, tem também passado por forte instabilidade política. Embora as suas instituições democráticas se revelem relativamente sólidas, enfrentou uma longa guerra civil, iniciada em 1983, opondo a minoria tâmil (15% da população), hindu e localizada no Norte e na costa Leste do país, à maioria cingalesa, budista. Os primeiros, que se sentiam discriminados face aos segundos, pretendiam a criação de um estado independente naquelas regiões. Com apoios no vizinho estado indiano de Tamil Nadu, no Sueste da Índia, e financiados pela sua numerosa diáspora, criaram uma temível organização guerrilheira, os Tigres Tâmil (LTTE), que iniciou a luta armada. Esta afetou, essencialmente, as áreas habitadas pelos tâmiles, mas o LTTE levou a cabo vários atentados na capital. A guerra, que terminou em 2009, com a derrota total da guerrilha e a morte do seu líder, Velupillai Prabhakaran, assumiu grande crueldade, com ambos os lados a serem acusados de crimes contra a Humanidade. Após o fim do conflito, o presidente Mahinda Rajapaksa desenvolveu uma política de aproximação à China, que o apoiara durante aquele, o que provocou o desagrado dos vizinhos indianos. Nas presidenciais de 2015, Maithripala Sirisena, apresentado pela Frente Nacional Unida (UNF), de centro-direita, obteve uma vitória surpreendente sobre o chefe de Estado incumbente, pertencente à Aliança Popular Unida da Liberdade (UPFA), da esquerda nacionalista cingalesa, beneficiando do voto tâmil, a quem esta última era hostil. Esse resultado foi confirmado nas legislativas desse ano, em que a UNF venceu as eleições legislativas sem maioria absoluta. O seu líder, Ranil Wickremesinghe, fez uma coligação pós-eleitoral com a Aliança Nacional Tâmil (TNA) e tornou-se primeiro-ministro. Em outubro, ocorreu uma crise constitucional, quando Sirisena, antigo membro da UPFA, demitiu o chefe do executivo e nomeou o seu antecessor na presidência e adversário eleitoral, Rajapksa, em sua substituição, originando manifestações contra e a favor da decisão. Esta terminou em dezembro, com a decisão presidencial a ser revertida pelo Supremo Tribunal, obrigando o presidente a repor em funções Wickremesinghe e o seu governo.

Por fim, se as Maldivas podem ser um paraíso turístico, não o são do ponto de vista político. A contestação ao presidente Maumoon Abdul Gayoom, que governou ditatorialmente desde 1983, subiu de tom, provocando revoltas populares frequentes entre 2003 e 2005, ano em que o país se abriu ao multipartidarismo. Ao mesmo tempo, registou-se uma progressão do fundamentalismo islâmico, que culminou, em 2007, com um atentado a turistas. Após a aprovação de uma nova Constituição, em 2008, realizaram-se as primeiras eleições livres, nas quais o oposicionista Mohamed Nasheed, do liberal Partido Democrático das Maldivas (MDP) derrotou o presidente incumbente. Contudo, a contestação às suas políticas económicas originou protestos, em 2011, e, no ano seguinte, a sua demissão e substituição pelo seu “vice”, no que foi visto como um golpe palaciano. Nas presidenciais de 2013, foi derrotado por Abdulla Yameen, meio-irmão de Gayoom, do conservador Partido Progressista das Maldivas (MPP), por pequena margem. Nas legislativas de 2014, o triunfo coube ao MPP. Porém, em 2018, o candidato do MDP, Ibrahim Mohamed Solih, bateu surpreendentemente Yameen e há esperança de que haja um reforço da democracia, com o fim das restrições às liberdades que marcaram o mandato dos seus antecessores. Espera-se também uma maior aproximação à Índia, em detrimento da China, privilegiada pelo anterior governo. Veremos como correrão as legislativas de março.

Dada a extensão do texto, decidi dividir este em duas partes, ficando a Ásia Oriental, o Sueste Asiático e o Pacífico para um próximo artigo.

Sobre o/a autor(a)

Professor. Mestre em Geografia Humana e pós-graduado em Ciência Política. Membro da coordenadora concelhia de Coimbra do Bloco de Esquerda
Termos relacionados Internacional
(...)